segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sou
2008 está chegando ao fim e reconheço com uma pontinha de insatisfação que escrevi bem menos do que gostaria. Eu queria ter falado sobre tantas canções que me tocaram, mas nunca consigo entrar num acordo com o tempo, esse “compositor de destinos e tambor de todos os ritmos”. Abro meu bloquinho de notas e reencontro nomes de cds, cantores e compositores que foram se embolando e escondendo no decorrer das folhas e dos dias. Envergonhada assumo que devo uns cinco textos sobre excelentes trabalhos de artistas de Juiz de Fora, mas não me perguntem porque eles não saem, pois nem eu sei.


Vou passando as folhas do bloco (que já está despencando), anotações e mais anotações dispersas sobre trabalhos de João Donato, Gilberto Gil, Daniel Gonzaga, Joyce, Zeca Pagodinho, Mamão, Mônica Salmaso, João Nogueira, Lenine, Waly Salomão, Leny Andrade, Fernanda Cunha, Milton Nascimento, Cristóvão Bastos, Marcelo Camelo e tantos e tantos. Aproveitando o clima de natal, estou pensando em fazer uma boa ação, vou manda-lo de presente para o Nelson Motta, quem sabe ele aproveita alguma coisa em suas aparições na TV Globo.


Brincadeiras à parte. Vale a pena dedicar a última crônica do ano ao belo cd Nós, que inaugura a carreira solo do cantor, compositor e instrumentista Marcelo Camelo. O disco me chamou atenção de cara pela capa, feita em papelão numa tonalidade meio parda, que me lembrou o livrinho Na corda bamba, de Cacaso. Recordo como se fosse hoje o dia em que Pedro Landim (filho de Cacaso) me mostrou com todo cuidado e carinho seu único exemplar (muito bem conservado) desse microlivro de poemas, produzido nos moldes artesanais, como mandava a estética da poesia marginal. A concepção visual de Na corda bamba imitava o formato de um talão de cheques, em que os poemas-relâmpago revelavam uma linguagem que privilegiava o coloquial e o lirismo extraído das miudezas do cotidiano.


Nos tempos sombrios da ditadura militar Cacaso, Chico Alvim, Chacal e Ana Cristina César criaram poemas que se confundiam com a própria experiência de vida, viver a vida e o verso sem amarras era a ordem vigente no reino de invenção dos poetas marginais: “Poesia/ Eu não te escrevo/ Eu te/Vivo/E viva nós!” (Na corda bamba/Cacaso), “Vai ter uma festa/ que eu vou dançar/ até o sapato pedir para parar/ aí eu paro/ tiro o sapato/ e danço o resto da vida” (Rápido e Rasteiro/Chacal). Ana Cristina sobretudo evidenciava em seus poemas um forte traço confessional, um auto desvelar-se (na verdade forjado) que não passava de puro exercício literário: “O tempo fecha/ Sou fiel aos acontecimentos biográficos/ Mais do que fiel, oh, tão presa!”.


O cd de Marcelo Camelo é voltado para o tema da solidão, que se revela desde a proposta do título. A palavra “nós” ao ser lida de cabeça para baixo transforma-se em “sou”, ou seja, é a expressão do uno no múltiplo e vice versa. Neste trabalho o artista da vasão a todo o seu lirismo, deixando aflorar uma atmosfera melancólica. As composições Passeando e Saudade, interpretadas pelo piano solo de Clara Sverner reforçam o tom introspectivo de Nós. Essas canções mostram a influência da vertente clássica na formação de Camelo, que nos álbuns anteriores ficou um pouco oculta na imagem de músico do universo pop e rock.


Para captar a essência de Nós são necessárias várias audições. Camelo é músico das sutilezas e seu canto traz a beleza do legado cool de Chet Baker, Julie London e João Gilberto. Sua voz é intensa, mas sem excessos, valoriza o colorido de cada nota, respeita os intervalos, os silêncios. Téo e a gaivota, composição que abre o disco, coloca em destaque as guitarras de Fernando Cappi, Marinho e Marcelo Camelo. O mergulho nas coisas da alma se faz com uma levada leve e simultâneamente plena de força poética: “todos os encontros todos os poemas/manda me avisar/ todos os embates todos os dilemas/ manda me avisar/ eu sei/ todo ser humano/pode ser um anjo”.


A canção Janta, interpretada em dueto com Mallu Magalhães é um exercício de delicadeza. Desponta a pureza do canto de Mallu, jovem cantora de apenas quinze anos que Camelo descobriu no site de música myspace. Mallu canta tão suave e profundo alguns versos em inglês, que em certo momento me remeteu a Björk. Neste álbum o músico abre espaço para experimentar novas parcerias, como é o caso também da interpretação luxuosamente brasileira de Liberdade, realizada com sua voz, violão e a sanfona primorosa e pungente de Dominguinhos: “Promovi parcerias ao longo do disco e estou promovendo no show, e a cada segundo da minha vida, o tempo inteiro. Gosto de me aproximar das pessoas por esse tipo de inteligência coletiva. Gosto de ouvir as opiniões de todo mundo, gosto de saber o que os outros pensam. Então, eu não me sinto num momento sozinho, nem nada. Estou totalmente acompanhado de novas pessoas”.


A atmosfera introspectiva adquire o ápice em Santa Chuva, canção de Camelo gravada por Maria Rita em seu primeiro disco. O pianista e arranjador Gilson Peranzzetta recriou a música dando ênfase a densidade da linha melódica, reconstruída com um arranjo primoroso em que o violão preciso e enxuto de Camelo é revestido por violinos, violas e violoncelos. A letra reitera a sensação do lirismo melancólico, mesmo assim é tão bonito e sincero que em nenhum momento esbarra na pieguice. Em Nós/Sou, Marcelo Camelo criou asas e voou alto, vale compartilhar com ele essa Doce Solidão: “Posso estar só mas sou de todo mundo/por eu ser só um/e nem a não a nem dá solidão/ foge que eu te encontro eu já tenho asa/ isso lá é bom/ doce solidão?”.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Calcanhotto pós-moderna: a exatidão na simplicidade




Partimpim. Partimpim? Partimpim-Pirlimpimpim? Que palavra, que artista é essa de nome tão exótico que nos remete à palavra mágica dita pela Emília de Monteiro Lobato? Partimpim é uma espécie de solução mágica desenvolvida pela cantora e compositora Adriana Calcanhotto na infância, quando não conseguia pronunciar seu tão empolado sobrenome. Em seu último cd, a palavra “Partimpim” é resgatada com toda a sua força poética e lúdica. Um disco dedicado às crianças, mas que não subestima sua capacidade, e por isso mesmo acaba agradando também aos adultos. O design do encarte, a escolha do repertório, os arranjos, tudo se encaixa numa síntese perfeita, resultando num trabalho de uma artista madura.
Partimpim traz a marca da inventividade, com o auxílio de uma precisão técnica que prima pela beleza enxuta. Escrever é cortar palavras, já dizia Drummond. A cada novo trabalho, Adriana vai se depurando mais ao optar por cada vez menos. A estética minimalista é a mola mestra dessa compositora que persegue a exatidão na simplicidade. Ao comentar seu disco anterior, Cantada, Calcanhotto enfatizava: “Nossos desejos somados fizeram com que todos os processos da feitura do disco fossem balizados pela idéia de ´tirar´: tirar os excessos, tirar os enfeites, tirar acordes, cortar vozes, solos inteiros, repetições, sobras, gorduras, over-actings, efeitos, citações, plug-ins, enfim, jogar no lixo tudo o que não parecesse essencial’.

O acabamento gráfico sempre primoroso é um dado que se destaca em seu trabalho, desde o primeiro disco. Ali, com trajes em cores primárias e fortes, vemos Adriana com um ramo de flores amarelas nas mãos, apoiada no beiral de uma casa-cenário que alude às cores da bandeira brasileira. O diálogo constante com as artes visuais – cinema e principalmente pintura – é muito bem conduzido, dada a habilidade da compositora em trabalhar com citações, recortes e colagens. Calcanhoto é uma artista essencialmente pós-moderna: “as coisas todas para mim são misturas. Gosto dos autores, daquela cabeça, daquele ponto de vista, daquela canção ou daquele quadro, daquele experimento. Tudo isso junto são as coisas de que eu gosto”.

Senhas, o segundo disco, que leva um título emblemático, compatível com o caráter iconoclasta da canção homônima, mostra todo o burilamento plástico de Adriana. Na canção Tons, dedicada a seu conterrâneo, o pintor gaúcho Iberê Camargo, ela brinca com as tintas: Roxos/Todos/Pretos/Partes/Pratas/Andrades/Azuis/Azares/Amarras/Amar/Elos/Amargores/Calipsos/
Cortesias/Cortes/Corese/Rancores/Luzes/Milagres/Lilases/Rosas/Guimarães/Mulatos/Dourados/Rubores/Castigos/Castanhos/Castores”.Calipsos/Cortesias/Cortes/Corese/Rancores/Luzes/Milagres/Lilases/Rosas/Guimarães/Mulatos/Dourados/Rubores/Castigos/Castanhos/Castores”.

Já na música Esquadros Calcanhotto anuncia seu “olho armado”, flerta com as cores fortes da pintora Frida Kahlo e do cineasta Pedro Almodóvar: “Eu ando pelo mundo prestando atenção/ Em cores que eu não sei o nome/ Cores de Almodóvar/ Cores de Frida Kahlo, cores”. Além do constante trânsito com as artes plásticas, Adriana mostra-se à vontade no diálogo com poemas e poetas; não só estrangeiros, a exemplo de Gertrude Stein e Mário de Sá-Carneiro, como também nomes representativos do cânone brasileiro, principalmente Drummond.

Mas o intercâmbio se faz mais intenso com poetas da linhagem tropicalista e suas vertentes, como Waly Salomão, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes e Alice Ruiz. Em A fábrica do poema, onde dialoga intensamente com o fazer literário, a compositora “extrai melodia” de um poema metalinguístico de Waly, aparentemente anti-musical. Dedicado à arquiteta Lina Bo Bardi, a construção do “poema-letra” remete à secura de João Cabral: “Sonho o poema de arquitetura ideal/cuja própria nata de cimento encaixa/palavra por palavra, tornei-me perito em extrair/faíscas das britas e leite das pedras/acordo”.

