sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Beatriz Azevedo abraça o sol



Muito cedo me encantei pelos meandros poéticos e sonoros, numa de minhas crônicas mais recentes, dedicada ao cd PartimpimII, de Adriana Calcanhotto, tirei do baú o antológico livro de poemas de Cecília Meirelles Ou isto ou aquilo, uma ode ao esplendor lírico extraído das miudezas do mundo infantil. A musicalidade ecoa intensa de poemas que utilizam uma linguagem permeada de referências a elementos da natureza - o vai e vem que conduz o ritmo das águas dos rios, como A Correnteza de Tom, as aquarelas luminosas e multicromáticas que seduzem as crianças no prosseguimento de um percurso infindo: “Olha a chuva molha a luva/cada gota de água/como um bago de uva”. Estou no processo de escrita de minha tese de doutorado sobre Calcanhotto, e continuamente me pego desenrolando novas idéias sobre essa artista, até mesmo no circuito alternativo, não acadêmico. Escritos de “fã fanática”, devem pensar alguns, contudo esclareço que o que mais me atrai no seu trabalho transcende a limitação do enquadramento mercadológico, o ponto diferencial que me toca é o apuro estético e a relação densa que ela estabelece com o universo poético. Quando se analisa a totalidade da obra de um cantor e compositor, deve-se abrir o leque de abordagens, visto que a criação não envolve somente o aspecto da composição, mas também do desempenho performático que implica na concepção e modulação do canto, assim como da expressão corporal.


A palavra elevada as suas múltiplas possibilidades poéticas é alvo de um minucioso trabalho desenvolvido não exclusivamente por Calcanhotto, mas também por outros de sua geração como Arnaldo Antunes, Zeca Baleiro e Beatriz Azevedo. Certamente poucos ouvintes tiveram acesso ao trabalho de Beatriz, pois ele não é veiculado pela grande mídia. Tomei conhecimento da existência de Beatriz Azevedo por acaso, quando me deparei numa livraria com o seu ótimo cd Bum bum do poeta.. Confesso que fui seduzida de imediato pelo atrativo da capa, que em fundo inteiramente vermelho mostrava sobreposta em destaque a foto da artista em pose a là Marlene Dietrich em O anjo azul.

Cantora, compositora, poeta e performer, Beatriz Azevedo é uma artista que celebra a “tradição da invenção” ao seguir a linha evolutiva do riso e da alegria transgressora e erótica de Gregório de Mattos, Oswald de Andrade e Zé Celso. A palavra que sob a mira dessa artista é alvo de depurada lapidação, desponta ácida, irônica ou eroticamente insinuante, como em Querelle, canção composta por ela, inspirada no filme do excêntrico cineasta alemão Rainer Fassbinder, que adaptou para o cinema a obra homônima de Jean Genet: “Querelle eu quero sua pele/Quero querer Querelle/Em mim sua boca mais que a de Marilyn seu corpo forte/Quero gemer como James Dean/Numa noite triste tudo que existe tem um fim/Tem um filme”.

Alegria, disco primoroso lançado pela gravadora Biscoito Fino, dá prosseguimento a pesquisa estética e literária evidenciada em Bum bum do poeta, mas com o acréscimo de um evidente amadurecimento revelado no desempenho sofisticado e preciso da direção musical e dos arranjos do pianista Cristóvão Bastos. Gravado entre São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, Alegria traz a marca da diversidade correspondente ao conceito proposto por Beatriz Azevedo, que em sua verve cosmopolita jamais perde os laços estreitos com as raízes nacionais. Apropriando-se do impulso deglutidor do antropófago Oswald de Andrade, Beatriz nomeia no encarte todas as devorações realizadas nas músicas. Põe música em Coco de Pagu, poema do modernista Raul Bopp, dedicado a musa do movimento antropofágico Patrícia Galvão, a Pagu: “Devoração de Coco e Embolada com Patrícia Galvão. Devoração de Raul Bopp, poeta da Amazônia. Devoração de Augusto de Campos que nos deu este poema de Bopp no seu Pagu vida-obra.”

Alegria, faixa inaugural que dá título apropriado ao cd, é uma parceria entre Beatriz Azevedo e Vinícius Cantuária, músico brasileiro radicado nos Estados Unidos há mais de vinte anos. Alegria traduz o estado de espírito verde amarelo através da devoração miscigenada de Cesária Évora, Ernesto Nazareth, Beethoven e Shiller: Segundo a cantora: “O mote da alegria tem a ver com os ritmos brasileiros, ela é uma característica não só minha, mas da história do Brasil”.

