terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Entrevista com o pesquisador musical, poeta e letrista Euclides Amaral


Daniela Aragão: Quando começou a música em sua vida?


Euclides Amaral: Comecei a escrever letras pras músicas do meu irmão e do meu cunhado quando tinha 12 anos, em 1970, nasci em 1958. Produzi vários shows dos parceiros que foram surgindo e participei de inúmeros festivais, inclusive o “Olimpop”, em 1977, da TV Tupi. Em 1978 produzi a faixa “Cidade moderna”, composta em parceria com Marko Andrade, para um compacto duplo independente com quatro artistas finalistas de um festival, sendo um deles o Marko Andrade. Musiquei peças de teatro, ganhei prêmios pelas trilhas sonoras e somente mais tarde, em 1978, comecei a escrever poesias. Portanto, o letrista veio primeiro que o poeta, pois publiquei meu primeiro livros de poemas “Sapo C/ Arroz” em 1979 (2ª ed. 1984). Nas décadas de 1970 e 1980 participei ativamente do que se acostumou chamar “poesia marginal”, publicando na maioria dos fanzines e na imprensa nanica do país. Por essa época, publiquei outros trabalhos de poesias como “Fragmentos de Carambola” (1981 – prefácio de Xico Chaves), “Balaio de Serpentes” (1984 – prefácio de Sergio Natureza), “O Cão Depenado” (1985), “Sobras Futuristas” (1986) e “Cynema Bárbaro” (1989 – prefácio de Sidney Cruz). Lancei o livro de contos “Emboscadas & Labirintos”, Editora Aldeia, em 1995, vendido em bancas de jornais, com prefácio de José Maria de Souza Dantas e orelha de Ivan Wrigg.
Com relação ao meu trabalho de produtor de discos, a partir de 1978, ano em que foi gravada a minha primeira composição, parceria com Marko Andrade, em disco coproduzido por mim, produzi a série “Conexão Carioca” (1, 2 e 3 - entre 1999 e 2002); “Aldeias Urbanas”, do Marko Andrade (Selo Guitarra Brasileira/2000), o CD da minha parceira Eliane Faria “Alma Feminina” (Selo ICCA/2003) e “Boas Novas”, do Sidney Mattos, em 2004, entre outros. Enfim... uns 20, contando com os Projetos Especiais para gravadoras, como assistente do Ricardo Cravo Albin. Como letrista tenho gravadas parcerias com Big Otaviano, Bóris Garay, Cacaso, Carlos Dafé, Claudio Latini, Cristina Latini, Ivan Wrigg, Lúcio Sherman, Marko Andrade, Milton Sívans, Moisés Costa, Olten Jorge, Paolo Vinaccia, Reizilan, Renato Piau, Rubens Cardoso, Sidney Mattos e Xico Chaves. Entre meus intérpretes constam Anna Pessoa, Banda Du Black, Ceiça, Denise Krammer, Edir Silva, Elza Maria, Jane Reis, Jorge de Souza, Luiza Dionízio, Luiz Melodia, Martha Loureiro, Paulinho Miranda e Solange Pereira, além dos meus parceiros, nas minhas mais de 30 músicas gravadas. Gravei poemas nos CDs “Conexão carioca 3” (2002), “Quem são os novos da MPB?” (2003), “Boas novas”, do Sidney Mattos/2004, “As tribos”, do Rubens Cardoso/2006, “Receita para a vida”, do Claudio Latini, em 2006, lançado na Noruega e “Desde criança sou Mangueira”, do Reizilan, em 2010.

Daniela Aragão: Como posso perceber você trabalha com música principalmente na área crítica, recentemente publicou o livro “Alguns aspectos da MPB” em que elabora um panorama da música popular brasileira passando por alguns gêneros como o samba, o choro e o hip hop.