Adriana Calcanhoto revela-se a cada momento, e mais ainda neste A Fábrica do Poema, uma compositora de grande ousadia ao transformar em música meras citações, impressões, falas as mais corriqueiras do cotidiano. Como na canção Por que você faz cinema?, onde ela consegue musicar as palavras do cineasta Joaquim Pedro de Andrade numa entrevista ao jornal francês Libération. Coisa de quem possui o “dom do partimpim”, de quem saber usar sua varinha de condão só “Para chatear os imbecis,/para não ser aplaudido depois de seqüências/dó de peito,/para viver à beira do abismo, para correr o risco de ser/ desmascarado pelo grande público,/para que conhecidos/e desconhecidos se deliciem”.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008


E nos tempos sombrios, também se cantará? Também se cantará sobre os tempos sombrios

Brecht



Transversal do Tempo


Em novembro de 77 Elis estréia em São Paulo o show Transversal do Tempo, um espetáculo denso com forte apelo político. É temático ao expressar a angústia claustrofóbica do mundo moderno, um universo de múltiplas ausências e carências. Elis canta a falta de perspectiva, de espaço, de ar e de reciprocidades. A temática do show foi extraída de uma experiência contundente e decepcionante vivenciada pela cantora. Dentro de um táxi a caminho de uma gravação, grávida de sete meses e dependendo de um guarda de trânsito para livra-la do congestionamento:

o que acabei presenciando, sem querer, foi o desrespeito generalizado por aí. Assisti, ao vivo, a falta de respeito que está solta pelo ar. A falta de respeito existe para com o rio, a pessoa, a árvore, o passarinho. ( Veja, 1978)

Transversal do Tempo é um trabalho de amadurecimento e lucidez. A sua arte demonstra um compromisso com os problemas brasileiros; são nuances de cor local que desaguam com intensidade no nacionalismo de Saudades do Brasil: "Resolvi que minha arte deve ter ligação com a realidade em que vivo". Cenários, figurino, repertório, tudo retratava o alto teor crítico do espetáculo. Acusado de panfletário, pretencioso, foi alvo das mais díspares opiniões, tanto que no texto da contracapa o letrista Aldir Blanc utiliza-se das palavras de Mário de Andrade em seu Prefácio Interessantíssimo: "... muitos entenderam e gostaram, muitos entenderam e não gostaram, outros gostaram e não entenderam, e alguns não entenderam e não gostaram". No espetáculo constam canções de Paulinho da Viola, Chico Buarque, João Bosco, Ivan Lins entre outros, quase todas de forte apelo social. Embora João Bosco e Aldir tenham composto a canção tema Transversal do Tempo com base na experiência vivenciada pela cantora no trânsito, Sinal Fechado de Paulinho da Viola é a que melhor sintetiza a razão do espetáculo: a incomunicabilidade, o drama Baudelairiano, a solidão do homem, sempre fragmentado, perdido em meio a multidão da cidade que o sufoca e o angustia. A ausência de comunicação é marcada pelo tempo acelerado; neste mundo caótico e corrosivo todos correm desordenadamente à procura de novos espaços, um frenesi incontido em busca de alívio, de um pouco de paz:

Tudo bem, eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro. E você?
Tudo bem eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe?


Em nosso país, sob o tacape da ditadura militar, reino de incertezas e inquietações, só era permitido aos artistas um tipo de manifestação formal e contida. A censura atazanava a vida de todos, cerceava a liberdade de criação. Mesmo assim os compositores usavam de artifícios e driblavam o obscurantismo com simbologia e metáforas. Elis era uma espécie de arauto da causa libertária. O sinal estava fechado, as portas trancadas, as bocas permaneciam caladas. Adélia Bezerra de Menezes define com clareza:

Podemos dizer que a canção de protesto exerce na sociedade uma função catártica, pois agenda ao nível da afetividade, provoca uma liberação de emoções, um certo alívio.

Percebe-se que a maioria das canções ilustra uma preocupação com a complexidade da organização social. De Saudosa Maloca de Adoniran Barbosa, passando por João Bosco em Rancho da Goiabada e desembocando em Deus lhe pague e Construção, de Chico Buarque, constata-se uma preocupação com os desígnios da classe operária:


Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro pareses sólidas...


Os bóias-frias quando tomam
Umas birita espantando a tristeza ...


Pela piada no bar
E o futebol pra aplaudir


Elis Regina durante praticamente toda a carreira lutou e integrou-se a movimentos e partidos políticos destinados à defesa dos excluídos. Articulada, analítica e sempre polêmica ela esteve inúmeras vezes envolvida com associações de classes, movimentos operários e questões femininas:


Elis era muito articulada. Sabia propor e defender idéias. As vezes passava por profunda conhecedora de assuntos sobre os quais apenas tinha ouvido falar. Mas parecia estar sempre com antena ligada. No dia seguinte era capaz de ensinar ao mestre o que aprendera e com um despudor desconcertante. (Elis por Ela mesma, São Paulo, 1995)


Em virtude do caráter multifacetado e paradoxal de sua personalidade, Elis foi inúmeras vezes acusada, confundida, julgada. Quem não se lembra do episódio de sua participação nas Olimpíadas do Exército em 72? Elis chegou a se justificar:


Eu cantei nas Olimpíadas do exército, das quais o pessoal da Globo Também participou. Foram todos obrigados. E você vai dizer que não? Eu tinha exemplos muito recentes de pessoas que disseram não e se lascaram. Então eu disse sim.


As inúmeras justificativas e explicações dadas por Elis na época não amenizaram o clima de hostilidade que a envolvia. A esquerda a esconjurou, grande parte do público intelectualizado se revoltou contra suas atitudes. Daí podemos então compreender porque Transversal do tempo é de todos os shows de sua carreira o mais politizado, integrado à realidade brasileira. Elis desejava desfazer os mal entendidos apresentando um espetáculo sério, coerente e compromissado. No fundo queria mostrar a sua face inteligente e responsável diante da implacável ditadura. Elis rejeitava, portanto, o rótulo de alienada, anti-populista e direitista.

Chamam meu show de velho, de atado a 1968? Que descoberta! Pergunto a eles: as coisas mudaram tanto, mesmo, de lá para cá que possa me desatar de 68? O Transversal do Tempo, como Tranversal do tempo, inclusive se propõe a isso: ser jornalístico, destinado justamente a refrescar memórias entorpecidas.

Em Boto, de Tom Jobim e jararaca e Querelas do Brasil, de Aldir Blanc e Maurício Tapajós, identificam-se questionamentos sobre a identidade brasileira, a dominação/colonialismo cultural, as imposições mercadológicas:


O Brazyl não conhece o Brasil
O Brasil nunca foi ao Brazyl
O Brazyl não merece o Brasil
O Brazyl tá matando o Brasil


Interessante observar que em Transversal do Tempo há uma total uniformidade de repertório. Elis jamais se distancia da proposta central. Da primeira a última faixa estabelece-se um continuum em que letra, harmonia e ritmo não sofrem qualquer espécie de ruptura. Com o firme propósito de afirmar a identidade de seu trabalho, Elis jamais extrapolou inerentes potencialidades em prol de um exibicionismo inócuo, lugar comum em intérpretes iniciantes que fazem de seus repertórios um verdadeiro "samba do crioulo doido", uma salada composta de jazz, samba, bolerões, breguices e muito mais. Alternando a sua veia dramática e o humor caústico, Elis não perdia a autenticidade do canto.


Muitos cantores conseguem se manter absolutamente distantes de seu repertório. Podem cantar o amor na primeira faixa de um disco, louvar as verdes matas do Brasil na segunda, reclamar contra o preço do feijão na terceira e não se identificar com nada disso. Não é, nem de longe, o caso de Elis Regina. (Furacão Elis, 1994)


Transversal do Tempo antecipa a grande festa confraternizadora que acontecerá em Saudades do Brasil. Procurou-se transformar Tanatos em Eros onde o desejo permanecia ainda muito individualizado, não compartilhado. Indivíduos distintos perdidos no turbilhão das cidades: "quando é que você telefona? Precisamos nos ver por aí ...". Os diferentes níveis sociais (empresários, operários, bóias-frias) são tematizados em conjunto, porém permanecem individualizados. Em Saudades do Brasil Eros torna-se ágape, um grande banquete pleno de empatias. A cantora maior, os músicos experientes, os dfançarinos e os atores alegorizam a cordialidade do povo brasileiro:

Já disse numa expressão feliz, que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade - daremos ao mundo o "homem cordial". A ilhanesa no trato, a hospitalidade, a generosidade, virrtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro. ( Hollanda, Sergio Buarque de)

Em Transversal do Tempo o elenco não tem a grandiloquência dos espetáculos Falso Brilhante e Saudades do Brasil. Como Elis pretendia excursionar pelo país, leva-lo às praças públicas, participar de campanhas beneficentes e políticas como o espetáculo que fez a pedido do então presidente do Partido dos Trabalhadores Luís Inácio Lula da Silva.

Mesmo com toda postura audaciosa e desafiadora, Elis de certa maneira temia a censura, obedecendo, sem subserviência é claro, os limites impostos. Transversal do Tempo foi apresentado sob forte clima de tensão:

Eu morro de medo. Faço todos os espetáculos me borrando de medo todos os dias. Faço, mas com medo todos os dias. Faço, mas com medo. E se me mandar parar eu paro, porque tenho medo.

Início: Bossa Nova, Fino da Bossa, Tropicalismo




É sol, é sal, é sul". Estamos em 1958. Enquanto Elis permanecia ocupando seu posto de garota-sensação em Porto Alegre, cantando antigos sambas canções e boleros, na zona sul do Rio de Janeiro cantores, compositores, instrumentistas, enfim, toda uma safra musical interessada na renovação da música popular brasileira passou a se reunir, compor canções modernas iniciando o revolucionário movimento que se autodenominou Bossa Nova. Com João Gilberto, baiano de juazeiro, nasce a batida diferente que, aliada a uma interpretação soft e cool, nos remete aos afinados e harmônicos sussurros de Chet Baker e Julie London.