Speak Low, antológica canção de Kurt Weill e Lotte Lenya, recebe uma interpretação magistral, em ritmo de maracatu a música ganha o toque afro-brasileiro do berimbau enriquecido por um naipe de sopros e alfaias bem graves. Esta canção explicita a habilidade com que Beatriz Azevedo devora, desconstrói e reconstrói a cultura alemã que engloba Nietzche, Brecht, Peter Stein, Pina Bausch, Sacha Waltz e Fassbinder. Envolvendo sensualidade e fragmentos de sonhos cinematográficos Bertollucianos-Fellinianos-Kusturicanos, a atmosfera sonora criada por Beatriz Azevedo nos envolve tão sedutoramente que às vezes parece que retrocedemos a um cabaret parisiense. O diálogo com a cultura francesa é enternecedor em Savoir par coeur, um delicado souvenir poético: “Si je sais par coeur/Le rythme de ton coeur/Tu sais pourquoi/La musique de mon coeur”.

Beatriz Azevedo em Alegria presenteia os ouvintes com poesia, bom gosto e criatividade. É uma alegria saber que em meio a tantas banalidades existe uma artista como Beatriz. À massa que ainda comerá de seus biscoitos finos ela entoa: “Mas eu vou fazer tudo que eu quero, bem do meu jeito. E deixa prá lá essa gente com despeito.”

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O vôo intenso de Cristiane Visentin



Murilo Mendes em A idade do serrote disse que Juiz de Fora era um trecho de terra cercado de pianos por todos os lados. Muitos anos se passaram desde a manifestação do poeta, e nossa cidade ainda permanece com uma intensa vocação musical. Se os pianos não reinam mais absolutos e onipresentes por todos os cantos, eles dividem agora o espaço com flautas, violões, contrabaixos, baterias e vozes. Percorrer a história da música popular de Juiz de Fora é deparar com talentosos músicos, compositores e sobretudo cantores. Nossa cidade ultimamente anda ficando popular no cenário nacional pela quantidade de cantoras que tem lançado no mercado. Não se trata de novidade afirmar que as vozes femininas cada vez mais suplantam as masculinas no universo da MPB, os cantores em sua maioria são compositores que cantam, enquanto as cantoras prevalecem como intérpretes e em número consideravelmente maior.

Adolescente em meados de noventa, eu começava a dedilhar os primeiros acordes e arriscar a interpretação de algumas canções na solidão do meu quarto, enquanto borbulhavam pela cidade as cantoras Raquel Silvestre, Miriam Alvarenga, Tânia Bicalho, Cristiane Visentin, Rosana Britto, Marcela Lobbo e Isabella Ladeira. Essas vozes singulares dividiam o cenário local e não faltava espaço para o bom gosto, ousadia e originalidade. Não conferi o trabalho de todas na época, mas não deixava de ler as matérias divulgadas nos jornais e na televisão.

Mais de uma década se passou, e ao ouvir nesse instante “Bird in Blue” resgato a emoção indescritível que me tomou quando vi e ouvi Cristiane Visentin pela primeira vez: “Tudo que estava em minhas mãos voou e o pássaro do amor também não quis ficar/não quis”. Numa tarde de domingo, na Praça Jarbas de Lery Santos, uma multidão aguardava a chegada da cantora Cristiane Visentin acompanhada pelo guitarrista Salim. Um círculo médio delineado com pedras portuguesas no chão delimitava o palco improvisado, em que adentra inquieta uma moça muito bela de longos cabelos louros e cara de “anjo sapeca”. “Eu já estou com o pé nessa estrada/qualquer dia a gente se vê”, Cristiane canta visceralmente a canção de Milton Nascimento, que anunciava sua sede de cantar movendo o dom pelas estradas da vida. Impossível ficar indiferente diante de uma performance marcadamente intensa, que na voz trazia uma mistura rara de contrastes acentuados pela fusão aparentemente dicotômica e absolutamente harmônica entre suavidade e acidez, inocência e densa carga emocional-existencial. Cristiane Visentin cantava com tamanha entrega como se aquela fosse sua última tarde, a movimentação do corpo pleno de sonoridades, pulsava na recepção de cada nota entoada pela guitarra de Salim. A falta de acomodação e o calor excessivo não impediu que idosos se misturassem a jovens e crianças e permanecessem atentos até o final da última música. Minhas impressões hoje soam difusas mediante o transcorrer de longo tempo, mas não se apaga o quadro composto pela imagem dos raios luminosos incidindo sobre os cabelos de Cristiane, enquanto ela exasperava como uma cantora negra aos moldes de Bessie Smith: “Desde os meus onze anos que escuto Etta James, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald”.