Euclides Amaral:Sobre pesquisa musical publiquei “Alguns Aspectos da MPB” (ensaios, 1ª ed. 2008, 2ª ed. Esteio Editora, 2010). Entre 1999 e 2011 atuei como pesquisador musical da Biblioteca Nacional, FAPERJ, PUC-Rio, FINEP, CNPq e Instituto Cultural Cravo Albin, para o qual produzi verbetes pro site dicionariompb.com.br, também utilizados no “Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira”, lançado pela Editora Paracatu em 2006. Quando me liguei já tinha vários ensaios escritos, bastando apenas dar ajeitada na linguagem e coisa e tal. Os ensaios “O Hip-Hop” e “O Funk”, por exemplo, foram produzidos para um trabalho, em 2005, coordenado e orientado pelo Júlio Diniz, da PUC-Rio, que na época, também era nosso coordenador de pesquisa no Instituto Cultural Cravo Albin. De forma que quando percebi já tinha material para um livro de pesquisa.

Daniela Aragão: Um dado interessante em relação a este livro é que você
faz questão de torná-lo acessível ao grande público, pois não se restringe
apenas ao âmbito da distribuição e venda nas livrarias, você o deixa
disponível gratuitamente em alguns sites.

Euclides Amaral: Distribuídos em livrarias de todo o país pela Tratore e Guitarra Brasileira, a segunda edição do “Alguns Aspectos da MPB” (Esteio editora, 2010, com prefácio de Júlio Diniz e orelha de Fred Góes), manteve os ensaios “O Samba”, “O Choro”, “O Hip-hop”, “O funk” “Os Letristas e a Herança do Provençal do Século XI ao XXI”, “A MPB no Cinema Nacional de 1896 a 2010”, “A Nova Geração da MPB no Século XXI” e “A Contribuição Estrangeira na MPB, do Século XVI ao XXI”. Este livro foi disponibilizado, em PDF, para download grátis no portal baixadafacil, alcançando quase 15 mil downloads entre julho de 2010 e novembro de 2011 por pessoas que se interessam pela literatura musical brasileira, assim como alunos dos cursos de Letras, Música, História e Comunicação Social das universidades UFRJ, PUC-RIO, UERJ, USP, UNI-RIO, Universität Hildesheim, da Alemanha, com tradução de dois ensaios para o alemão por Nana Zeh, Universidade Castelo Branco (nos campus de Realengo e Itaguaí), da Escola Brito Elias (Mesquita) e Colégio Pedro II (Unidade Humaitá), todas confirmadas por amigos professores nas faculdades e instituições citadas, como por exemplo o Zé Miguel Wisnik na USP, além do Júlio Diniz e Fred Góes na URFJ. A razão de tê-lo postado se deu porque já fui universitário e sei da dificuldade de comprar todos os livros que os professores pedem, às vezes para usar apenas um capítulo. Por isso achei por bem disponibilizá-lo, tendo em vista tais indicações como trabalho de pesquisa musical, o que não atrapalhou a venda física do livro, dado ao fetiche que algumas gerações, como a minha, têm pela publicação em papel. Quem sabe mais tarde eu consiga incluí-lo no formato digital do e-book da Kindle, Nook ou mesmo da Sony Reader.

Daniela Aragão: E a nova geração da mpb?

Euclides Amaral: No ensaio “A nova geração da MPB no século XXI” tracei um pequeno painel dessa geração mais recente, além das táticas de guerrilha cultural empreendidas como estratégia na luta, desigual, contra as grandes corporações que detêm esse mercado. Há uma luz no fim do túnel e não é um trem bala na contramão, como muitos queriam que fosse. O disco dependente (independente é o feito pelas gravadoras – independe do artista até a escolha do repertório que irá gravar) e toda a produção em home studio é hoje em dia responsável por quase 80% da prensagem de CD/DVD/SMD e Blu-Ray, entre outras mídias, das grandes indústrias do ramo. A internet e todos os sites de relacionamento e disponibilização de áudio e vídeo vieram pra pulverizar essa distribuição artística, dando mais chances a esses artistas de exporem seus produtos. Com relação à produção, temos hoje as plataformas colaborativas de financiamentos de discos, show e clipes, os chamados “Crowdfunding” (conhecida antigamente como ‘vaquinha’), destacando-se no Brasil os sites “catarse.me”, “movere.me”, “benfeitoria.com” e “multidão”. Esse tipo de mecenato, pós-moderno, surgiu para o artista ter a opção de mais uma porta para desenvolver seu trabalho, livre das chicotadas das grandes corporações, as mainstreans do entretenimento. Às grandes corporações só restaram rever seu nefasto comportamento de mais de 120 anos, se contarmos a partir de 1891, quando foram feitas as primeiras gravações, ainda em cilindro, no Brasil pelas mãos do theco Fred Figner.

