quinta-feira, 29 de abril de 2010

O olhar indiscreto de Humberto Nicoline




“Mas há milhões desses seres/Que se disfarçam tão bem/Que ninguém pergunta/De onde essa gente vem/ São jardineiros/Guardas-noturnos, casais.../Tem uns que viram Jesus/Muito sanfoneiro/Cego tocando blues/Uns têm saudade/E dançam maracatus/Uns atiram pedra/Outros passeiam nus...”. Vou folheando o belo livro de fotografias de Humberto Nicoline Juiz de Fora anos 80, que registra com despudorada força expressiva momentos impactantes, singelos, alegres, comoventes, reveladores e dolorosos da história de nossa Manchester mineira. O Brejo da cruz de Chico Buarque me conduz como trilha sonora, enquanto vou me deparando no decorrer das páginas com uma série de rostos anônimos, que me inspiram mais do que a presença das faces embrutecidas dos políticos atuantes nessa década que comportava os derradeiros resquícios do regime opressivo.

O acervo de fotos reunido por Nicoline em Juiz de Fora anos 80 compõe o trabalho realizado por ele no ofício de fotógrafo para o jornal Tribuna de Minas. Inteiramente em preto e branco, o álbum explicita o olhar aguçado e perspicaz de Nicoline, voyeur-participante que esteve sempre “de olho na fresta,” como intitulou com maestria o sociólogo Gilberto Vasconcellos na ótima análise que elaborou sobre o contexto político-musical dos anos de chumbo.

Trezentas páginas percorrem espaços, acontecimentos e personagens anônimos e célebres que demonstraram coragem e ousadia para botar a cara na rua em prol de crenças pessoais e ideais coletivos. Sem medo de ir à luta estudantes, donas de casa, intelectuais, boêmios, loucos – figuras amadas, odiadas, ou simplesmente desconhecidas alimentaram sonhos de liberdade numa década que trazia como marca a transformação.

Reivindicar é o lema que comanda uma diversidade de imagens. Muita gente foi às ruas brigar pelo direito a educação de qualidade, a manutenção de monumentos históricos, o estabelecimento de preços justos e a aplicação da democracia. Close nos artistas protestando na porta da galeria de arte do colégio Stella Mattutina em 1986, luta perdida. No Parque Halfeld uma senhora com a face desgastada e os óculos de aros grossos ergue um cartaz em protesto ao consumo de carne. Em frente ao Teatro Central jovens fazem uma performance em defesa de sua preservação, platéia cheia, luta vencida.

Rostos e mais rostos que fizeram a história de Juiz de Fora nas artes plásticas, música, cinema, jornalismo, literatura e teatro. Renato Stheling com a longa barba grisalha dá um trago no cigarro, Rui Merheb com o sorriso límpido mira o horizonte, Arlindo Daibert incisivo, Carlos Bracher em momento de argumentação, Dnar Rocha meio gauche sentado num banco. Punks fazem poses caricaturais enquanto desponta suave uma menina de rosto angelical e gestos suaves, Cristiane Visentin é a única cantora que ilustra o livro. Com sua voz e violão ela já punha a cara nas provas de fogo dos festivais, resultado: melhor intérprete. Antológico registro do pianista e arranjador Márcio Hallack ao lado do multisonoro Hermeto Paschoal, como dois garotos travessos eles são flagrados pulando as cercas de aço da Avenida Rio Branco. Serjão Evangelista e Márcio Itaboray erguem o troféu em comemoração ao segundo lugar no Festival de Música Funalfa Som 82, pura emoção.

“Dizem que sou louco por pensar assim”, sob olhares curiosos o artista plástico Markus Kamil desfila pela Avenida Rio Branco em 1983 trajando apenas um micro short, que por pouco poderia ser confundido com a tanga de crochê do Gabeira. Crucifixo no pescoço e o braço esquerdo semi erguido em gesto de luta, Kamil seguiu seu caminho por linhas e tintas tortuosas. Inteiramente nu Toninho Buda movimenta o palco do Pró-Música, enquanto o folclórico Ângela Maria se esbalda fantasiado de baiana no carnaval de 1986.

O olhar delicado de Nicoline revela a poesia extraída do cotidiano dos marginalizados: um pequeno jornaleiro contempla a imagem do desenho animado exibida na televisão da loja de eletrodomésticos, um morador de rua dorme encolhido em meio a um amontoado de papéis na porta do cinema São Luiz, em frente à igreja São Mateus outro morador contempla o vazio. Sob o foco de Nicoline Juiz de Fora resplandece enriquecida em sua faceta multicultural. A grande história não passa no fundo de uma profusão de utopias que verdadeiramente se solidificam com a contribuição daqueles seres corajosos, alucinados, e destemidos. Nicoline sabe das coisas...

Um comentário:

CRISTIANE VISENTIN disse...

Me sinto extremamente emocionada com a beleza de suas palavras escritas. Vc soube definir este livro de tal forma que me sinto pela segunda vez honrada e deverasmente agradecida.
Ao folear o livro chorei como criança recordando aqueles tempos e por ser merecedora de tal homenagem. Agora, choro por ler tão linda crônica ! Parabéns Dani, vc merece aplausos ! clap,clap,clap !!!