quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Victor Biglione: o número 1


Do dia 13 ao 16 estive em Tiradentes a convite de Vicente Martins, diretor do Duo Jazz Festival. Foi um enorme prazer conversar com os músicos: Victor Biglione, João Carlos Assis Brasil, Rai Medrado, Dudu Lima, Tony Oliveira e Guinga. Segue abaixo o bate papo descontraído e alto astral com o talentosíssimo guitarrista número 1.



Entrevista com Victor Biglione no Restaurante da Vovó, em Tiradentes numa noite quente de sábado do dia 14 de novembro de 2001.


Daniela Aragão: Já que estamos com o livro aqui na mesa, nada melhor do que começarmos por ele que abrange toda a sua carreira. Como é que surgiu essa idéia?


Biglione: Eu estava andando na rua e um jornalista, acho que foi o Luiz Pimentel, do Jornal do Brasil, falou assim : “O Victor, presta atenção no que eu vou te falar, eu tenho a impressão que dos músicos que não nasceram no Brasil, você é o cara que mais trabalhou com a música brasileira, você já se tocou disso?” Eu falei uai (bem mineiro) não. A partir disso procurei o Instituto Cravo Albim e a Heloísa Tapajós me recomendou (a Losinha maravilhosa, irmã do Mú, do Dadi, que eu toquei na Cor do som) e apresentou o Ricardo Cravo Albim, que eu já conhecia, é lógico. Me indicaram esse menino, o Euclides Amaral, esse pesquisador (mostra o livro). Foram seis meses de pesquisa, um trabalho sensacional e eu sempre cuidei das minhas coisas, guardei o material fotográfico todo, tem mais de 70 fotos com artistas da MPB. Aí foi um presente, meus 50 anos, essa moda né, o cara que fez mais gol no brasileiro....Arrumei meu recordezinho, meu recordezinho de leve, eu fiquei felicíssimo pois para um cara que não nasceu aqui ser tão bem recebido de braços abertos pela MPB. Foi um negócio maravilhoso.

Daniela: Eu vou tentando retomar na memória uma série de discos em que eu vejo sempre o seu nome

Biglione: Exato. Tem um capítulo que se chama Victor Biglione de A a Z, são mais de 250 nomes da MPB. Eu ainda peguei o finzinho da fase de ouro da MPB assim, trabalhei com música brasileira mesmo.

Daniela: Você tocou com a Elis?


Biglione: Toquei. Não tem ninguém que eu não toquei. Quer saber o que eu gravei com a Elis? Para Lennon e MC Cartney, no Luz para as estrelas, limparam a voz dela e chamaram arranjadores que nunca tinham trabalhado com ela. O Wagner Tiso me chamou, o Gilson Peranzzetta. Fiz parte desse rearranjo. Com ela viva eu só fiz o especial do Daniel Filho, o Grandes Nomes, que ela faz com a Gal. Eu vi ela viva, tocamos juntos Vivendo e aprendendo a jogar, do Guilherme Arantes. Aí fizeram essa idéia maravilhosa da Som Livre, tem dois artistas que eu trabalhei depois deles já terem falecido, a Elis e o Tim Maia. Eu gravei um disco com o Tim Maia quando ele já estava falecido chamado Sou Tim, eu gravei o Lindo lago do amor, do Gonzaguinha e gravei Saigon, essa música é linda né?

Daniela: A que você atribui esse fato de tocar com todo mundo? A sua versatilidade que te faz ser esse número um...E você tem uma personalidade muito própria, tem uma identidade o seu tocar.

Biglione: Eu gosto da música toda: samba, jazz, bossa nova, blues baião, o que for. Eu trabalho com cinema também, fazendo trilha, eu tenho dois kikitos. Assinando trilha sonora mesmo, eu ganhei o Festival do Rio, o festival de conservatória. Adoro cinema, e vão entrar nesse ano dois filmes que estou assinando, o Elvis e Madonna e o Caçador de sonhos. E eu gosto de tudo, não vou me prender a uma coisa só, eu gosto da música no todo dela. Eu penso igual ao Vicente (idealizador e diretor do Festival) “programa tudo”, gosto disso que está tocando, só não gosto de coisa ruim.