João Gilberto é o mais completo representante dessa nova modalidade musical porque inova ritmicamente no violão e na leveza do canto. A Bossa Nova, portanto, abriu um novo caminho estético para a música popular brasileira, até então estratificada e apenas retratando o cotidiano popular de forma simples e na maioria das vezes trágica, com poucos rebuscamentos melódicos, salvo, naturalmente exceções do quilate de um Dorival Caymmi, Ary Barroso, Pixinguinha, entre outros. A Bossa Nova chegou senhora de si, firme e forte. Havia espaço para a sua modernidade. O país naquele instante permitia vôos maiores. A era JK. Com Juscelino Kubitschek o Brasil vivia um governo de afirmação nacionalista, tentava ordenar o progresso, buscava o crescimento econômico. A Bossa Nova valorizou o lúdico e o denso. Ainda que cantasse o amor, o sorriso e a flor, a palavra de ordem de uma pequena parcela da juventude carioca, por vezes até mesmo alienada quanto à realidade social do país, a Bossa Nova inovou, deu consistência ao texto da canção, quer em seus brejeiros lobos-bobos ou no viniciano verso onde a felicidade é como "gota de orvalho numa pétala de flor". Vinicius de Moraes é de fato e de direito o responsável pelo parâmetro qualitativo das letras da Bossa Nova. Enriqueceu melodias de jovens compositores como Edu Lobo, Francis Hime, entre outros e influenciou várias gerações de novos letristas que nele se espelhavam na arte de bem versejar as canções:

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Toda concepção de canto mudaria. A excessiva teatralização, o arrebatamento melodramático, o ranço operístico e a voz afetada dos cantores sairiam de moda. O cantor sintonizado com a Bossa Nova assumiria uma posição de relevo em oposição ao estilo anterior, agora ele seria necessariamente uma espécie de co-participante da elaboração musical, não procurando mais se afirmar ou se sobrepor a própria obra. O estilo cool de cantar "... coíbe o personalismo em favor de uma real integração do canto na obra musical" (CAMPOS, 1968). Poderíamos dizer que a proposta musical de João Gilberto equivale a proposta poética de um outro João. A bossa gilbertiana e a poética cabralina procuram eliminar todos os resíduos sentimentais, ambas querem a precisão, a concretude, a síntese:

O cante a palo seco
É um cante desarmado
Só a lâmina da voz
Sem a arma do braço

Elis Regina, contrariamente aos princípios básicos da Bossa Nova, se tornará famosa pela lâmina de sua voz hot e pela arma do braço. Revelou-se em 1965 quando venceu o Primeiro Festival de Música Popular, da Tv Excelsior, interpretando Arrastão.

O sucesso foi tão grande e imediato que logo passou a integrar o fechado círculo dos cantores famosos. Elis passou a ser motivo de cobiça das emissoras de televisão, rádios e multinacionais do disco. Portanto, nada mais conseqüente do que o programa televisivo O fino da Bossa (ao lado do pouco expressivo sambista Jair Rodrigues, Elis comandava o espetáculo de auditório da TV Record) que bateu recordes de audiência bem como de vendas dos LPs do referido programa.

A presença cênica de Elis foi motivo de controvérsia. Explica-se : os produtores dos shows que fazia no lendário Beco das garrafas (Mieli e Bôscoli) queriam tirar o ranço provinciano da cantora; e quem respondeu pela sua transformação de postura foi o coreógrafo norte-americano Lennie Dale. Esta performance gerou uma encenação exagerada que logo o público batizou-a de Eliscóptero.

Elis Regina foi a primeira cantora da MPB moderna a se popularizar através do veículo televisivo. Em contrapartida este sucesso contribuiu para um certo desgaste e deturpação de sua imagem. A fórmula do showbusiness sempre apelou para o ibope a qualquer preço, ainda que em detrimento da qualidade. O apelo ao comercialismo televisivo destruiu a originalidade e o vanguardismo do programa O fino da Bossa, que foi se tornando cada vez mais previsível e até mesmo caricatural. Elis Regina, por um momento, transformou-se no protótipo do exagero:

A gesticulação de expressiva passou a ser francamente expressionista, incluido, à maneira de certos cantores norte americanos, movimentos de regência musical, indicativos de paradas, ou entradas dos conjuntos acompanhantes, ou ainda sublinhando imitativamente passagens da letra da música, numa ênfase quase declamatória. (CAMPOS, 1968)

Elis durante toda a carreira manteve a integridade de sua arte. Não se deixou levar pelas baratas e oportunistas solicitações do marketing vigente; ainda assim ela demorou a impor em definitivo a força de sua arte.

Eu cantava uma coisa alô, alô Carmem Miranda e botaram um baile de carnaval e uma mulher fantasiada dançando com umas bananas na cabeça, feito louca. Você vai cantar Atrás da Porta e eles põem você atrás da porta. ( PASQUIM, 1982)


A cultura pós moderna possui "... O entretenimento como ideologia, o espetáculo como signo da forma mercadoria...". Elis , consciente do mecanismo de exploração que constitui a moderna sociedade de consumo, expressava indignação e inconformismo:

Profissionalmente resolvi assumir o papel de palhaço. Sei da minha condição de bobo da corte e vou levar isso adiante, até o dia em que me tomarem os guizos.

De 1965 a 1970 Elis freqüentou os lares dos país através das telas de televisão. Mas no momento em que sentiu que não estava acrescentando nada ao veículo ( e vice-versa) se afastou:

Acho que pertenço à primeira geração que enfrentou o problema de centralização dos programas da TV, com a chegada do vídeo teipe, emissoras independentes passaram a ser apenas retransmissoras. Independente de ter um custo operacional muito baixo, existia o ditado santo de casa nunca faz milagre. A primeira providência tomada foi desfazer o departamento musical. Além disso, eu era apenas um número: chegava, cantava e saía.

A carreira de Elis foi sempre pautada por pressões, imposições arrufos. Quase sempre este leque de autoritarismo partia do esquema, pode-se dizer neurótico, da televisão. Ao mesmo tempo a cantora sabia que a relação com o público a cada dia se tornava mais virtual, logo seria quase impossível a um artista não ceder às vontades e aos desmandos televisivos. A linguagem musical pós-moderna está diretamente vinculada à imagem, aos acelerados e desconexos videoclipes que dentro do circuito de divulgação e propaganda musical exercem um papel de cartão de visitas. O caráter de espetáculo que a televisão e o videoclipe transmite deturpa e desconstrói a verdadeira concepção de música; em diversas ocasiões as imagens que se sucedem no espaço das telas não correspondem à proposta do compositor ou até mesmo do intérprete. Neste universo que se afirma e exalta pela predominância do efêmero, vale mais o impacto do instante; inexistem os tempos passado e futuro, o artista pode passar da condição in a out em frações de segundos. Não sabemos se restará algo para a posteridade. Elis conclui esse assunto de maneira pessimista e cética: "Nós artistas, não vamos mais ter lugar no mundo, seremos apenas um colírio, mero lazer. Isso é muito triste, mas não vejo saídas."

A frase acima revela uma Elis Regina desencantada com o futuro do artista diante do avanço tecnológico, por vezes inibidor e mercantilista, a tolher a sensibilidade de quem cria. Apesar de queixas e lamúrias, Elis viveu também momentos de encantamento e interação musical. Assim foi o LP Tom e Elis (1974), presente da gravadora Philips pelos 10 anos de sucesso de venda e crítica. Este registro feito em Los Angeles com os mais avançados recursos é certamente o ponto alto de sua carreira:

... foram momentos vividos por duas pessoas muito tensas que só conseguem se descontrair através da música. Ficou a saudade de um passado recente, em que as cores eram outras e as pessoas mais felizes. ( Tom e Elis, Philips, 1974)

Na música popular brasileira de hoje somos todos conseqüência da coragem de um Jobim. (Elis Regina)

Elis não foi só a melhor cantora do país. De antenas ligadas na produção musical dos compositores iniciantes revelou e gravou desconhecidos que imediatamente passaram a ocupar espaço em nosso cancioneiro. Milton Nascimento, Ivan Lins, João Bosco, Gonzaguinha, Fagner, Renato Teixeira, Belchior, entre outros, são diletos filhos da cantora. O seu olho clínico, uma espécie de antevisão de qualidade, sempre rendeu saborosos frutos. Quem não se lembra, por exemplo, de Canção do sal, Cartomante, Agnus Sei, Redescobrir, Mucuripe, Romaria e Como nossos pais? A força, o poder de sedução de Elis era tão grande que Milton Nascimento chegou a declarar que tudo que fazia era para sua diva.

O Tropicalismo toma de assalto a cena musical brasileira. Alicerçado nas experiências da contracultura norte-americana ( Woodstock, LSD, psicodelismo, power flower, peace and love) e alimentado pelo vanguardismo do pós-concretismo ( Haroldo de Camppos, Augusto de Campos e Décio Pignatari), os baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé, além do poeta Torquato Neto, decidiram virar a mesa. Elis Regina demorou a entender o que de fato propunha o movimento tropicalista, preocupou-se mais em reagir contra o aparato cênico chocante e transgressor do que com o sustancial; se a cantora tivesse logo compreendido que por detrás daquela azáfama ensurdecedora dos jovens cabeludos existia uma crítica profundamente lúcida ao processo de dependência cultural brasileira, talvez ela não demorasse tanto a se manifestar:

O negócio que o Caetano estava fazendo estava mexendo demais comigo, eu fiquei muito agitada, não entendendo o que estava acontecendo. Realmente balançou o meu coreto...Eu parei, pensei e disse: é ele está certíssimo.


O Tropicalismo surgiu em fins da década de 60, mais precisamente em 1967 quando as canções Alegria Alegria, de Caetano Veloso e Domingo no Parque, de Gilberto Gil, foram lançadas no Terceiro Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. O alto teor de subversão do repertório tropicalista se distinguia do tom lírico-harmônico conformista que estavamos acostumados a ouvir nos tempos idílicos em que reinava a Bossa Nova. Após a euforia desenvolvimentista que alimentava um Brasil de sonhos, expectativas e aspirações libertárias, viveríamos um prolongado período de inquietação. Conscientes de toda a falência dos mitos nacionalistas e dos impasses do processo cultural brasileiro, os baianos elaboraram a expressão da "crise". O universal, o múltiplo e o cromático dos espaços pós-modernos são analisados pelo Tropicalismo que procurou transcender o âmbito da música popular. Sob a inspiração antropofágica os baianos reuniram elementos diversos da cultura brasileira que, acrescentados à influência de movimentos culturais e políticos que eclodiam nos EUA e Europa, colocaram em evidência as inúmeras contradições históricas, ideológicas e artísticas de nossa cultura. De acordo com Caetano Veloso o Tropicalismo procurou retomar a linha evolutiva iniciada pela Bossa Nova que se encontrava oscilante entre a tradição e a modernidade. A MpB se tornara um reduto onde coexistiam arcaicos sambas quadrados e harmonias modernas sofisticadissimas. O procedimento tropicalista ambicionou justamente mexer e sistematizar a linguagem do cancioneiro popular através da conquista de uma atual que expressasse os problemas do tempo presente, o aqui e agora. Implantando a ruptura com a temática de tradição romântica e nostálgica, revolucionou o corpo e as atitudes através de um comportamento ousado e transgressivo. O grande mérito do Tropicalismo foi com certeza elevar o nível de crítica da música popular brasileira, colocando-a no mesmo patamar de discussão que havia por exemplo nos setores de cinema e teatro.