A força interpretativa é uma das características mais evidentes no canto de Cristiane Visentin. A voz poderosa, acentuada pelo vigor de um timbre único, revela uma articulação perfeita que não dispensa uma sílaba, uma nota. Compositora, instrumentista e arranjadora, essa artista tem o dom de transformar simples canções em verdadeiras pérolas. Que habilidade tem essa cantora para transitar entre uma variedade de gêneros sem jamais perder o alento de sua identidade. Dia desses ouvi-a cantando uma canção de Michael Jackson tão lindamente que chegou a superar a interpretação do próprio. Essa é a Visentin, frase que ela mesma afirma entre gargalhadas escancaradas que acompanham o constante inclinar da cabeça para trás.

Como intérprete e compositora, Cristiane Visentin percorreu uma imensa variedade de festivais no Brasil, obtendo inúmeros primeiros lugares. Realizou espetáculos inesquecíveis dedicados a obra de Sueli Costa e Fátima Guedes: "Meu trabalho se enriqueceu muito com a atenção de Cristiane Visentin", além de cantar acompanhada por músicos de peso como o guitarrista Victor Biglione e o baterista Téo Lima . A vivência por dez anos nos Estados Unidos se efetuou como uma espécie de continuidade e amadurecimento do percurso construído no Brasil, em que a artista pode assimilar com propriedade a influência da música composta pelos negros jazzistas americanos: “Cantei com os velhos do jazz, cantei nas esquinas de New Orleans em momento do show de Norah Jones... aquelas coisas de quem não perderia nenhuma oportunidade.”

Ouvir Cristiane Visentin é ficar diante de uma artista completa, “beleza bonita de ver”, já dizia Fernando Brant. Retomo mais uma audição de “Bird in Blue”, o indecifrável e inquieto pássaro do amor. Essa é a Visentin, diria ela entre cargalhadas.

sábado, 30 de janeiro de 2010

AGENDA DE SHOWS DE DANIELA ARAGÃO

27 DE FEVEREIRO - RESTAURANTE MARIA MARIA - JUIZ DE FORA

27 DE MARÇO - GILBERTINHO - JUIZ DE FORA

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Nova parceria


Este é o meu novo parceiro musical, o violonista e guitarrista Paulinho da Matta.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Bonequinha


Cris Visentin montou essa bonequinha "inspirada" em mim. Não resisti aos oclinhos e resolvi postar aqui.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Entrevista com a cantora e compositora Cristiane Visentin



Eu sempre falei que queria ser artista. Falava isso para família quando era bem pequenininha. A música surgiu em minha vida e daí em diante eu nunca mais parei.


Depois de passar quase uma década nos Estados Unidos cantando o repertório da música popular brasileira e composições próprias, a cantora, compositora e violonista Cristiane Visentin retorna ao Brasil com uma bagagem enriquecida pelo contato com grandes músicos do cenário nacional e internacional. Tivemos uma conversa super agradável em que Cristiane relembra os primórdios da carreira em Juiz de Fora, os festivais, as parcerias e os projetos atuais. Confiram abaixo:



Daniela Aragão: Quando a música apareceu em sua vida?