Vicente: Ano que vem podemos programar um duo com suas trilhas de cinema. As imagens seriam exibidas ao fundo. Uma sugestão...

Biglione: Pô, legal, ótimo. E o fato de eu ter sido criado em Copacabana ajudou muito, é uma mistura muito grande e você recebe tudo o quanto é tipo de informação. Minha mãe estava me apresentando o Reginaldo Bessa, toda a turma da Bossa Nova, eu estava escutando Led Zeppelin, aí acordei Baile, com Zé Kéti. Tudo muito presente, muito verdadeiro.

Daniela: Você começou a tocar quando?

Biglione: Com 12 anos eu comecei a tocar, e como minha mãe era metida a moderninha já concordou que eu fosse músico.

Daniela: Desde pequeno você já sentiu que música era a sua praia?

Biglione: Não, eu queria ser jogador de futebol. Mas eu fiz teste para o Flamengo e fui reprovado, aí fui lá pra Marechal Hermes e fui aprovado. Aí meu pai falou, você foi aprovado, mas ele gostou de você para zagueiro. Falei - ah não, zagueiro não, nenhum garoto quer ser zagueiro. Foi um cara amigo da minha mãe, um hippie, que apareceu com o violão, me apaixonei por violão e nunca mais parei. E vi que tinha mais jeito pra tocar do que pra futebol, você percebe isso.

Daniela: Lembro de você no Cultural e também tocando na Pró Música com o Wagner Tiso. O que me impressionou foi essa sua capacidade de transitar entre os gêneros.


Biglione: Lá no Cultural eu estava tocando rock, eu adoro. Eu gosto de tudo o quanto é música e a MPB foi me levando a variedade de artistas, um recomendando para o outro da MPB, acabei gravando com quase todo mundo. Não tem ninguém que eu não gravei, toquei ou participei.


Daniela: O que você mais ouviu que te influenciou?

Biglione: O que eu mais ouvi e estudei sempre foi o jazz, a minha escola é jazzística. Eu estudei mesmo foi o jazz, as escalas, os acordes, a harmonia, a Bossa Nova, aquela coisa toda de acompanhar. Mas de ouvir eu ouço todo mundo. Não coisa ruim, é claro. Aqui no Brasil depois da gente ter Glauber Rocha, Edson Machado, Zé Kéti, Cartola, Sérgio Mendes, Chico Buarque, Egberto Gismont, Hermeto. É triste tanta coisa ruim hoje.

Daniela: O que você está gravando agora? Algum disco autoral?

Biglione: Esse ano eu fiz coisa pracaramba. Eu lancei um disco de guitarra, essas guitarras de jazz, só tocando Tom Jobim, chama Uma guitarra no Tom. Super cool, só tocando Tom Jobim. Depois lancei Tributo a Ella Fitzgerald, só Ella abrasileirado, arranjos brasileiros. Ainda lancei esse livro. Foi lançado dia 5 de novembro. E vou falar, morar no Brasil para mim é um sonho, é um país que eu adoro. Tem um monte de amigo meu que me pergunta: “você torce para quem, Brasil ou Argentina?”. Eu falo que torço para a Argentina, é lógico, mas não frequento a Argentina, esses amigos meus por qualquer dez merréis já vão para a Argentina, gastar lá. Eu falo, eu torço para a seleção Argentina mas gasto meu dinheiro todo, centavo por centavo no Brasil. O que que adianta, torce pro Brasil êêêêê e amanhã já está embarcando para Buenos Aires. Lindo é o Brasil, é o meu Rio de Janeiro. Buenos Aires tô fora. Já viajei muito, mas o maior país do mundo para mim é o Brasil. Você pode viajar, voltar com o dinheiro forte, euro, dóllar, agora morar eu sempre tive certeza que o lugar é o Brasil. Já recebi inúmeras propostas, mas morar eu moro no Brasil.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Duo Jazz em Tiradentes



Sempre adorei bastidores de shows, fossem os meus ou os de amigos. Neles é que rolam as melhores conversas, piadas, sugestões e conflitos. Dizem que Elis Regina durante toda a carreira nunca deixou de demonstrar certa ansiedade nos minutos antes de entrar em cena, na ocasião de sua participação no XIII Festival de Jazz de Montreux, a adrenalina era tão grande que a Pimentinha demorou a arredar os pés da coxia.