No cinema assistiamos também a explosão anárquica do delirante, louco, surrealista, iconoclasta, onírico, barroco e utópico Glauber Rocha. As inovações estéticas do Cinema Novo influenciaram em grande parte o movimento tropicalista. Segundo João Carlos Teixeira Gomes:

Glauber utilizou-se sempre de uma linguagem profusamente simbólica em que apesar da complexidade formal de seus filmes revelava processos criativos extremamente conscientes. Sua obra é um cruzamento de diversas influências literárias, teatrais, musicais e artísticas, com uma mundividência calcada nas experiências baianas e nordestinas.

O cineasta em sua existência dramática e conturbada mostrou uma intensa fidelidade às questões brasileiras. Como ele mesmo afirmava, possuía uma concepção épica e trágica da vida, transitava num labirinto ora de dor e brutalidade (estética da fome), ora de transcendência e transfiguração (estética do sonho).

Como já foi dito Elis Regina demorou a se entender cordialmente com os tropicalistas. No lp Ela convivem diversas tendências musicais. De Dolores Duran, compositora pré Bossa-Nova (Estrada do sol com Tom Jobim) ao tropicalista Caetano Veloso, Os Argonautas, Cinema Olympia, passando por Roberto e Erasmo Carlos Mundo Deserto, há um mix do que estava acontecendo naquele momento. O produtor Nelson Motta soube reunir no repertório de Elis todas as tendências musicais, colocando-as novamente na linha de frente, sem radicalismo pois. Em Golden Slumbers ela admite a importância dos Beatles, o que certos setores da música popular há tempos reclamavam. Elis, em hipótese alguma, ao se queixar sobre a utilização da guitarra e outros artifícios modernizantes pelo Tropicalismo, mostrava-se reacionário ou intransigente. O que ela temia era justamente a massificação, descaracterização e queda de qualidade da música popular brasileira invadida pelos hits norte-americanos:

É, aí pinta muita guitarra no samba, é a chegada da ordem de fora mesmo. Vamos faturar porque isso é um negócio como outro qualquer. Quer dizer, o romantismo foi pro brejo. Dane-se se você gosta de samba, vai começar a gostar de samba com guitarra agora. Começa a massificação. Toca de manhã no rádio, de tarde, de madrugada. Daqui a pouco está todo mundo achando ótimo. ( Elis Regina por Ela mesma, São Paulo 1995)

Durante os primeiros anos da década de 70 Elis Regina participou ativamente dos circuitos universitários decidida a divulgar a nova safra de talentosos compositores. O público a ser atingido obviamente era de gosto apurado, acima da média do ouvinte brasileiro. Esta evidência sociológica não foi bem entendida (ou distorcida) pela crítica. Não faltavam vozes que a acusavam de ser elitista e preconceituosa:

Naquela época por exemplo não havia os circuitos universitários, hoje, em dois meses, você visita quarenta cidades e canta para mais de 100.000 pessoas. O artista era obrigado, por falta de mercado e alternativa, a se dedicar exclusivamente a televisão. ( Elis por ela mesma, São Paulo 1995)

A gente é uim país pobre, com 80% de analfabetos, mas é pretencioso. Esse percentual que vai as universidades é que dita as regras, que dá as ordens, dita moda, discrimina...E eu nunca fui marionete, nem tive vocação.

Também não podemos nos esquecer da importância exercida pelos circuitos universitários para a divulgação da música popular brasileira. Foram presenças constantes atuais celebridades como João Bosco, Renato Teixeira, Ivan Lins, Gonzaguinha, entre outros. Antena ligada, ouvido apuradíssimo, Elis esteve acompanhando a evolução dos novos independentes. Gravou com os mineiros do Clube da Esquina, com o irreverente Tim Maia e não se esquecia de incentivar as últimas novidades, fossem elas o timbre raro de Tetê Espíndola ou as harmonias elaboradas de Arrigo Barnabé:

O Arrigo chegou num momento em que ele percebeu que a contracultura estava sendo assimilada, e desse jogo eu não quero participar, ser taxada de integrante da cultura oficial, que está diluindo as coisas novas ... acho que é preciso saber a hora de tirar o time de campo e permitir que esta contracultura estoure e auxilie a renovação geral.

Embora o instrumento de Elis fosse a lâmina ácida e cortante de sua voz, o quase total desconhecimento de teoria musical não impedia que ela pensasse como músico devido a sua extrema sensibilidade, intuição e musicalidade. A cantora chegou a exigir tanto de si própria (depuração técnica do canto) que Gilberto Gil em certa ocasião enviou-lhe um recado, uma espécie de meta-canção em que solicitava a Elis o alívio das tensões, o simplesmente cantar:" O compositor me disse que eu cantasse distraidamente essa canção/ ...que eu cantasse ligada no vento sem ligar pras coisas que ele quis dizer". Uma das características marcantes de sua trajetória é a evolução vocal. Desde os primeiros registros com apenas dezesseis anos, timbre ainda juvenil, percebe-se claramente a potência e a segurança na emissão das notas. Elis na plenitude da carreira mereceu comentários definitivos como este:

Elis foi uma das poucas cantoras que conheci que tinha cabeça de músico. Era uma cantora que não sabia harmonia mas sabia harmonizar, sabia quando o acorde estava errado, sabia arranjar. Ritmo perfeito, timing perfeito. (Edu Lobo Em entevista a TV Manchete, 1982)

De Viva a Brotolândia a Trem Azul (último disco) Elis alcança a perfeição técnica e traz em cada canção o sentimento à flor da pele. Ela percebia que a qualidade musical estava sendo renegada a favor do som pasteurizado, mesmo assim não deixava a novidade escapulir, passar batida. A capacidade musical era tanta que exercia até uma função, digamos, co-autoral. Transformava uma canção apenas singela em algo interessante através de sua interpretação definitiva. Admirava os clássicos Ary Barroso, Nélson Cavaquinho e Cartola como também dava a vida a compositores pouco relevantes, cite-se Guilherme Arantes. O talento co-autoral de Elis Regina era tão marcante que muuitos compositores se espantavam com as possibilidades da própria canção. Elis, as vezes, imprimia tons dramáticos ou irônicos às músicas de acordo com o que sentia ao dissecar a composição a ser passada ao público:

A primeira vez que Elis nos pediu uma música, fizemos Alô Alô Marciano. Ela avisou que queria uma coisa nossa, não uma coisa para ela. Quando Elis nos mostrou a gravação, estava bem diferente do que tínhamos feito. Ritmo, tudo. Ficamos chapados, aonde ela foi naquilo tudo. Foi aquela coisa de dar uma pincelada, fazer os comics dela. (Rita Lee em Furação Elis).

Elis sempre foi acompanhada pelos melhores músicos e arranjadores. A união afetiva e musical com o pianista e arranjador César Camargo Mariano, segundo marido, gerou trabalhos belíssimos. Com César realizou espetáculos memoráveis como Falso Brilhante, que ficou em cartaz por mais de dois anos. Este show exigiu de Elis uma profundo trabalho corporal, sob as orientações da conceituada diretora Mirian Muniz e do psiquiatra Roberto Freire, ela entregou-se a exercícios pesadíssimos de desinibição e expressão corporal, o que contribuiu profundamente para a libertação da rigidez que a classificava como cantora técnica e fria, favorecendo a exatidão de seu posicionamento cênico. Com Falso Brilhante Elis inicia um tipo de espetáculo que apresenta cada vez mais recursos teatrais. São bailarinos, atores incorporados à cena, músicos que se movimentam no palco, canções que Elis exaure até o último acorde.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008


Encontro com Calcanhotto



Em crônica recente dediquei Maré, de Adriana Calcanhotto, à minha sobrinha Tarumim, que ao completar dois meses semana passada deu seu primeiro mergulhinho nas águas salgadas do mar de Barceloneta . Não se trata de lenda de pescador, meu irmão que é professor de natação para senhoras e bebês já está querendo transformar a filha em atleta.

O som de Maré ainda ressoa em meus ouvidos, tanto que não poupei esforços para me despencar às pressas de Juiz de Fora para o Rio. Calcanhotto participou de um debate promovido pelo jornal “O Globo” no Teatro Casa Grande, que teve como entrevistadores os jornalistas Arnaldo Bloch, Antônio Carlos Miguel e o professor e poeta Eucanaã Ferraz.

Teatro lotado, no palco Calcanhotto é o bendito fruto entre os homens (violão é palavra masculina). Com calça e camiseta pretas sob um casaco cinza de tecido leve, que faz referência ao figurino do espetáculo “Maré”, a artista traz na medida certa a elegância, a sobriedade e o senso de fino humor.

Organizado em dois tempos, um para os entrevistadores, outro para perguntas da platéia e dos internautas, o bate-papo fluiu tranqüilo, com várias questões referentes à sua carreira e principalmente à forte relação que a compositora/cantora gaúcha mantém com a literatura e as artes plásticas.

Calcanhotto é cantora, mas descobri pelas palavras de Eucanaã que ela na verdade não gosta muito de exaltar essa faceta. Considera-se uma “performer” que canta, não se preocupa somente com o desempenho interpretativo, a modulação e extensão de sua voz. Calcanhotto é uma artista que “pensa a música” e aí reside sua inteligência e sedução.

Eucanaã inicia a conversa citando o escritor português Eduardo Prado Coelho: “As letras de Adriana Calcanhotto são extremamente bem construídas, e revelam um saber ou uma intuição poéticas absolutamente surpreendentes. Nunca escolhem o discurso arqueado, o fraseado sumptuoso, a cascata verbal...”.