Daniela Aragão: Outro trabalho recém lançado no mercado diz respeito
ao livro dedicado ao músico argentino Victor Biglione, ele é o músico
estrangeiro que mais gravou no Brasil não é? O que motivou a feitura deste
livro?

Euclides Amaral: Quanto ao livro “O Guitarrista Victor Biglione & a MPB”, perfil artístico do meu camarada (Edições Baleia Azul, 2009) com 2ª edição pela Esteio Editora em 2011, foi a Heloísa Tapajós foi quem me indicou para este trabalho. Daí eu e Victor Biglione viramos amigos de infância e já fizemos vários lançamentos juntos, com direito à declamação do poema que fiz pra ele, o livro, além de pequenas palestras sobre a carreira dele, muito jazz e coisa e tal.

Daniela Aragão: Ganhei este livro do próprio Victor na ocasião em que jantavamos num restaurante no festival de Jazz de Tiradentes e formulavamos a pauta para uma entrevista. Me chamou atenção o apurado senso de humor do Victor que brincava com esse seu caráter multifacetado que o fez gravar com quase todos os músicos brasileiros de diferentes vertentes. Victor passa pelo Jazz, Blues, rock, baladas etc. Recordo-me do belo dueto que assisti dele ao lado de Wagner Tiso, inesquecível. Agora refletindo sobre a nossa música num campo que transcende a questão da execução, performance e composição, como é o caso de Biglione, com relação a crítica musical percebe-se que o seu espaço está muito direcionado para o universo acadêmico, compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil foram estudados em várias dissertações e teses. Alguns nomes conhecidos do âmbito da crítica e produção relacionada à música brasileira também possuem um percurso
acadêmico como Wisnik, Luiz Tatit, Fred Góes e Júlio Diniz. O que você acha?

Euclides Amaral: A produção de livros sobre a literatura musical no Brasil ainda é muito pequena, se comparada a outros países que não têm nem a metade da nossa produção, seja ela em quantidade e ou qualidade, exceto os Estados Unidos, que faz jus a sua produção. Em um país como o nosso, em que o aculturamento se dá basicamente pela música popular, portanto, “de ouvido”, é de se estranhar não haver tantos livros sobre o assunto, o que começou a mudar a partir da década de 1970.

Daniela Aragão: Fora o trabalho da escrita, como é propriamente sua vivência digamos nos bastidores da música. Já participou da produção de algum show?

Euclides Amaral: Comecei a participar de produção de shows ainda pequeno. Lembro de ter de levar a liberação na Rua Venezuela, na Polícia Federal: fitinha cassete e relação das músicas com as letras, pra pegar a liberação do show lá pelo idos de 1975/76. Shows que eu mesmo fazia a direção artística, arrumava o espaço etc e tal. Como poeta, declamando, já fiz com muita e muita gente: Luiz Melodia, Sueli Costa, Joel Nascimento, Renato Piau, Salgado Maranhão, Sérgio Natureza, Xico Chaves, Geraldinho Carneiro, Marko Andrade, Claudio Latini, Chacal, Reppolho, Carlos Dafé, Ademilde Fonseca, Elza Maria, nas rodas de choro do Joel Nascimento (como participação especial no encontro com Zezé Motta e Zélia Duncan), Rildo Hora e Arlindo Cruz em rodas de samba do Cláudio Jorge, rodas de samba da Dorina, da Eliane Faria, Heloísa Helena, além de shows de gente pra cacete!

Daniela Aragão: Recordo-me que quando nos conhecemos enviei-lhe por email as canções do meu cd, devido à impossibilidade no momento de um encontro ao vivo. Você me devolveu uma letra sua a qual gostei muito. A criação anda por aí também não é?