Neste último final de semana, Tiradentes foi agraciada pelo que de melhor se pode ouvir dentro do cenário do jazz produzido por artistas como Victor Biglione, Guinga, Dudu Lima, Enéas Xavier, Rai Medrado, A C, Big Charles, Tony Oliveira, Magno Alexandre e outros. A convite do idealizador e diretor Vicente Martins, passei cinco agradabilíssimos dias nesta cidade por conta de entrevistar essa rapaziada que entende tudo de música boa.

Entre sol, chuva e a presença do meu fiel gravador, aproveitava sempre a brecha do momento em que algum músico passava um som ou almoçava, para abrir espaço para uma boa conversa. Com o pianista Tony Oliveira, meu primeiro entrevistado, levei um longo bate papo que começou lá no tempo em que ele se apresentava na rádio Tupi, de São Paulo. Tony contou-me dos primórdios de sua carreira, no final da década de cinquenta, época do surgimento da Bossa Nova, quando tocava com o contrabaixista Manuel Gusmão e o baterista João Palma. Entusiasmado, revelou que foi o primeiro pianista que gravou com Jorge Ben no seu disco Mais que nada. O sorriso estampado nos lábios, não ocultava a satisfação pela experiência adquirida em espetáculos históricos como Pobre menina rica (Vinícius de Moraes e Carlos Lyra), no Maison de France. O contrabaixista Dudu Lima, após a realização de um show altíssimo astral ao lado do pianista kakinho Itaboray, abriu caminho para uma conversa agradável em que pudemos compartilhar alguns amigos e lugares em comum, visto que nós dois passamos a adolescência em Juiz de Fora e ainda transitamos por lá. Do contrabaixo acústico ao elétrico, Dudu falou com total despudor das limitações e amplitudes que envolvem o universo inesgotável da música: “A gente estuda o instrumento a vida inteira e ele continua um desconhecido, pois é infinito”. Victor Biglione, o argentino mais brasileiro de todos os músicos: “Lindo é o Brasil, é o meu Rio de Janeiro. Buenos Aires tô fora. Já viajei muito, mas o maior país do mundo para mim é o Brasil.” Com Biglione a conversa rolou solta, o humor cativante desse talentosíssimo guitarrista me fez dar altas risadas. Transitando entre o jazz, a música popular brasileira, o blues e outros gêneros, Biglione presenteou-me com seu recém lançado livro, escrito por Euclides Amaral. Inúmeras fotos ilustram a trajetória desse artista, que é considerado o músico estrangeiro que mais gravou com músicos brasileiros, o número um, brincou ele.

Guinga deu uma demonstração única de qualidade humana. Afetado por uma paralisia que tomou metade do corpo, inclusive a face, não descumpriu o compromisso com o festival. Ovacionado por uma platéia embevecida, Guinga tocou e cantou composições suas ao lado de outros parceiros. Embora cansado, expandiu-se em delicadeza e generosidade ao trocar algumas palavras comigo, falou da alegria que lhe traz a parceria estabelecida com José Miguel Wisnik e das parcerias estabelecidas com Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro e Chico Buarque.