Eucanaã não poderia ter escolhido citação melhor. Calcanhotto traz como princípio de sua criação o depuramento aliado à estética minimalista. Tudo que faz parece passar pela “faca só lâmina” de João Cabral. Já compôs até música para interpretar com Hermeto Paschoal, mas elege sempre uma seqüência simples e direta de acordes para tocar em seu violão. Confessou que a música com letra desde muito cedo a arrebatou e que procura trabalhar com muita dedicação nas letras de suas composições, pois se considera limitada como instrumentista.

Ela responde a todas as perguntas que lhe fazem (inclusive sobre o ministro Gilberto Gil), porém parece pretender deixar sempre uma incerteza a cada intervalo entre uma interrogação e outra. Por um instante, fiquei pensando que ali Calcanhotto não era Partimpim e, no entanto, estava exercendo sutilmente uma performance no jogo de sedução que compartilhava com a platéia. Lembrei-me da música Senhas, que nomeia seu segundo cd, uma espécie de canção-manifesto que escancara em linguagem simbólica e sugestiva seus pressupostos estéticos: “Eu não gosto do bom gosto/Eu não gosto de bom senso/Eu não gosto dos bons modos/ Não gosto/... Eu agüento até os estetas/Eu não julgo competência/ Eu não ligo pra etiqueta/ Eu aplaudo rebeldias”.

Algumas perguntas bem-humoradas surgem da platéia, como a de um rapaz que lhe indagou se já havia feito pacto de sangue, provavelmente motivado pelos versos de Mais feliz: “Rimas fáceis, calafrios/ Fure o dedo faz um pacto comigo”. Calcanhotto sorrindo responde com o gesto de unir um dedo ao outro: “Pacto de sangue, assim? Quando eu era criança, depois fiz pacto de amor”.

Calcanhotto aproveita a oportunidade do encontro em tom informal para desfazer alguns mitos que depois de quase vinte anos de carreira ainda a perseguem: “Fiquei famosa por ser uma cantora de churrascaria, quando na verdade eu só cantei duas vezes numa churrascaria”. A cantora diz que foi uma experiência importante cantar para si mesma diante do público da noite, que não prestava atenção “Eu sempre achei interessante o lance das pessoas não prestarem atenção, as pessoas querem cover, eu ia fracassar pois não sei fazer cover”. Calcanhotto fazia da desatenção dos outros seu laboratório.

As respostas eram entremeadas pelas canções que tocava ao violão, resgatou Cariocas e Inverno para satisfazer a platéia da Cidade Maravilhosa. Retomando o tema "Mar", que percorre todo o cd recém-lançado, afirma que não consegue mais viver longe do mar, que lhe faz bem saber que pode encontrá-lo bem perto.

Uma brecha para a exposição de seus novos projetos surge quando alguém da platéia lhe pergunta se já pretendeu escrever livro. Sincera e meio tímida, “sou uma cantora de inclinação existencialista”, revela que tem o projeto de lançar um “relato de viagem” (depois de tomar alguns remédios para curar uma forte gripe durante uma temporada em Portugal, ela sofreu imensos efeitos colaterais e alucinações): “Nunca pensei em livros. Escrever o livro “Saga lusa” foi o que me tirou do susto”.

No “Auto-retrato” que escreveu em 1996 para o “Caderno Mulher” do Jornal do Brasil Adriana declarou: “meus amigos dizem que eu mudo muito”. Com a platéia afirmou: “Não gosto de ser cristalizada”. Com certeza é por isso que não é possível desvendar suas “senhas”. Salve Calcanhotto e suas rebeldias!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008









Show Nem uma lágrima com o trio: Berval (baixo acústico), Afonso Vieira (bateria), Marcio Hallack (teclados)








sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Os letristas: palavras simples, poéticas, boas de cantar




`A memória de João Medeiros, que me ensinou a ouvir


O Brasil é conhecido como o país das cantoras, entretanto não se deve esquecer da diversidade de talentosíssimos compositores que preenchem o rico manancial da música popular brasileira. Neste caso específico a meta são os letristas, poetas em música, aqueles que escrevem versos para serem cantados. Embora seja normal chamar o letrista de poeta, há que se frisar uma diferença fundamental entre ambos: o poeta escreve versos para serem lidos, enquanto o letrista elabora a letra que só adquire sentido pleno quando ouvida em conjunto com a música. Letra e música são indissociáveis. Para tornar esta afirmativa evidente, basta analisarmos separadamente a letra de uma das mais belas canções da MPB, Pra dizer Adeus, parceria de Edu Lobo e Torquato Neto: “Adeus/Vou pra não voltar/e onde quer que eu vá/ sei que vou sozinho/ tão sozinho amor/nem é bom pensar/ que eu não volto mais/desse meu caminho (...)” Nota-se que a leitura crua dos versos de Torquato ocasiona um certo vazio no texto, a letra parece perder em qualidade e densidade, isso ocorre justamente devido ao fato de que ela foi feita para casar-se com a música.

É somente a partir da parceria entre Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes que se institui o verdadeiro paradigma qualitativo (letra & música) na MPB. Com Tom e Vinícius a música popular brasileira realizou a união perfeita, aliou na dose exata a sensibilidade poética e musical. A riqueza melódica e harmônica das composições de Tom se encaixavam nos versos altamente sofisticados de Vinícius. Tom e Elis, foi considerado na época de seu lançamento, há exatamente trinta e quatro anos, um dos mais importantes discos do mundo. Neste destaca-se a antológica interpretação de Elis de Por toda a minha vida (Tom/Vinícius), canção que impressionou o cineasta Pedro Almodóvar, que a utilizou para intensificar a carga dramática da plástica cena de uma tourada no filme Fale com ela

Analisando mais detidamente a safra de compositores da nova geração Bossa Nova e pós Bossa Nova, constata-se que alguns são essencialmente letristas como Fernando Brant, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Abel Silva e Vítor Martins, enquanto outros como Tite de Lemos e Cacaso fazem letras que sobrevivem à música, textos poéticos de rara beleza e clarividência. Vejamos: “Mande notícias do mundo de lá/diz quem fica/me dê um abraço/ venha me apertar/ tô chegando/ coisa que gosto é poder partir/ sem ter planos/ melhor ainda é poder voltar/ quando quero (...)”. Como ele mesmo diz, constrói versos com palavras simples, boas de cantar. Brant traz em suas composições a marca de um movimento incessante, o artista demonstra estar continuamente num trânsito ininterrupto, um viajante que se desloca de seu território de origem, Minas, em direção ao mundo. A canção Vendedor de sonhos, em parceria com Milton Nascimento, é uma síntese do enunciado: “Vendedor de sonhos/tenho a profissão viajante/de caixeiro que traz na bagagem/ repertório de vida e canções (...)”. No contínuo percurso pelo país e pelo mundo o letrista reconstrói alegoricamente Minas, tanto que uma das palavras mais constantes em sua produção é quintal, justamente a representação de sua aldeia, Minas Gerais, que é sempre matéria de memória. O “quintal” está relacionado ao seu universo. É nele que Brant guarda todos os mistérios e segredos de sua existência. Os sonhos, as fantasias, as brincadeiras, as paixões, muitos sentimentos que ficaram fechados e protegidos nesse pequeno sítio particular. Fruta Boa, com Milton Nascimento, é um exemplo de extrema riqueza construtiva. Por seu destacável caráter literário sustenta-se sozinha na folha de papel sem necessitar de acompanhamento musical. A relação amorosa é tematizada com delicadeza e sensualidade. Ao comparar o amor maduro a uma fruta boa, Brant dá primazia as impressões sensoriais. A depuração poética se associa a depuração dos sentimentos, o amor se constrói e se enobrece na simplicidade do cotidiano: “(...) Saboroso é o nosso amor/fruta boa/coração é o quintal/ da pessoa/ é gostoso o nosso amor/ renovado é o nosso amor/ saboroso é o amor/ madurado de carinho/é pequeno o nosso amor/ tão diário (...)”.

Aldir Blanc é um compositor essencialmente carioca, transcreve cenas de bairros populares do Rio, seus dramas e conflitos, com o olhar do espectador atento e até mesmo participante. Suas letras são verdadeiras crônicas que traduzem o cotidiano da cidade, enfatizando o que restou dos trejeitos e costumes dos anos 50, por exemplo, o malandro, o bordel, o tragicômico, way of life suburbano. Este universo é tratado com maestria por Aldir que acentua pitadas de uma estética kitsch com delicioso toque de humor. São primorosas letras, em parceria com João Bosco, como Cabaré, Miss suéter, Latin Lover entre outras. É fácil identificar nos versos de Aldir afinidades com a cena temática de Nelson Rodrigues. Aldir, porém, não se limita apenas a ser o cronista dos tipos e maneirismos cariocas. Médico de profissão (psiquiatra), nunca exerceu de forma sistemática seus conhecimentos. Eventualmente atendia em hospitais psiquiátricos e públicos, levado naturalmente por sua sensibilidade artística que sempre norteou seu rumo de vida. O excepcional letrista também fez incursões nas crises existenciais de uma classe média alta. Registre-se Altos e baixos em parceria com Sueli Costa, onde vai ao limite da passionalidade diante de uma relação conflituosa: “Foi quem sabe/esse disco/esse risco/ de sombra em teus cílios/ foi ou não meu poema no chão/ ou talvez nossos filhos/ (...)foram discos demais/ desculpas demais/ já vão tarde essas tardes/ e mais/ tuas aulas/ meus táxis/ uísque, dietil, dienpax (...)”.

Transitando por outros temas, Aldir foi um dos principais lutadores pela volta ao estado de direito no país, com seus versos contundentes e esperançados. É dele, por exemplo, em parceria com João Bosco o clássico O bêbado e a equilibrista, mais tarde reconhecido como um verdadeiro hino da anistia: “(...) mas sei/que uma dor assim pungente/não há de ser inutilmente/ a esperança dança na corda bamba de sombrinha (...)”. Detecta-se, por outro lado, uma permanente preocupação em sua obra com o tempo em seus mais variados matizes. Ora em rememorações, ora em perplexidade, o ontem – hoje, o nunca mais. O espanto diante das incertezas do futuro. Inesquecível texto poético na canção Resposta ao tempo, em parceria com Cristóvão Bastos, onde Aldir, se necessário fosse, ratifica a sua condição de excelente poeta em música: “Batidas na porta da frente/ é o tempo/ eu bebo um pouquinho pra ter argumento/ mas fico sem jeito calado/ ele ri/ ele zomba do quanto eu chorei/ porque sabe passar e eu não sei”.