Cristiane Visentin: Falar sobre isso é falar como todo mundo fala, desde que eu me entendo por gente. Fica até engraçado falar isso (risadas), eu não gosto muito de usar frases muito comuns, é isso aí, essa é a minha verdade. Eu tenho uma influência muito grande por parte da minha mãe, ela também cantava, foi cantora de rádio, não rádio em nível nacional, mas cantava na rádio da cidadezinha dela. Foi podada pelo pai, que era músico também. Depois ela resolveu casar com meu pai e assumir a família, e não mais se dedicar a música. Mas meu avô Zé, por parte de mãe, grande avô, grande violonista e meus tios irmãos dele me influenciaram. Inclusive meu avô era autodidata, era muita musicalidade, um tocava cavaquinho, outro violão de doze, outro violão de sete, e eram reuniões e mais reuniões em família e eu pequenininha assistindo tudo. E ao invés de ficar brincando com as crianças na festinha, eu ficava sentada assistindo. Eu gostava muito, me arrepiava. E as minhas brincadeiras de infância eram um pouco diferentes, ao invés de brincar de boneca, eu não queria saber de boneca, a minha maior satisfação era subir em cima de uma mesa, pegar um cabo de vassoura imitando um microfone, e ficar fazendo o meu programa de auditório. Como se eu estivesse cantando diante de um público e tal. E a música foi surgindo assim na minha vida, lembro-me que aos cinco anos eu pedi uma boneca de natal e minha irmã pediu um violão, e aquele violão ficou parado bastante tempo em cima do guarda roupa. Nem eu brincava com a boneca e nem ela com o violão, mas eu continuava subindo em cima da mesa cantando com o cabo de vassoura, eu não sabia que eu era instrumentista, que tinha essa vocação e tal. Daí ganhei um acordeon, que tocava direitinho, tinha todas as notas. Eu saí tocando de ouvido, um dia olhei para o violão lá em cima do armário, minha boneca ainda permanecia intacta. Fiz a proposta para minha irmã : - eu te empresto a minha boneca, mas você me empresta seu violão? E eu saí tocando o violão, fiz todos os acordes possíveis, assim primários e tocando todas as músicas que sabia na época, aquelas típicas de criança como Atirei o pau no gato, Fui no tororó beber aguá não achei, Parabéns pra você e musiquinhas que eu aprendia no colégio. Eu sempre falei que queria ser artista. Falava isso para família quando era pequenininha. Assim então que surgiu a música em minha vida, e daí em diante eu nunca mais parei.


Daniela: Elis Regina certa vez falou que tinha ficado muito emocionada ao tomar consciência da beleza de sua voz. Você tem um timbre belíssimo, como veio essa consciência do cantar para você?

Cristiane: Eu não acreditava que seria cantora, eu queria ser instrumentista. Eu pensava que iria ser somente instrumentista, eu cantava quando era criança, subia na mesa e tal, mas quando descobri o instrumento já passei a esquecer que era uma cantora. Eu queria mais o instrumento do que tudo na minha vida, até o dia em que o pianista Euzébio Monfardini me encontrou e falou: “- Você tem uma voz muito linda”. Eu falei: - não. Eu sou boa violonista, e eu não era nada (risos). Eu tinha treze anos de idade na época. Daí ele me convidou para cantar num restaurante onde ele trabalhava aqui em Juiz de Fora e meus pais passaram a me levar toda semana.

Daniela: Nesse restaurante você parou momentaneamente de se acompanhar?


Cristiane: O Euzébio me perguntou: - o que você canta? Respondi: - Eu canto o que eu toco. Daí falei João Bosco, Elis Regina e os antigos clássicos da MPB como Lupicínio Rodrigues, Cartola, Noel Rosa, Dolores Duran e muitos outros...Então logo comecei a cantar no Dom Fellipo toda semana, ganhando um dinheirinho simbólico, eu não tinha nem carteira da ordem dos músicos, não tinha nada. E daí eu fui me ouvindo e percebendo que realmente eu tinha uma afinação, que tinha talento para isso, o canto.

Daniela: Os músicos que entrevistei falaram muito da influência que sofreram de músicos como João Gilberto e Tom Jobim, e percebo em você nitidamente a influência do jazz, do soul. Como vem isso?


Cristiane: Desde os meus onze anos que escuto Etta James, Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald. Gosto muito também da Janis Joplin, que também se encaixa bem nessa linha jazz, soul. Não sei porque sofri essa influência, nunca tive mito brasileiro, não sei porque. Eu gosto da música brasileira, adoro e sou influenciada por ela, mas não sei porque eu tive uma queda muito grande pela música negra americana. É claro que sou muito influenciada pelas belas composições de Sueli Costa e Fátima Guedes por exemplo, cheguei até a fazer shows dedicados a essas duas compositoras. Contundo não sei nem porque o destino me levou para isso, tanto que fui acabar parando nos Estados Unidos.

Daniela: E no período inicial de sua carreira você passou um longo tempo em Juiz de Fora?


Cristiane: Fiquei bastante tempo em Juiz de Fora, aí eu fui para o Vitrô Musical Bar, que mais tarde se transformou em Jazz Club Bar, onde ali de fato eu assumia a cantora Cristiane Visentin, que eu começava a construir. Confesso que esses espaços foram acontecimentos sui generis na história da música de Juiz de Fora. Não devo deixar de mencionar a importância do Prova Oral, pelo fato de que ali eu também pude conhecer e trabalhar com músicos de projeção nacional.