Música, música, música, música. Foi o que mais respirei durante esses dias. Vou contando o restante aos poucos, para não perder o fôlego.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Trocando em miúdos



Recebi por email a programação do Seminário Música popular, poesia e memória, a ser realizado na PUC-RIO nos dias 28/02 a 2/10. Durante uma semana passariam pela universidade pesquisadores, musicólogos, jornalistas, escritores, poetas, letristas, compositores, cineastas, músicos e intérpretes. Manhãs, tardes e noites dedicadas a fruição do néctar de nossa música popular brasileira. Entre as mais recentes produções cinematográficas que abordam o universo da MPB foram exibidos A casa do Tom (documentário que reúne as últimas imagens do compositor, coletadas pela viúva Ana Lontra), Vento Bravo (documentário que aborda com riqueza de detalhes a trajetória artística do músico Edu Lobo) e Palavra Encantada (documentário que reflete com muita propriedade sobre as relações entre poesia e música). Os debates que aconteciam todas as tardes em duas sessões, colocou lado a lado Paulo César Pinheiro e Luiz Tatit, Bia Paes Leme, Tárik de Souza e Fred Góes, Zuza Homem de Mello, Arthur Dapieve e Santuza Cambraia, Ruy Castro e João Carlos Carino, Antônio Risério e Tom Zé, José Miguel Wisnik e Júlio Diniz, entre outros.

Não contrariando o hábito, mantive meu caderno de anotações full time ao meu lado, consciente da impossibilidade de apreender com palavras a riquíssima diversidade de inspirações poéticas e sonoras. Vencida uma semana, dou uma passada de olhos em meus comentários que mal reconheço, prefiro abandonar então a imprecisão do registro escrito e acessar minha memória.

Impossível não ficar extasiada diante da imagem de Francis Hime cantando e acompanhando-se ao teclado. Cenário cru, luz sem demasiados efeitos, um homem bonito, elegante e sereno no alto de seus setenta anos presenteia a platéia com suas antológicas composições realizadas com os parceiros Vinícius de Moraes, Chico Buarque, Olivia Hime, Abel Silva, Geraldo Carneiro e Ruy Guerra. Inicia a apresentação com um sorriso doce nos lábios e justificando a ausência da cantora Olivia Hime:”Ela está com problema de garganta”. Salve o compositor popular, Francis toca a primeira sequência de acordes e inaugura o retorno aos tempos de delicadeza: “Vim, cheio de saudade/Cheio de coisas lindas pra dizer/Vim porque sentia/Que nada existia fora de você/Nem a poesia, amor/Na sua ausência quis me receber”. Pra machucar meu coração, manda em seguida Minha, deslumbrante parceria com o cineasta Ruy Guerra, considero esta canção entre as mais belas de nosso cancioneiro: “Minha és e sou só teu/Sai de onde estás pra eu te ver/pois tudo tem que acontecer/Tem de ser, tem, tem de ser, vem/Para sempre,para sempre”. Francis interpreta-a lindamente com sua autoridade de compositor- os acordes cheios despontam na harmonia, que em nenhum momento cai no previsivel. Neste artista a informação da música erudita se funde ao jazz e o popular, resultando em criações de qualidade ímpar. A trilha sonora composta por ele para o filme Lição de Amor (Eduardo Escorel), adaptação da obra Amar verbo intransitivo, de Mário de Andrade, é de um lirismo singular. Perdi a conta de quantas vezes assisti ao filme fixada na cena final, em que Lilian Lemmertz com a face pálida segue seu caminho solitária, conduzida pela sinfonia de Francis. Com Geraldo Carneiro, um de seus parceiros mais assíduos nos últimos anos, Francis exercita levadas mais sincopadas que se casam muito bem com o feeling bem humorado do poeta. Francis ganhou definitivamente a platéia da PUC ao interpretar a melô da maça: “Quando musiquei este delicioso poema de Geraldinho, não sabia se adotava um ritmo binário ou ternário. Na dúvida fiz das duas formas, o que resultou numa mistura de salsa, rumba, valsa e pasodoble”.