Na esteira com Mart’nália



Tenho ouvido falar sobre Mart’nália por todos os cantos. A mídia, que sempre gosta de anunciar os talentos do momento, já chegou a elegê-la a maior cantora do Brasil. Os rótulos alimentam o sistema mercadológico, que sobrevive justamente pela criação de artistas, modelos, escritores e tendências “fast food", imposturas que não sobrevivem mais de uma temporada anual.

Mart’nália já ultrapassou algumas estações com segurança e talento. Mesmo assim, considerá-la a maior cantora do Brasil seria um exagero. Já se foi a época em que eu buscava “o melhor”. Hoje convivo bem numa miscelânea antropofágica, pós-tropicalista, pós-moderna, e por isso mesmo transito sem crise entre as obras das margens e dos centros. Escolher subalternos pode ser uma boa pedida, ficar no entrelugar pode não ser a melhor opção.

Vi Mart’nália ao vivo somente uma vez, e numa passagem muito rápida, num show de seu pai, Martinho da Vila. Nos idos de 1990 ela era uma garota que mostrava muito swing, mas que eu não imaginei que fosse desenvolver uma carreira solo como cantora.
Hoje, “Menino do Rio”, seu mais recente trabalho e o quinto de sua trajetória, é a minha trilha sonora predileta enquanto faço minha caminhada diária pela esteira. A atividade tão monótona torna-se sempre mais interessante, pois observo um detalhe aqui, uma nuance do arranjo acolá e, melhor de tudo, o tempo passa e não me enjôo nem da esteira, nem de Mart’nália.

A famosa canção de Caetano Veloso é apropriada para o título do cd, “Menino do Rio”, produzido pela cantora Maria Bethânia e distribuído pelo selo Quitanda. O encarte muito bem acabado traz como pano de fundo o mar verde azulado do Rio de Janeiro, que contrasta com a bela tez mulata de Mart’nália.
O álbum traz o samba como linha de frente: “O samba corre em minhas veias/ O samba é a minha escola/ Se levo um samba do Candeia/ Ou do Paulinho da Viola/ A Dona Ivone me incendeia/ E o Martinho é quem/me consola/É a luz que sempre me clareia/ E a minha emoção decola” (Fred Camacho e Jorge Agrião). Mas também revela o talento da vertente de compositora e cantora pop que é Mart’nália.

Na primeira audição, tocou-me a interpretação delicada e contida que ela deu para a canção “Só Deus é quem sabe”, de Guilherme Arantes, que parecia estar perdida nos recônditos do tempo. Num arranjo que prima pelo minimalismo, a cantora é acompanhada pelos violões de Jaime Alem e pelo baixo de Jorge Helder, duas feras.A voz rouca e rascante, que faz lembrar em muitas ocasiões Elza Soares, destaca os versos em tom quase narrativo: “As vezes a paixão nos traiu/As vezes foi a voz que mentiu/Mas, nada disso importa/O que vale é o que a sorte escreveu/Só Deus é quem sabe do amor/ Eu não sei nada/ Só sei que a vida nos prepara cada cilada/ E é inútil se tentar fugir da longa estrada.”
Mart’nália herdou do pai a manemolência e a ginga de malandra carioca: “Acompanhei meu pai durante muitos anos no palco. Depois fui tocar com o Ivan Lins. Aprendi a respeitar a música, a ser fiel ao palco e à arte”. Ao interpretar sambas, ela deita e rola no seu métier. Em “Boto meu povo na rua” (Arlindo Cruz, Acyr Marques e Ronaldinho), canção que caberia perfeitamente também em Zeca Pagodinho, outro malandro de carteirinha, Mart’nália se exprime como uma brasileira no sangue e na raça: “Pra te ganhar/ Dei sugesta em vagabundo/ Dei a volta pelo mundo/ Eu mergulhei fundo sem medo de errar/ E você fica nessa querendo esnobar/ Meu amor que é tão profundo/ Tá na hora de parar com isso ou/ Eu jogo um feitiço pra te apaixonar”.
Neste trabalho Mart’nália faz músicas em parceria com Zélia Duncan, Paulinho Black, Paulinho Moska, Mombaça e Ana Costa. Ótima compositora de baladas, a artista traz como destaque a suavidade de suas linhas melódicas que valorizam a intenção das letras. Em “Pára comigo”, parceria com Paulinho Black, o casamento é perfeito. A levada do violão de Jaime Alem, que faz contraponto com o baixo de Arthur Maia, exalta o tom coloquial dos versos: “Madrugada/ Que aos pouquinhos vem chegando/Sorrindo, cantando/E esperando por nós dois/Pra curtir”.

Mart’nália só não pode ser considerada a maior cantora do Brasil porque a ala feminina da MPB tem crescido em qualidade e diversidade. Certamente essa “menina do Rio” está entre as melhores descobertas da nossa música e é uma de nossas mais autênticas intérpretes. Lembro-me de ter pensando na força de Clementina de Jesus ao ouvir sua bela interpretação para o samba de roda “Nas águas de Amaralina”. Mart’nália é África e América: a terra, o ritmo, a cor, o sol, a noite, os batuques. A pureza e a malícia.

Quando assisti ao filme “Vinicius” de Miguel Faria Jr, fiquei encantada com sua interpretação para “Sei lá... a vida tem sempre razão” (Toquinho e Vinicius). Entre tantos escolados como Edu Lobo, Gilberto Gil e Carlos Lyra, Mart’nália deu um banho de talento e presença de palco. No seu jeito único de moleca, a cantora criou um swing e uma divisão única para o samba: “Sempre fui palhaça, risonha e a mais espoleta da turma. Sou bem-humorada e muito festeira”.

Faz tempo que estou querendo assistir de novo Mart’nália ao vivo. Já contei numa outra crônica que perdi uma temporada que ela fez no Teatro Rival. Semana passada estive novamente no Rio, mas as datas não favoreceram. Lamento, vamos ver até quando continuarei a andar com ela na esteira.

Mahgah “Eller”


Luz, câmera, canção: CINEPORT é também show (de bola). De calças largas como uma skatista, camiseta laranja griffe Adidas, cabelos curtinhos e rosto suave e belo, Cássia Eller, entra no palco. Isto é, Mahgah. Depois de mais de uma hora de atraso, já pra lá “das uma e meia da matina”, com o Anfiteatro Ivan Müller Botelho absolutamente lotado, algumas pessoas ao meu lado já nervosas, como a atriz Fernanda Lobo: “tanta demora, será que vai valer a pena?” Também eu, inquieta e já bastante cansada depois de dois dias de total agito cultural, aguardava o show sem grandes expectativas.


Quando ouço falar em “tributo” a alguma figura célebre do mundo musical, quase sempre espero ver/ouvir um cover, o que de certa forma não me alegra, mas satisfaz os muito fanáticos e entristece os que enxergam o artista como um ser único, com identidade própria. Confesso que sou extremamente resistente a certos tipos de homenagens em que o intérprete em cena se descaracteriza totalmente para, de uma maneira artificial, “fake”, incorporar o ídolo. Mas esse não é o caso de Mahgah, jovem cantora belorizontina que mandou ver num show emocionante e verdadeiro.Acompanhada por dois violonistas e uma percussionista, ela inicia a noite com uma das mais belas e intensas interpretações de Cássia Eller, “Non, je ne regrette rien”, canção muito famosa na voz de Edith Piaf e que ganhou uma releitura visceral na voz de Cássia: “Não, não me arrependo de nada” diz o primeiro verso desta canção, uma espécie de despedida.


Assisti a dois shows de Cássia Eller, um logo no início de sua carreira, em 1990, e outro em 2001, meses antes de sua morte. Ela impressionou-me muito desde o primeiro instante em que a ouvi cantando “Por enquanto”, de Renato Russo, numa fantástica levada folk: “Mudaram as estações, nada mudou/ Mas eu sei que alguma coisa aconteceu/ Tá tudo assim tão diferente”.


Sua voz muito potente era ácida e doce, rouca, rascante, bela, singular. O primeiro disco já deixava explícita na capa sua atitude de ousadia: a cantora aparecia trajando jeans surrados e camiseta de malha solta, chutando literalmente um balde. A “garotinha”, quem sabe?, chegava com um repertório nada careta no mercado, gravava Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Jorge Salomão e até mesmo Clarice Lispector na canção “Que o Deus venha”, um texto de Clarice musicado por Cazuza e Frejat: “Sou inquieta, áspera/ E desesperançada/ Embora amor dentro de mim eu tenha/Só que eu não sei usar amor/ As vezes arranha/ feito farpa”.


Em seguida vieram trabalhos cada vez mais ousados e marcantes, como o disco “Marginal” – em que Cássia assumia totalmente seu lado roqueiro, acrescido de uma forte influência do blues. Embora fosse extremamente tímida na vida, em cena ela conseguia extravasar tudo: “No palco eu nunca tive vergonha. Eu tinha medo de errar, de não dar conta de fazer. Timidez eu tenho de ser apresentada para as pessoas que eu não conheço. Quanto às caretas, eu sou assim mesmo. Agora, quando eu cuspo, chuto, eu estou representando um personagem”.


Ela era intensa, tocante, arrebatadora. Lembro-me da paixão com que interpretou o repertório de outro companheiro marginal, o Cazuza. Sob a sempre talentosa direção de Waly Salomão, Cássia Eller entregou-se por inteira ao interpretar o poeta que falava a sua linguagem.


Depois, com Nando Reis, encontrou um equilíbrio entre o repertório mais MPB e o rock. Em “Com você meu mundo ficaria completo”, ela troca o gestual masculino por uma concepção mais suave, tanto que aparece na capa brincando com pose de sex-symbol, de calcinha branca e cabelos longos: tudo produção, é claro.


Quatro anos se passaram e Cássia permanece viva acima de qualquer limitação do gueto de sua tribo. O público caloroso que assistia Mahgah naquele sábado de noite estrelada era formado por pessoas de todas as idades. O sorriso meigo da cantora mineira, sua interpretação sincera, sensível, sem arroubos, deixou-me comovida em muitos momentos. Eu não sabia se estava feliz ou triste por ouvir/sentir Cássia Eller assim tão próxima. Quando Mahagh cantou “Milagreiro”, todos no Anfiteatro soltaram a voz com forte emoção, como se assim pudessem trazer Cássia Eller de volta.