Daniela: Grandes músicos deram canja ali como o Toninho Horta, Nivaldo Ornellas e Arthur Maia. Percebo que o Jazz Club foi um marco na carreira não somente sua, mas também de outros artistas como o contrabaixista Dudu Lima, que hoje é tido pelo guitarrista Stanley Jordan, como um dos melhores baixistas do mundo.


Cristiane:Ah o Dudu, eu trabalhei com ele juntamente com o Trio BelaFonte, do qual na época ele fazia parte.


Cristiane: Quantos músicos eu conheci ali dentro e sendo ainda uma menina, eu tinha quatorze anos de idade na época. E aí me chamavam para dar canja, e eu ia no Djavan, que já estava em evidência, ia na Janis com Summertime, ia em todas as canções. Eu cantava tudo de jazz, principalmente os Standards. Eu consumia diariamente o jazz. Penso que de certa maneira isso devia impressionar os ouvintes mais experientes, pois eu era uma menininha cantando diante daqueles grandes lá ao meu lado, alguns que hoje em dia nem atuam mais na música né? Isso foi de uma importância muito grande para mim.

Daniela: Você vivenciou todos esses locais que hoje já não existem mais?


Cristiane: Eu me considero pioneira em música ao vivo em Juiz de Fora como cantora. Antes de mim, como cantora considero que só existia a Raquel Silvestre, não tinha cantora em Juiz de Fora que atuasse na noite exceto Raquel e Cristiane Visentin. E a Raquel era aquela escola, uma escola, uma grande cantora. E ela já tinha uma certa vivência, então eu me considero uma pioneira nesse sentido. Porque eram só homens que atuavam na noite de Juiz de Fora.


Daniela: Interessante é o fato de que você pegou uma fase de florescimento das cantoras. Eu nem peguei isso enquanto cantora, pois sou mais nova um pouco. Tinha você, a Rosana Brito, a Mirinha Alvarenga, Isabella Ladeira, Marcela Lobo...


Cristiane: Não posso deixar de falar que durante esse momento despontava a Rosana Britto, eram então Raquel, Cristiane e Rosana Britto em evidência na cidade. Foi uma fase muito legal, e a música era cultural, uma música boa que a gente fazia. Não quero pichar, pois tratando-se de cultura, importa muito na verdade é aquele que está produzindo, quem faz. Há ouvidos para ouvir o que for, e qualquer segmento de música é manifestação cultural de um povo. O funk é cultura, forró é cultura, sertanejo é cultura, agora a minha cultura é diferente. O que eu absorvi foram músicas que têm qualidade de letra e qualidade de música. Hoje em dia você pode muito bem fazer uma música e uma letra sem qualidade, e no entanto ela mesmo assim pode valer a pena para ouvidos de outros. Isso é cultura pra mim.

Daniela: Sempre quando pensava em Cristiane Visentin me vinha de imediato também o guitarrista Salim Lamha. Como vocês desenvolveram uma dupla bonita não é?


Cristiane: Pura sintonia e química musical, o Salim é um grande músico, muito sensível. Com a gente até hoje não ocorrem ensaios, nos guiamos por pura sensibilidade.


Daniela: Você não tocou até agora no seu lado de compositora. Você ficou conhecida como uma das grandes vencedoras dos festivais, como intérprete e até mesmo como compositora. Seu lado compositora foi desenvolvido mais tarde ou emergiu junto com o canto e o desempenho do violão?


Cristiane: Eu com onze anos já tinha a minha primeira música, que era uma música totalmente infantil, mas que despertou o meu lado de compositora. Esta canção se chamava O passarinho azul. Eu levava pra escola um caderninho e ali eu compunha minhas canções inocentes, apropriadas para idade. Depois chegava em casa e quando pegava o violão elas saiam como água de um cano inspirador. Saiam assim mesmo sem precisar ter o instrumento em mãos.

Daniela: O Bird in blue seria uma canção que se desdobrou da singela Passarinho Azul? O Bird é mais rascante né?

Cristiane: Não, olha que loucura, vou chegar lá. Não, era somente o Passarinho Azul, que dizia assim: fugiu da minha gaiolinha um passarinho azul/ que eu peguei na florestinha verde/ e eu vi bem lá no horizonte voando em plena imensidão tão triste/ pássaro azul/ pássaro is blue/ pássaro azul. Tem mais um restinho da letra, aí depois é que veio o Bird in Blue.

Daniela: Elas não teriam uma relação então?

