sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Entrevista com a cantora Aretha Marcos


Daniela Aragão: É um prazer, uma honra e um misto de emoção conversar com você. De certa forma você fez parte do meu imaginário e o de muitas outras crianças que na época estavam começando a cantar, enfim, tomar um contato com a nossa música. Os programas infantis da Globo em que você participou são antológicos. A música começou cedo em sua vida não é?

Aretha Marcos: Sim, e acredito que realmente é um privilégio quando a vida já acena um caminho. Sou muito grata pela família que nasci e por minha mãe ter deixado eu participar destes especiais musicais. Foi muito impactante conviver com tantos artistas e ver como a música de cada um me influenciou ao longo do tempo.

Daniela Aragão: Era uma época em que se tinha muita qualidade musical, recordo-me de programas dedicados a Vinícius de Moraes por exemplo. O tempo passou e você aproveitou esse legado familiar. Fale-me então sobre o seu novo CD.

Aretha Marcos: Foi um processo longo até a decisão de fazer o disco, mas quando surgiu, foi bem rápido. Eu já tocava há bastante tempo com Estevan Sinkovitz, Léo Freitas e o Caio Lopes. Quando falei pela primeira vez sobre o disco com eles já sabia que queria acrescentar teclado. A escolha do Ricardo Prado foi perfeita, somou e completou o time. Me senti segura e marquei estúdio para levantarmos os arranjos juntos. Sabia apenas que queria regravar duas canções : Non je ne regrette rien e Resposta ao tempo.

Daniela Aragão: Dois clássicos, duas belíssimas canções. Estas duas resolvi ouvir de primeira, de certa maneira você demonstrou ousadia na concepção do arranjo de ambas. Como isso foi pensado?

Aretha Marcos: Quando eu estava pensando no repertório buscava uma temperatura para o palco. O disco nasceu da necessidade de ter o meu trabalho para dar seguimento aos shows. Eu amo o palco. Então eu já sabia que queria as duas profundidades das duas canções.

Daniela Aragão: Em Resposta ao Tempo você parece dar ênfase a certa dramaticidade que é sugerida pelo pontuar da voz em consonância com as batidas incisivas da bateria.

Aretha Marcos: Sim, eu primeiro cantava ela com muita voz e peso, mas no dia da gravação a voz ficou pequena, quase falada, e assim está até hoje, é assim que canto no show.

Daniela Aragão: Sim, é um canto falado.

Aretha Marcos: Resposta ao Tempo me sugere transformações, crescimento, cura, entrega, paixão, força de alma.

Daniela Aragão: É muito bonita a forma como se fala do tempo, sua circularidade que é sugerida tanto na letra de Aldir Blanc como na bela música e arranjo de Cristóvão Bastos. O tempo numa dimensão meio metafísica.

Aretha Marcos: Embora a pessoa esteja no escuro, quer dizer, não é bem escuro, é no nada, refletindo...Olhando de fora para dentro, na música de Piaf é um acerto de contas também.


Daniela Aragão: Você é tão jovem mas já ilustra um percurso que lhe permite dizer que não se arrepende de nada?

Aretha Marcos:É a certeza de ter escolhido o caminho certo, eu saí de casa aos 14 anos.. Posso dizer que conheço a luta pela vida digna através da música, só sei cantar profissionalmente. Mais da metade do que tenho hoje consegui através da música.

Daniela Aragão: Guerreira!

Aretha Marcos: Não me arrependo de ter sido criança prodígio, não me arrependo de não ter sido nada durante longos anos para quem me admirou como artista quando criança.

Daniela Aragão: Percebi em seu trabalho uma forte inclinação performática que se justifica até por sua relação de paixão pelo palco. Tem uma faixa intitulada Escada abaixo em que você brinca estabelecendo um diálogo consigo mesma.

Aretha Marcos: Essa música é ótima, eu quis me mostrar sem medo de julgamentos. A música diz que um dia vai jogar alguém escada abaixo... normalmente a gente quer esconder nossos desejos escuros. Eu queria era por para fora. Meus amigo Eduardo Pitta me entregou a música e eu disse na hora que iria gravar, foi o primeiro arranjo a ser feito.

Daniela Aragão: Me chamou atenção a concepção gráfica do cd, bela diagramação com desenhos e sugestões, o cd demonstra um trabalho muito cuidadoso.

Aretha Marcos: Você não pode imaginar como eu sofri comigo mesma, a verdade é que estou em fase de construção eterna (risos). As coisas precisam demais acompanhar o meu ritmo, como o disco foi feito e a capa foi feita muito depois, mudei o artista gráfico três vezes, não por culpa deles, mas minha. A Aretha da capa, contracapa e encarte ainda estava chegando.

Daniela Aragão: É muito bonito e delicado.

Aretha Marcos: você acredita que quem acabou fazendo foi o primo do meu marido? Paulo Cumino, um super profissional que realizou em tempo mínimo, eu sou apaixonada pelo disco Dani.

Daniela Aragão: Certos improvisos que acabam resultando em maravilhas.