Maria Bethânia acompanhada por seu arranjador, violonista e diretor musical Jaime Além, encerrou o evento. Sentada no chão ao lado de minha irmã e cercada por estudantes, fãs e curiosos, me embebi de poesia pura. A cantora ora lia, ora cantava textos, poemas e canções de Fernando Pessoa, Ferreira Gullar, Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Waly Salomão, Caetano Veloso, Mário de Andrade, Dorival Caymmi, Capinam, Paulinho da Viola e tantos mais. O cenário sóbrio reproduzia alguns poemas manuscritos em preto sobre folhas brancas. Bethânia inteiramente vestida de branco parecia levitar: etérea, plena, sublime. Ela é a artista dos palcos por excelência, no pequeno espaço do auditório da PUC essa mulher resplandecia gigantesca. A manifestação de gestos contidos, porém espontâneos e certeiros, reforçavam a concentração na força da emissão das palavras. Ao fim da apresentação apertei as mãos de minha irmã e vi que seus olhos lacrimejavam, emudeci, emudecemos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Slow music : arte maior de iniciados



Para quem conhece bem
Os caminhos
Do amor seu vai e vem
Quem conhece
Fernando Brant


Faz uns três meses que não escrevo nenhuma crônica sobre canções, discos, vislumbramentos sonoros. Não que tenha deixado de ouvir músicas que me tocassem, nesse tempo passaram por meu mp3 muito Francis Hime, Edu Lobo, Rosa Emília, Lobão e principalmente Joyce. Sou fã declarada de Joyce, sempre que posso vou aos seus shows e não deixo de colocar seus CDs para escutar. Há algum tempo não sai de meus ouvidos o antigo Passarinho Urbano, gravado pela cantora em 1976. Nele pode-se ouvir a Joyce dos primórdios, com um timbre consideravelmente mais agudo e o violão espetacular. Um disco que traz um repertório absolutamente nacional, com canções que condiziam com o contexto repressivo da época como Acorda amor, Radiopatrulha, Pesadelo e Pede passagem. O belo poema Passarinho, de Mário Quintana, musicado por Joyce e que dá sugestão ao título do disco, alegoriza a necessidade de cantar como uma das saídas existenciais: “Todos esses que aí estão/ Atravancando o meu caminho/ Eles passarão.../Eu passarinho!”.

Joyce canta com a leveza e suavidade de um passarinho, o teor denso evidenciado em algumas letras é suplantado pela interpretação da cantora, que valoriza interpretações delicadas e plenas de pulsação lírica. Acorda Amor, canção antológica de Chico Buarque, ganha a bela e enxuta leitura de Joyce, em que a voz de um agudo puríssimo é acompanhada pelas batidas precisas de seu próprio violão. A sedução toma o lugar da opressão, onde Eros se sobrepõe a Tanatos, e a força maior da vida clama por espaço, como em Pesadelo, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro: “Quando um muro separa/Uma ponte une/Se a vingança encara/O remorso pune/Você vem, me agarra/Alguém vem, me solta”.

Após Passarinho Urbano, Joyce gravou muitos outros discos de qualidade indiscutível como Tardes Cariocas, Saudade do futuro, Ilha Brasil, Tudo Bonito, Banda Maluca e tantos mais. Ela é uma artista completa: compõe, canta, faz arranjos e toca muito bem violão. Embora a música popular brasileira seja povoada por uma imensidão de cantoras, conta-se nos dedos aquelas que incorporam tantas qualidades, a exemplo de Joyce.

Celebrando quarenta anos de carreira, Joyce acaba de lançar Slow Music, seu tão sonhado disco: “Este é o projeto dos meus sonhos. Sonhei com ele pela primeira vez há 10 anos atrás, e agora, finalmente, ele se materializa em sons”. Slow Music é um cd primoroso da primeira a última faixa, em que o amor é tema onipresente. O título “Slow” sugere o andamento das canções, soft, cool, em homenagem a três grandes ícones do bom gosto e elegância no gênero: Shirley Horn, João Gilberto e Bill Evans. Em termos de condução rítmica, Slow Music soa até atípico no conjunto da obra de Joyce, que vem se consolidando cada vez mais, principalmente no mercado exterior, como uma cantora fast: “eu tenho um estilo que não é nada slow, na verdade é fast pracaramba. Eu sou mais conhecida até nos trabalhos internacionais pelas músicas de andamento rápido, pelo samba jazz, pelas coisas mais swingadas, até meio dançantes e tudo, então Slow Music pra mim é uma experiência nova no sentido de buscar esse caminho”.