Cristiane: Talvez até tenha, pode estar oculta essa ligação. O Bird in blue é um blues, mas o título não significa que eu queira dizer que a música seja um blues, mas é um blues, porque na verdade se eu quisesse falar que o Bird in Blue seria um blues, eu teria colocado Bird in Blues, mas não é, é Bird in Blue, ou seja, um pássaro no azul.

Daniela: E essa canção ganhou muito festivais ...

Cristiane: E eu comecei a compor, a fazer, e a coisa mais difícil para mim nesse processo de composição era ter parceiros, porque eu sou muito minha. Me enfio no meu quarto, no meu mundinho e crio minhas músicas, as minhas músicas saem assim. Faço a letra e a música, a maioria delas eu faço letra e música juntas.

Daniela: E parcerias, já fez?

Cristiane: Tenho alguns parceiros como Nilton Bustamante, que é um super parceiro, Claudio Massenas, de Belo Horizonte, Telma Tavares, do Rio, muito boa cantora e compositora, o Naninho que está em Nova York,o musicalíssimo maestro e arranjador Aécio Flávio, Dani Machado... Tenho muitas composições, mas a maioria na verdade são somente minhas.


Daniela: Você ficou quase uma década fora não é? Como foi essa experiência nos Estados Unidos?


Cristiane: Foi uma experiência fascinante para mim. Foi muito bom, primeiro porque eu saí aqui do Brasil contratada, não sai aleatoriamente, não aconteceu assim de : - vou fazer minhas malas e ir embora. Mesmo porque eu não pensava em sair do país, nunca pensei em sair do país, meu ideal era ficar aqui no Brasil e fazer minha carreira aqui no Brasil. Não falo nem de sucesso, pois nessas alturas do campeonato não sei mais o que é fazer sucesso, pois sucesso para mim é você estar se realizando como pessoa, como profissional. Minha visão de sucesso hoje é totalmente diferente. Se eu vou ali e canto para um pequeno público composto de cinco ou seis pessoas e eles prestam atenção no meu trabalho, isso para mim já é sucesso. O fato de ter ido embora contratada foi muito bom, pois eu já cheguei com infra estrutura. Eu tinha onde morar, onde cantar e tal. A princípio fui para ficar dois meses, não fui para morar e dali fui ficando, pois foi surgindo convite aqui, convite ali, e fui ficando, ficando, e acabei ficando todo esse tempo .


Daniela: E levando o repertório do Brasil?

Cristiane: Só Brasil, só cantava música brasileira. Depois é que passei a cantar certos hits internacionais, pois passei a fazer festas para americanos. O contratante me pedia: “Canta alguma coisa em inglês só para quebrar o clima.” E eu dizia, mas estou aqui para cantar música popular brasileira, é esse meu trabalho e tal. E ele falava que eu deveria cantar canções americanas para eles se sentirem mais em casa. Aí comecei a incluir os jazz que eu sabia cantar, hits de Elton John, George Michael, Madonna, tudo que eu sabia, que meu ouvido captava. Até coisas que eu não tinha o domínio, daí eu fui crescendo. Mas o meu trabalho nos EUA foi para divulgar a música popular brasileira.


Daniela: Me recordo da época quando te enviei o meu cd, e você muito gentilmente divulgou ele por lá na rádio em que trabalhava.

Cristiane: Sim, eu tive um programa na Rádio Brasil FM em Miami, que era uma rádio super incrível, muito legal, os diretores maravilhosos que me deram toda a liberdade do mundo para divulgar a música popular brasileira em todos os setores. Eu tocava de tudo, mas tinha à parte um programa em que eu lançava os músicos que eram independentes, que não tinham selo, gravadora, aqueles músicos que pegavam o próprio dinheirinho e investiam mandando ver no que queriam e acreditavam. Esse era o meu intuito, foi o que eu falei para a diretora Tânia Azevedo, que era a diretora da rádio. Sentei na sala com ela e falei: - Tânia, você me dá a liberdade de divulgar as pessoas do Brasil, mesmo as que estão aqui fazendo música independente? Ela falou: -of course. Então no meio do meu programa eu tinha uma hora em que dedicava as pessoas, e intitulei o programa de Os independentes do Brasil. Eu achei um barato esse título, pois me lembrava algo dessa independência do Brasil, emancipação da nossa música...E eu lancei muita gente, Paulinho Shoflenn, Douglas Souza, você Daniela Aragão, Lúdica Música, Marcela Lobbo, dentre tantos outros que agora não me vem a memória.


Daniela: E a recepção era boa?