Euclides Amaral: Como sabia que você havia feito um disco com a obra do Cacaso e da Sueli Costa, enviei uma parceria minha com ele (o Cacaso), no caso, uma letra minha e dele em uma melodia do Marko Andrade. O samba fora feito em 1984, mas só o gravei em 2002, num disco que produzi chamado “Conexão Carioca 3”, no qual a Martha Loureiro interpretou a faixa. Depois a Namay Mendes também gravou e deve sair no disco dela e no meu.

Daniela Aragão: Quais são seus planos futuros?

Euclides Amaral: Tô produzindo pra 2012 o meu CD “Quintal Brasil”, com oito poemas e 15 músicas com diversos parceiros e intérpretes. A ideia do disco é mostrar algumas composições nas quais falo, na letra, um pouco do Brasil: flora; faunas marítima e terrestre; culinária; danças; frutas; instrumentos e gêneros musicais; personalidades e clássicos da música e da literatura; religião; brincadeiras brasileiras; rituais; festas populares de norte a sul e a miscigenação da Raça-Brasil, fazendo uso de sambas, toadas, chótis, choros, baião, mas sem xenofobismo, pois há também valsa, balada e soul music, que são gêneros alienígenas, mas sem xenofilismo também. O disco será encartado no meu livro “Poesia Resumida”, reunião dos meus livros de poemas editados, mas, pra não ficar grande resolvi resumir pra cacete, pra não chatear muito o leitor desavisado.

A faixa-título do “Quintal Brasil” foi gravada em disco na Noruega, no ano de 2006. É um baião estilizado para o qual eu fiz a letra e o poema “Compasso brasileiro”, que falo na gravação do CD. Os autores da melodia mandaram a música em uma fita cassete, eu coloquei a letra e gravei o poema em uma manhã na praia do Leblon, em fita cassete, quando estava na casa da Lozinha e Paulinho Tapajós. Saiu no disco uma gravação de estúdio.

“Quintal Brasil”

(Música: Claudio Latini e Paolo Vinaccia
Letra: Euclides Amaral)

Parte cantada por Claudio Latini:

No quintal da minha casa
tem goiaba, cajá-manga,
acerola, fruta-pão.
Na frente da minha casa
tem arruda, quebra-pedra,
pimenteira e agrião.
E no céu da minha casa
asa-branca, assum-preto,
tiê-sangue, gavião.
No rio da minha casa
tem peixe-boi, boto-rosa,
a Festa-de-Jaboatão.
Têm romeiros,
vela e fé...
e a procissão do Círio de Nazaré
e o carnaval
é kizomba e muito axé.

POEMA FALADO
“COMPASSO BRASILEIRO”
por Euclides Amaral

No compasso brasileiro
estão presentes
a sanfona e o pandeiro
a modinha, o chorinho,
a música de barbeiro.
Pro compasso brasileiro
o índio trouxe o caxixi
o português o cavaquinho
o negro trouxe o agogô
tudo música que cura
feito boticário ou doutor.
Tem na flauta de bambu
no tambor de caxambu.
até na caixa-de-fósforos
tem compasso brasileiro.
Tirado com muita manha
tem o corte de bumbo
tocado na lata de banha.
Falando de tambor
temos tudo quanto é tamanho
o candongueiro e o batá-cotô
vindos de Angola e do Congo
com os ancestrais do meu avô.
O cavaco de cinco cordas,
e a viola de arame,
o violão de sete cordas
em andamento bem certeiro
ponteia novo compasso
alinhavado no pandeiro,
esse é o compasso brasileiro.

CONTINUAÇÃO DA LETRA
Cantada por Cláudio Latini

No norte da minha terra
tem piquí, tem açaí
e o Pato-no-Tucupi.
E no sul do meu terreno
tem churrasco, tem quadrão,
tem bombacha e chimarão.
No leste do meu terreiro
tem Ganga-Zumba, afoxé,
quilombola e candomblé.
Do oeste donde venho
tem graviola, pantanal
e o rasqueado da viola.
De onde eu venho
tem ciranda,
choro e samba
e o Boi-de-Maracatu,
e o afoxé,
e o jongo e o caxambu.

Daniela Aragão: Adorei a entrevista, foi um prazer e uma honra. Te desejo muito sucesso e que possamos quem sabe ainda cruzar nossos caminhos musicais desenvolvendo algum trabalho juntos.