A flor de Francis


Dia desses li que a cantora Ana Carolina teve uma recepção digna de uma dama. Lotaram seu camarim de rosas, pois ela canta insistentemente em todas as rádios do Brasil “Toda mulher gosta de rosas, de rosas, de rosas”. “Rosas, rosas, rosas/ Rosas formosas são rosas de mim/Rosas a me confundir”, entoa o velho baiano Caymmi. Uma rosa, é uma rosa, é uma rosa, é uma rosa, escreveu Gertrude Stein, que como nossa cantora nem tão dama era assim, dizem as más (ou boas?) línguas.


Sempre gostei muito de rosas, o que não foge à regra do ser feminino. Me seduzem principalmente as vermelhas, que costumo ganhar nos meus aniversários e em alguns shows pelas estradas da vida. Na impossibilidade de guardá-las eternamente, recolho algumas de suas folhas e coloco-as ao acaso nas páginas dos meus livros de poesia. Depois de algum tempo é prazerosa a sensação de ir lendo aleatoriamente os poemas marcados pelas folhas secas.No momento estou encantada por flores. Tenho escutado sem parar “Arquitetura da flor”, um dos mais recentes cds do compositor, pianista, arranjador e maestro Francis Hime. É uma ode à delicadeza este trabalho do Francis, realizado sob e sobre o exercício da paixão. A paixão pela música, pela poesia, pela natureza, pela mulher e pelo próprio estado sublime do enamoramento.



O lirismo é onipresente da primeira à última faixa. As parcerias com Geraldo Carneiro, Cartola, Olívia Hime, Toquinho, Abel Silva, Vinicius de Moraes e Simone Guimarães tematizam o amor em suas várias vertentes. Amor um pouco aos moldes ultra-românticos. como em “A musa da TV”, parceria com o poeta e letrista Geraldo Carneiro. Amor pela figura paterna em “Desacalanto”, parceria entre Francis e Olívia Hime. Amor pela natureza, que é o cenário-refúgio do ser desiludido em “Sem saudades”, de Cartola.


Neste trabalho Francis Hime optou pela leveza nos arranjos e nas interpretações. É um cd enxuto que valoriza principalmente o lirismo das letras e as características melódicas e harmônicas das músicas. Em alguns aspectos as canções soam como um “revival” da atmosfera descontraída e descompromissada da Bossa Nova do “amor, do sorriso e da flor”. O compositor assina o texto do encarte: “De uns tempos pra cá tenho conversado muito com Olívia e Geraldinho, divagando sobre o quanto as canções, a poesia, a vida enfim, são efêmeras. No entanto – ou talvez por causa disso – continuamos compondo, escrevendo, arquitetando, vivendo... cada vez com mais intensidade”.


Francis Hime começou a aprender piano aos seis anos de idade no Conservatório Brasileiro de Música e em 1963 iniciou sua parceria com o poeta Vinicius de Moraes, com quem compôs canções belíssimas como “Sem mais adeus” e “Tereza sabe sambar”. Francis é reconhecido acima de tudo em virtude de sua versatilidade, pois é um artista que faz uma espécie de “fusion” entre o erudito e o popular.


“A dor a mais”, parceria com Vinicius de Moraes, é um dos grandes destaques do álbum. O casamento perfeito entre a música de Francis e a letra de Vinicius: “Foi só muito amor/ Muito amor demais/ Foi tanta a paixão/ Que o meu coração, amor/ Nem soube mais/Inventei a dor/ E como ela nos doeu/ Ah, que solidão buscar perdão/ No corpo teu...”O piano minimalista de Francis introduz a canção com uma levada ao estilo Jobim, aquele velho “only one finger”. A precisão e a leveza da interpretação é intensificada pela pulsação da bateria de Téo Lima.


A palavra flor é referência em grande parte das canções. O samba “Sem saudades”, em parceria com Cartola, recebeu uma ótima interpretação na voz de Zélia Duncan. Apesar da letra de Cartola falar de um amor que passou, o clima da canção é pra cima, reforçado pelo dueto entre a cantora e Francis: “Ouvindo o gorgear da passarada/ Eu não senti mais nada/ Que lindo dia passei/Não penso mais em amores/ Ainda pouco jurei/ Passo o dia entre as flores/O espinho pontiagudo/Pela rosa faz tudo/ Defende-a do malfeitor/ Isso é que é ter amor.Recomendo

MPB Ludificada









Fiz essa crônica para as minhas amigas lúdicas Isabella Ladeira e Rosana Brito.Agora tive a honra de escrever o texto de apresentação para o Dvd que elas acabam de lançar. Vale a pena ouvir e se ludificar com essa turma de mineiros da pesada. Sucesso!!
Diversões lúdicas
Teatro Sesiminas de Belo Horizonte lotado, cortinas se abrem e os lúdicos atacam: “Abre alas pra minha folia/Já está chegando a hora/Abre alas pra minha bandeira/Já está chegando a hora”. A canção de Ivan Lins e Vítor Martins renasce plena de força e lúdica magia, servindo de passaporte para um universo de ritmos, invenções e alegria. É sempre com encantamento e emoção de descoberta que assisto às apresentações do Lúdica Música!. Guardo na memória o momento único em que, há dezessete anos, vi pela primeira vez Isabella Ladeira, Rosana Brito e Joãozinho da Percussão apresentando-se no extinto Teatro São Mateus, em Juiz de Fora. A performance dos três era incrível: com apenas um violão, vozes e instrumentos percussivos o grupo fazia um som sofisticado e com uma marca autoral muito própria. Eles eram acústicos antes que o gênero se tornasse moda.
Acabo de ver o dvd Diversões lúdicas e comprovo com satisfação que sou testemunha da história de formação da carreira do Lúdica Música. Diversões Lúdicas é o reflexo-resultado do trabalho desses músicos que só vêm ganhando em qualidade e amadurecimento no longo percurso pelos palcos do Brasil e do exterior. Com leveza, afinação, criatividade e astral nas alturas as band leaders Rosana Brito e Isabella Ladeira conduzem o espetáculo ao lado dos músicos: Gutti Mendes (guitarra), Gladston (bateria), Messias Lott (baixo) e Gustavo Lira (percussão).
A produção impecável se nota desde a concepção visual do encarte do dvd, que segue as prerrogativas lúdicas do grupo. Érika Machado desenhou para a capa duas graciosas meninas que reproduzem com riqueza de detalhes as cantoras e instrumentistas Rosana e Isabella. Muitas cores se distribuem num espaço aberto para a interatividade em que a lei é se divertir com o caça palavras, o labirinto, e as duas cantoras-bonequinhas que também estão dentro do encarte para serem cortadas e ganharem movimento, vestidas de acordo com o desejo do ouvinte. Sedução pura!
No palco, os músicos revisitam canções consagradas do repertório do primeiro disco (época do vinil) como Narciso, de Rosana Brito, e Samba na cidade, de Carlinhos Vergueiro. A relação de afeto e cumplicidade entre Carlinhos e os artistas é revelada no making of, em que em momentos de descontração eles relembram antigos repertórios e até debatem a condição do artista brasileiro. A síntese exata fica com o Samba na cidade: “Trabalho o ano inteiro sem tocar no rádio/Vida de artista marginalizado/ Nada pra beber, nada pra fumar/ Nada pra ligar, assim não dá/ Se não der vai ter que dar/ Como é que vai ficar/Quero um samba na cidade/ Eu não posso morrer de saudade”.
O espetáculo engrandece com a participação de convidados como Vander Lee, Maurício Tizumba, Chico Amaral e as meninas do Harém da Imaginação. O maior trunfo do grupo é o poder que ele possui de recriar canções. Nos momento que o “Lúdica” privilegia o humor, a interação com a platéia é absoluta. Tudo parece ir se inventando e reinventando no calor da hora, e carnavalizar torna-se imperativo nas performances. Isabella toca pandeiro e canta dialogando com Rosana que devolve pra Gutti, que emite uma nota respondendo à recepção do público.
Um dos momentos mais tocantes do show acontece quando o Lúdica Música se junta a Maurício Tizumba e às meninas do Harém da Imaginação, para interpretar Bandeira do Divino, de Ivan Lins e Vítor Martins. A releitura ganha um arranjo que valoriza o lirismo, onde a herança africana acentuada pelo canto de Tizumba, e suas evocações que remetem às manifestações do congado, explicita a força da musicalidade das Minas Gerais. O canto das meninas do Harém produz uma sonoridade única em contraponto com as vozes de Rosana e Isabella. Vale destacar os momentos em que elas cantam em uníssono, numa afinação absoluta. A voz mais para grave da cantora Rosana se casa muito bem com o tom mais agudo de Isabella e elas exploram todos os recursos que esse contraste favorece.
Cotidiano de Chico Buarque também adquire um novo e interessante formato na versão lúdica. Os versos do compositor, que exacerbam o movimento enfadonho da rotina de um casal, são interpretados numa levada monocórdica em que Isabella toca o bumbo como se fizesse a marcação dos momentos repetitivos do dia: “Todo dia ela faz tudo sempre igual/me sacode às seis horas da manhã/me sorri um sorriso pontual/e me beija com a boca de hortelã//todo dia eu só penso em poder parar/meio-dia eu só penso em dizer não/depois penso na vida pra levar/e me calo com a boca de feijão”.
O ouvinte/espectador, além de usufruir do show, tem a oportunidade de conhecer a história do grupo desde sua formação. Fotos de arquivo, depoimentos e imagens raras envelhecidas pelo tempo compõem a trajetória desses artistas que demonstram acima de tudo a preocupação com a expressão de uma música que revela intensa brasilidade. Sem cair no kitsch da atração para turista.
Emocionou-me o depoimento de Ivan Lins, o “sócio avalista”, conforme a designação dos lúdicos. Ivan também faz parte da história do Lúdica Música!, tanto que pouco conteve a emoção ao dizer: “Como elas são bárbaras. A forma como vocês apareceram na minha vida, como mineiros completamente iluminados, alegres, completamente entregues à música. A linguagem de vocês é muito impregnada dessa mineirice.Vocês têm o maior respeito pela música e vocês fazem a música de vocês e acreditam na música como a liberdade”.
O show vai chegando ao fim e a platéia se mostra completamente seduzida, entregue, solta, risonha. Essa é pra acabar, canção alto astral e cheia de senso de humor de Luiz Tatit, se encaixa como uma luva no repertório dos lúdicos, que tentam encerrar o espetáculo que parece nunca ter fim: “Sempre foi difícil terminar/sempre é um suplício esse momento/mas temos que acabar/não adianta essa demora/se tudo acaba um dia/ então por que não agora?/ Vamos entender esse momento/Vamos acabar enquanto é tempo...”
Incluo-me na categoria de Ivan Lins: sou sócia, fã, avalista do Lúdica Música!. Sucesso pra vocês!