Cristiane: Calorosa, essa rádio era uma rádio popular, ouvida mais por brasileiros, mas por muitos americanos também. Era uma rádio afiliada a uma outra chamada Love Nine four . Rádio puramente americana, smooth jazz, só toca Ivan Lins e o resto do mundo que faz smooth jazz. O jazz melódico. E fiquei um ano e meio nessa rádio até que fui participar do Primeiro Festival de Música Brasileira dos Estados Unidos. Eu fiquei em segundo lugar regional na Flórida e segundo lugar nacional, sendo eu a única mulher compositora neste festival. Ganhei com uma música minha, PESCADOR DE ESTRELAS, cantando em português. Um festival que tinha no corpo de jurados o Jayme Monjardim, que embora seja famoso como diretor de novelas, mostrou um olhar crítico e sensível para a música. O Bob do Valle, que é um cara muito fera também.

Daniela: Você dividiu o palco com Menescal e Hélio Delmiro também ...

Cristiane: Sim, daí começaram a surgir convites e mais convites, até convites para sair da Flórida e partir para Nova York. Ah pensei, vou sair da Flórida, desse sol, toda bronzeada. Olha o que eu pensava (risadas), que valor que eu dava para a minha música. Daí falei, ah não vou sair desse sol, vou ficar por aqui. Aí fiquei mais um tempo na rádio, cobri programações na rádio, também trabalhei como repórter de rua. Entrevistei muita gente, eu era repórter de rua, eu ia para os bastidores, eu era uma espécie de mil e uma utilidades nos meios da comunicação (risadas). Além do meu lado de cantora, desenvolvi o meu lado de comunicadora que eu amo. E acabei recebendo uma série de convites que me fizeram tomar uma atitude súbita, peguei meu carro com a carteira de motorista vencida, despenquei com ele da Flórida para Nova York, em plena Highway e fui embora, meti o pé na estrada e cheguei lá.


Daniela: On the Road

Cristiane: Quando cheguei lá já tinham vários trabalhos me esperando. Comecei a cantar em New Jersey, cantava em universidades, fazia festas fechadas em hotéis e cantava nos bares. Alguns brasileiros e muitos bares americanos. Cantava em muitos pubs americanos, fui cantar com os velhinhos do jazz, e lá foi a minha escola maior. Até quando eu recebi um convite para cantar numa das melhores casas que existe no Village, que se chama Café Wha?, que é uma casa americana, mas que dá o maior valor para a música brasileira. Cantei com uma super banda brasuca, com doze músicos no palco, todos eles muito bem situados aqui no Brasil. Um tocou com Gal, outro com Menescal, outro com Carlinhos Brown. Todos eles tem uma escola profissional, doze músicos em cima do palco. E foi uma experiência maravilhosa, casa cheia, e muitos americanos nos assistindo, uma noite brasileira. O repertório era Jorge Benjor, Sandra de Sá, Djavan, João Bosco, Chico Buarque, Caetano Veloso, e os americanos ficavam enlouquecidos. Cantei no Zinc Bar também, no Village. Zinc Bar é uma referência em Nova York.

Daniela: Entrevistei o Bernard Fines, que é um cantor francês radicado no Brasil, e ele falou bastante sobre a influência da Bossa Nova em seu canto e suas opções sonoras. Nesse seu tempo nos EUA aconteceram também muitas solicitações de repertórios da Bossa Nova?


Cristiane: Com certeza, a música brasileira é muito bem quista no mundo inteiro. Meu sobrinho acabou de voltar da China e estava falando sobre o tanto que os chineses amam a música brasileira. E não foi só na China que ele disse que viu a música brasileira ser tão adorada. Nos últimos tempos eu venho observando uma coisa muito engraçada, a invasão do forró e do sertanejo, e os americanos gostando muito.


Daniela: Não é o sertanejo Tonico e Tinoco, Xavantinho e Pena Branca, mas o sertanejo massificado, não é?

Cristiane: Pois é, justamente o sertanejo massificado. E que para mim nem é sertanejo, alguém deu esse rótulo para essa categoria errado. Foi algum crítico musical que não deve nem ter estudado música para falar que essa categoria de música é sertanejo, isso é um romântico sem sentido. Eu não posso falar que é o brega, sabe por que? Pois tem uma música do Bruno e Marrone que eu canto chamada Choram as rosas, ela é linda, mas não é do Bruno e Marrone, mas de um autor que eles gravaram, mas quem conhece a dupla quando me ouvir não vai saber que estou cantando a mesma música. Quando chega no estribilho aí é que as pessoas reconhecem. Eu não posso taxar de brega, pois se estou cantando, então estou cantando brega. Eu me considero uma cantora popular ao mesmo tempo, uma cantora de povo. Eu fiz o Brazilian Day em New Jersey para um milhão de pessoas. Elaborei um repertório para todo mundo cantar junto, a la Jota Quest (risadas). Cantei Tim Maia, Gostava tanto de você diante daquela multidão, um milhão de pessoas cantando junto comigo.