“Música é alimento para alma”, diz a cantora, e a idéia do disco surgiu a partir do momento em que Joyce leu o manifesto do movimento slow food, realizado na Itália. O manifesto foi redigido a partir da inauguração da primeira lanchonete MC Donalds em Roma, causando imensa revolta na população. Contra o despejo desgovernado de junk food, comida de péssima qualidade, os italianos reinvindicaram o resgate e a valorização das qualidades essenciais da culinária italiana, como sabor e tempo de preparo. Assim como a junk food invade avassaladoramente os paladares dos cidadãos do mundo, a junk music também entorpece os ouvidos das pessoas, que são submergidas pela produção musical também de péssima qualidade. Joyce enfatiza que: “A gente ingere junk music pelos ouvidos e aquilo fica dentro de você o tempo todo, queira você ou não. Você está na rua, você ouve de tudo. Então a minha idéia em relação a isso era exatamente fazer um disco que pudesse ser colocado em situações de grande stress, por exemplo entrando em São Paulo pela Marginal Tietê”.

Com sua levada única, que explicita plena maturidade e domínio sobre a escolha do repertório e dos músicos que a acompanham -os três mosqueteiros - Joyce faz sua ode ao amor. O amor celebrado pela artista ultrapassa o furor do amor paixão, comumente entoado pelos representantes da junk music. Joyce canta acima de tudo o amor agridoce, vivenciado, saboroso e “madurado de carinho”, como descreve Fernando Brant nos versos de Fruta Boa.

De 1990, momento da idealização, até a gravação definitiva do cd, se passaram dez anos, tempo que Joyce alegou ter sido necessário para sedimentar com serenidade e sabedoria os amores vividos. As composições de Slow Music analisam vários aspectos do amor: amor com toques de ironia em Samba do Grande Amor (Chico Buarque), amor perturbado pelo ciúme na belíssima Medo de Amar (Vinícius de Moraes), amor sincero e por isso perigoso em Amor Amor (Sueli Costa e Cacaso), amor expressão pura de alegria em But Beautiful ( J. Burke e Van Heusen), amor separação, numa espécie de nova versão de Trocando em Miúdos em Sobras da Partilha (Joyce e Paulo César Pinheiro), amor pequeno, feito para aprendizes na delicada Valsa do pequeno amor (Joyce Moreno).

A concepção do disco ressalta a qualidade dos arranjos que primam por interpretações que dão ênfase ao caráter jazzista. O gabarito do trio de músicos composto por Tuty Moreno (bateria), Jorge Helder (contrabaixo) e Hélio Alves (piano) permitiu altos vôos sonoros. Ouvi inúmeras vezes canções como Slow Music e Valsa do pequeno amor, desfrutando de cada nuance dos improvisos. Valsa do pequeno amor é um exercício de delicadeza, inteiramente composta por Joyce a música fala dos pequenos amores que são vivenciados numa condição de prelúdio para o almejado grande amor. A Joyce menina-mãe-mulher dos tempos de Clara e Ana, agora é a mulher-senhora, dona de uma considerável bagagem artística e existencial: “O grande amor/arte maior de iniciados/predestinados são bem poucos os mortais/é tenebroso, é embriagador/ mas só se mostra inteiro em esplendor/ pra quem viveu/ quem teve o seu pequeno amor”.

Slow Music é preciosidade de gente grande.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Essa cidade me atravessa



Absorvo o mundo através de música. Quando estou conversando com alguém, ouvindo uma palestra ou alguma conversa de outrem trazida pelo ar, quase sempre surge algum verso de alguma canção que contém aquela palavra. Assisti num dvd da cantora Ana Carolina um divertido e inusitado bate-papo entre ela e Chico Buarque, em que ambos falavam da mania de pronunciarem as palavras de trás para frente. Hábito incontrolável, afirmaram eles.