MPB Ludificada

Juiz de Fora, noite quente de sábado nos idos de 1991. Eu comia batatas fritas com queijo e coca cola comum (naquele tempo não havia ainda a febre dos diets), enquanto papai tomava copos e copos de chope e vez ou outra dava uma beliscadinha na batata. Estávamos no extinto teatro São Mateus, aguardando o show do Lúdica Música. Na verdade quem esperava a surpresa era eu, pois papai já tinha visto no mínimo umas quatro vezes e ficava me incitando com sua nova descoberta musical.


Não demorou muito e o palco se tornou pequeno diante da grandiosidade do trio: Joãozinho da Percussão, Rosana Brito e Isabella Ladeira. O impacto visual guardo na memória até hoje: uma mulher muito grande e bela e dois baixinhos geniais. Levou poucos segundos para que essa primeira impressão passasse e desse lugar a uma alternância infinda de tamanhos, timbres, posições, suíngues e levadas. O grupo fazia jus ao nome que me seduziu tanto: a “base não era uma só”, mas uma mistura riquíssima de improvisações rítmicas, que era a encarnação original de uma estética carnavalizadora.

Nada de querer compará-los com os tropicalistas, Novos Baianos, sambistas e nem com os papas da MPB. O Lúdica Música nasceu com identidade própria, fruto de um mergulho antropofágico no que de melhor se produziu e se produz na música popular brasileira.Mantendo-se com um trabalho independente dos apelos mercadológicos, o grupo comemora seus quinze anos de existência com o cd “Então eu canto e nem me lembro pra onde as coisas vão”. Rosana Brito e Isabella Ladeira, líderes da banda, cantoras, compositoras e instrumentistas, estão visivelmente amadurecidas. A bela voz de Isabella, mais para o agudo e com enormes potencialidades de expressão, faz contraponto com o timbre mais grave e o timing perfeito de Rosana. Esta é daquelas cantoras raras, Rosana “tem cabeça de músico”, como dizia o João Medeiros, que entendia tudo e mais um pouco sobre a boa MPB. Se me explico bem, cantoras com “cabeça de músico” são aquelas que não interpretam somente a canção, mas que são espécies de co-autoras. Acrescentam detalhes aqui, quebram o ritmo acolá, brincam com a segurança proporcionada por seus ouvidos privilegiados. Rita Lee e Roberto de Carvalho quando ouviram “Alô Alô Marciano”, na voz de Elis Regina, ficaram impressionados com os toques pessoais da Pimentinha.


Quase a totalidade das composições são de autoria das cantoras/compositoras mineiras, mas há também registros excelentes como “Enquanto a gente batuca” de Ivan Lins, Vítor Martins e Nei Lopes, “É ouro em pó” também de Ivan Lins e “Alma não tem cor” de André Abujamra. Além de ceder composições praticamente inéditas, Ivan Lins participa cantando e assinando o texto de apresentação.


O Lúdica Música esteve aqui em Cataguases, no Anfiteatro Ivan Müller Botelho, faz menos de um mês. Acompanhado pelo violão & voz de Rosana e pela voz e os múltiplos instrumentos percussivos de Isabella, o “Lúdica” trouxe dois novos integrantes que se incorporaram muito bem à sua sonoridade: Gutti Mendes (guitarra e vocais) e Gustavo Lira (bateria), jovens herdeiros do pop-rock, que, ao se fundirem com o legado MPB mais puro das artistas, devolvem ao ouvinte um som contagiante.


Como falou Rosana no meio do espetáculo: “Nós tocamos MPB, música popular boa. Tudo passa pelo nosso ludificador.” O ludificador devora, tritura e reconstrói preciosidades de Chico Buarque, Carlinhos Vergueiro, Geraldo Pereira, Lenine, Luiz Melodia, Tom Jobim, Monsueto, Caetano Veloso e outros e outros tantos.Esses lúdicos músicos transformam qualquer espaço em alegria, com cara e cheiro de Brasil. Vale sempre reouvir a impecável interpretação que eles fazem da divertida canção “Procotólo” de Carlinhos Vergueiro: “É o procotólo/ É a cardeneta/ É a falcudade/ É o estaltuto/ É o fenônemo/ É o pogresso/E é sempre um crima/ E aí vareia/ E a largartixa/ Que é o pobrema/ Esta é que é a questã/ Quanto menas vezes falar dela/é melhor/com sastifação”. São raros os casos em que o intérprete supera o compositor, “Procotólo” ganha um colorido especial com esses músicos. A cumplicidade entre eles possibilita o improviso constante, a cada apresentação a música ganha um novo toque. Há quinze anos acompanhando-os nos “bailes da vida”, para mim a sensação que fica é de permanente inovação. O som se faz no calor da hora, eles brincam com os ritmos, as palavras e acima de tudo com o imaginário popular.


“Alma não tem cor” é uma canção que recebe tratamento especial do “ludificador”. Uma rumba arretada que dá vontade de sair dançando, mamãe eu quero ir a Cuba já: “Alma não tem cor/ porque eu sou branco/ Alma não tem cor/ porque eu sou negro/ Branquinho, neguinho, branco, negão/ Branquinho, neguinho, branco negão/ Percebam alma não tem cor/ela é colorida, ela é multicolor”.No final do show artistas e platéia eram um arco-íris de alegria/energia. Por favor não confundam com a música da Xuxa. Acho que essa o Lúdica Música teria mesmo que passar num tradicional liquidificador.




cafés, sons & chocolate



Ando à procura de canções para formar o repertório de meu próximo cd. Tento ser o mais aberta possível em minhas audições, evitando cair na armadilha que confunde identidade musical e medo do risco. Já disse em uma crônica que o cantor deve cantar aquilo que lhe toca fundo a alma, e de preferência algo que se adeque bem ao seu timbre. Sou apaixonada por tudo o que Elis Regina canta, mas no entanto estabeleço uma distância considerável entre nós quando penso na escolha de repertório. Há dez anos fiz uma mostra na Universidade Federal de Juiz de Fora em que dispus meu acervo de discos, fotos e vídeos sobre a cantora gaúcha. Depois disso demorei a conseguir me libertar da “perseguição” dos amigos e desconhecidos que me “carimbaram” Elis Regina. Em virtude disso ganhei presentes lindos e ouvi coisas inacreditáveis. Um dos mais inesquecíveis momentos aconteceu quando uma jornalista me perguntou se eu ouvia Elis e somente Elis todos os dias: manhã, tarde e noite.

Ao refletir sobre minha identidade musical me perco em elucubrações. Como devo tentar ser eu mesma sem perder minha identidade? Mas como vou manter minha identidade sem correr o risco de ingênuamente cair na armadilha da auto-repetição empobrecedora? O único que sabe se auto-repetir de forma genial e esplendorosa é João Gilberto, há mais de quarenta anos com seus acordes dissonantes, seus bim-bons, suas Roleyflex, seus patos, seus barquinhos e banquinhos e sempre magnífico. Para os “peitos” e ouvidos desafinados, João não passa de um chato que canta a vida inteira a mesma coisa. E, no entanto, João ressurge a cada nova apresentação cantando de fato as mesmas canções, mas sempre com reestruturações harmônicas. Acrescenta acordes, suprime, reorganiza os timbres vocais – enfim, João se inova sempre.

Certo dia meu amigo, o saxofonista Glaucus Linx, recém-chegado de uma temporada de jazz na Europa, me propôs a audição de alguns takes de cantoras produzidas por ele. Pretendíamos nessa audição encontrar (ou perder) caminhos, saídas musicais para o meu novo disco ainda sem repertório. Entre xícaras e mais xícaras enormes de café que Glaucus ia bebendo e me servindo, e que eu sorvia naturalmente escondida da minha fonoaudióloga, que me proibiu severamente a ingestão de meus adoráveis drinks pretos: café e coca light. O chocolate, opção aparente do Tim Maia (pelo menos naquela canção), também não é permitido, pois arranha a garganta. Ainda bem que acato bem a maçã, fruta salvadora dos cantores. Mas bom mesmo é o barato interior, como dizia a cantora Joyce no seu momento naturalista: “Bom é não fumar/Beber só pelo paladar/Comer de tudo que for bem natural/ E só fazer muito amor/Que amor não faz mal”.

Eu e Glaucus pretendíamos nos ater mais nas texturas, palavra que aprendi a usar com ele. Por sua vasta experiência no exterior como músico, arranjador e produtor musical, Glaucus trabalha muito bem com uma variedade de ritmos, timbres e instrumentos. Ele me surpreende com sua imensa habilidade cibernética e eletrônica: puxa fios, abre canais, tecla notas, emenda frases enquanto fico fazendo perguntas e mais perguntas com a curiosidade de uma criança de cinco anos. Acredito que em qualquer trabalho artístico o melhor não é o produto final, mas sim o processo.

O make in progress me seduz naquele ponto em que os músicos começam a dialogar já a postos sobre o instrumento. Como não leio partituras, somente cifras, e toco muito limitadamente violão, vou flanando por aquela língua estranha que de repente se apossa daqueles homens sobressaltados. A parte que menos me encanta no processo é o momento da mixagem. Nesse ponto parece-me que termina a viagem e, a exemplo de um médico, o operador inicia (nem sempre com os músicos) sua operação cirúrgica. Hora de emendar, cortar, enxertar e arrematar tudo para que o resultado saia limpo, cada vez mais limpo.

Ontem estava ouvindo o último cd de Jards Macalé, “Macao”, tão bom que merece uma crônica inteira. Como já estou chegando no limite das linhas do jornal, não posso deixar de ressaltar a “bela sujeira” que desponta nesse trabalho delicadamente poético do Macao. O violão, instrumento onipresente na existência do cantor e compositor, aparece cru, pleno, vivo, inteiramente sujo. Viva mais uma vez o marginal Macao: “Neste disco, quanto mais buscava a perfeição, a voz (principalmente) e o violão sibilavam, rosnavam; as cordas ruidavam entre o metal, o nylon e a madeira. Me lembrei de Baden Powell e Nelson Cavaquinho que não tinham pudor do ruído. Achei que a perfeição só existe quando você tenta aperfeiçoar o imperfeito... em vão. Deixei como está: humano".