Daniela: O importante é a releitura, o que você consegue extrair de qualitativo de uma canção aparentemente banal. Revelar alguma beleza para os ouvidos viciados na falta dela né?

Cristiane: Por isso é que eu falo, fui convidada para cantar numa casa em Brasília, que creio que esteja até fechada hoje. Uma promoter das boas me perguntou se eu poderia fazer um show exclusivamente de Bossa Nova, eu disse que sim, que era a minha praia, que adoraria etc e tal. No meio do trabalho, lá pelas tantas, com aquele burburinho de conversas, sem ninguém prestar atenção, a promoter me chega com um bilhetinho dizendo: “- O povo está pedindo sertanejo”. Daí eu comecei a transformar todos os "sertanejos" que eu conhecia em jazz, blues, pop rock e fui inventando. Não deixei a essência se perder é claro, eles não entenderam muito bem, mas fui aplaudidíssima, apesar de algumas reclamações de pessoas insistindo para que eu fizesse um cover das gravações dos discos, arranjos chapados e tal. E daí quando peguei o sertanejo de raíz ( que o meu avô muitas vezes fazia) eles não conheciam nada a não ser Cio da Terra, Rancho Fundo e Luar do Sertão.


Daniela: E com relação as premiações, pode falar um pouquinho?


Cristiane: O que considero importante nos Estados Unidos foi o fato de eu ter participado de alguns prêmios que são importantíssimos para a comunidade brasileira nos EUA, que é o Press Award, grande prêmio que ocorre em várias categorias. Na verdade nunca participei concorrendo, mas sempre convidada para fazer os shows do evento. Participei de dois, um em homenagem ao Menescal, em que dividi até o palco com ele, e outro em homenagem a Alcione. Isso foi muito enriquecedor, pois fiquei conhecida como uma pessoa atuante no meio cultural, produzindo coisas, sempre em evidência na ativa divulgando a MPB. E o meu lado de comunicadora também foi reconhecido nessa ocasião, inclusive até recebi um prêmio como Celebridade do Sul da Flórida, por minha atuação cultural na comunidade brasileira. Não devo esquecer das minhas premiações no Brasil, é claro. Aqui obtive 47 prêmios de melhor intérprete com participações em 68 festivais da canção. Participei com composições de minha autoria e também de outros vários compositores, como Sueli Costa e Fátima Guedes.

Daniela: Quais são seus projetos atuais?


Cristiane: Estou ensaiando o musical "RELICÁRIO DE RITA CRISTAL", protagonizado anteriormente por Vera Fajardo.Fui convidadada para reviver esse musical pois Aécio Flávio e José Antonio de Souza, que são os autores, acharam que eu era a verdadeira "RITA CRISTAL". Mas tenho dúvidas (risos). Possivelmente me chamaram por eu ter trabalhos como atriz também. Sinto que mesmo sendo cantora, posso desenvolver esse lado de atriz. Tem me dado muita satisfação a parceria que estabeleci recentemente com o maestro Aécio Flávio, embora ele já me conhecesse dos velhos tempos de menina, só agora esse encontro se deu.Tudo acontece no tempo certo, eu agora uma mulher, já de fato amadurecida na música, com uma considerável trajetória percorrida, e ele um músico já amadurecido na vida. Pura satisfação!Tive também a honra de regravar a composição dele em parceria com Luiz Fernando Gonçalvez, chamada DE CORPO INTEIRO. Ela foi um sucesso nos anos oitenta na voz da cantora Jane Duboc e está para acontecer numa nova leitura.


Daniela: Te desejo puro sucesso, obrigada.


Cristiane: Eu que agradeço, adorei.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Talento


A cantora Cristiane Visentin retornou dos EUA em junho deste ano.Depois de 10 anos de experiência no exterior, ela nos presenteia com sua voz belíssima e com seu violão cheio de swing, que traz a força do legado jazzista. Suas interpretações exploram a emoção, aliada a sabedoria apurada dos meandros sonoros. Ouvir e cantar com Cristiane Visentin me emociona, sempre!