Aretha Marcos: Sou muito grata aos músicos de uma forma inexplicável, o disco pronto me curou de muitos bloqueios, eu não mostrava para eles minhas músicas, só a dos outros.

Daniela Aragão: Fazê-lo serviu como uma sessão intensa de psicanálise?

Aretha Marcos: É um disco de catarse total, compus músicas sem instrumento, cantei para os músicos e eles fizeram o arranjo.


Daniela Aragão: O disco tem um caráter hibrido que entendo até como resultante da sua faceta performática.

Aretha Marcos: É “A mulher do sacana” fiz ao violão que toco mal e porcamente. Mas depois do disco já fiz outras músicas como Declaração e Café da manhã ( apresento esta no show de lançamento). “Na telha” por exemplo, eu já conhecia o trabalho do Kleber Albuquerque faz algum tempo e gostava demais, quando o convidei para gravar ele topou. Eu queria algo diferente para a música, estava no carro na Vila Madalena quando ouvi um som de uma banda e fiquei maluca, desci e fui atrás. Sentei no bar e comecei a ouvir, acabei convidando eles para tocar na música Telha. São os River Boat’s do jazz, fazem um jazz tradicional de New Orleans.

Daniela Aragão: O cd passa para o ouvinte essa noção de integração, é bastante visível a inteiração entre vocês, um trabalho que resulta de um pensar em equipe. Isso é uma grande qualidade visto que o que tem marcado as gravações hoje em dia é a impessoalidade, um músico coloca seu instrumento na mesma faixa que o outro mas não se encontram para tocar.

Aretha Marcos: Olha, para mim seria difícil assim, eu preciso da vibe, da reunião das pessoas, isso para mim é fundamental, principalmente a liberdade de expressão. As vezes um discorda, mas tudo bem, cada um mostra as suas idéias. Nós só crescemos com isso.

Daniela Aragão: Você é uma cantora que possui esse talento para transitar entre os gêneros. Do jazz a uma balada pop, passa para uma canção mais dramática e percorre tudo com muita personalidade. Você já cogitou gravar um disco com as canções de seu pai fazendo uma releitura sua?

Aretha Marcos: Então, eu fiz e saiu em DVD pela Europa Filmes. Não teve repercussão, pois era a primeira vez que eu estava a frente com parceiros de uma coisa que começou pequena e tomou um vulto que eu não podia imaginar. Nós fizemos tudo lindo e na hora da divulgação acabou o dinheiro, mas foi a coisa mais linda e incrível, trabalhar com aqueles músicos e com o Bocato, eu cresci muito. Todos me ensinaram demais e pude contar com a presença de grandes amigos do meu pai, Fagner e Peninha, além do Caçulinha. Eu acredito que um dia as pessoas ainda possam descobrir esse trabalho.

Daniela Aragão: Infelizmente esbarramos cada vez mais com essa questão da mídia, da não valorização da qualidade. Este seu cd está saindo por alguma gravadora?

Aretha Marcos: Sim, Selo Discobertas e o produtor é o Marcelo Fróes, do Rio.

Daniela Aragão: A internet é um ótimo veículo também não é?

Aretha Marcos: Nossa, sem internet sei lá o que seria de mim.

Daniela aragão: Mas esqueci de falar cobre um canção que considero ponto alto no cd, chama-se Malabarista.

Aretha Marcos: Ela foi ganhadora do prêmio de melhor composição na faculdade ULM e quando chegou nas minhas mãos era um samba pois eu cantava muito samba nos shows. Entretanto não sei o que houve, não consegui fazer nada voltado para o samba no estúdio, então transformamos ela completamente (risos). A Marília disse que gostou.

Daniela Aragão: Então você mudou a levada?

Aretha Marcos: Sim, totalmente. A canção Tempero por exemplo, o disco já estava fechado, mas eu fui num bar com um amigo e ele me saca da mochila a música e eu fiquei tão maluca que gravei ele cantando no celular. E no dia seguinte levei para o Ricardo e o Estevan ver e em dois dias ela estava pronta, acho que o disco é uma Aretha que as pessoas terão de conhecer, não é a Arethinha.


Daniela Aragão: E os projetos atuais?

Aretha Marcos:Trabalhar muito o disco, fazer muitos shows, além de tudo o inesperado e bom que a vida há de trazer para mim (risos).

Daniela Aragão: Super obrigada Aretha, foi um prazer.

Aretha Marcos: Também adorei.

3 comentários:

Marisa disse...

legal! podia postar fotos das entrevista tbem, beijo

Cesar Weber disse...

Oi Daniela,
entra em contato comigo que eu tenho uma proposta a te fazer.
bjs

cesar
cesweber@gmail.com

aretha disse...

Dani muito obrigada pelo carinho e interesse em mostrar um pouco do meu trabalho.... vou seguindo como formiguinha, num universo as vezes um tanto preconceituoso, porém prazeroso e vital para mim!
Bjks n'alma paz, luz e sorte em sua caminhada!!!

Aretha