Troquei o cenário monótono da academia de musculação pela matéria viva das calçadas, da fumaça dos carros, da sinuosidade dos morros, da força das ondas, do calor das areias, do cheiro de maresia, da sensualidade dos corpos, da fome dos corpos, da curvatura dos arcos. Da beleza das palmeiras, do sabor da água de coco, da pulsação criativa, dos sotaques, da inclinação para o espetáculo, do ritmo acelerado,dos rompantes contemplativos, das muitas cores, do humor, da ousadia, da alegria, da sedução e do espanto.

Em nosso cancioneiro não falta música que preencha os mais diversos estados de alma. Desde que me mudei para o Rio de Janeiro, me invadem os versos de O nome da cidade, belíssima canção feita por Caetano Veloso, inspirado na personagem Macabéa, do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Na madrugada de ontem bateu uma vontade de tocá-la para o meu amigo Marcelo, companheiro de apê carioquíssimo. Cantei verso por verso, prolongando cada nota, cada palavra, como se me justificasse através da poesia de Caetano: “Cheguei ao nome da cidade/ Não à cidade mesma espessa/ Rio que não é rio; imagens/ Essa cidade me atravessa/ Será que tudo me interessa/ Cada coisa é demais e tantas/ Quais eram minhas esperanças?/ O que é ameaça e o que é promessa/ Ruas voando sobre ruas/ Letras demais, tudo mentindo/ O Redentor, que horror! Que lindo!/ Meninos maus mulheres nuas/ A gente chega sem chegar/ Não há meada, é só o fio/ Será que pra meu próprio rio/ Esse rio é mais mar que o mar?”

Sinto-me como uma Macabéa do alto das Gerais que, embora tenha ouvido bem mais que o rádio-relógio, mal consegue dissimular a ebulição de sentimentos. Essa cidade me atravessa em sua imensidão, suas ofertas, seus contrastes, seu fascínio. Terra ensolarada de misturas: “Eu quero te mostrar o Rio de Janeiro em que o Corcovado está de costas”, disse meu querido amigo carioca, o estudioso de música e professor Alberto Moby. Flano, me enfronho, participo, mas consciente da falta de traquejo, que espero vir com o tempo, rápido. Domingo passado aprovei minha performance de “não Macabéa”, ao me enturmar rápido no churrasco do meu outro amigo músico e poeta, Rogério Batalha. Este já me presenteou com um ótimo cd de composições suas em parceria com Moacyr Luz e Du Basconça, gravado ao vivo no Centro de Referência da Música Carioca.

Em compensação, fui intensamente Macabéa quando recuei diante da levada sedutora de um “menino-homem do rio”, que desejo desde os tempos de vivência nas gerais. Uma menina-mulher tonta em meio à poesia do instante, lia-absorvia suas palavras, de cabeça baixa, como se pudesse medir o desmedido: “Te acho lindo, você é muito interessante, mas tô com medo”. No fundo só rindo de mim, dele, de nós. Faltou-me “jeito de corpo”, “ah bruta flor do querer”.

Vou buscando na memória outras canções que também descrevem esses múltiplos Rios. Idilicamente sereno e convidativo como nos versos de Antônio Maria: “Vento do mar no meu rosto/ E o sol a queimar, queimar/ Calçada cheia de gente a passar, e a me ver passar/ Rio de Janeiro, gosto de você/ gosto de quem gosta/ Deste céu, desse mar/ Dessa gente feliz”. Sensualmente Zona Sul como canta Marina Lima, sua eterna musa: “O hotel Marina quando acende/ Não é por nós dois/ Nem lembra o nosso amor/ Os inocentes do Leblon/ Esses não sabem de você”. Levemente Bossa Nova, como exalta Vinícius de Moraes: “Ela é carioca/ Ela é carioca/ Basta o jeitinho dela andar/ Nem ninguém tem carinho assim para dar/ Eu vejo na cor dos seus olhos/ As noites do Rio ao luar”.

Liricamente suburbano como entoa Chico Buarque: “Lá não tem moças douradas/ Expostas, andam nuas/ Pelas quebradas teus exus/ Não tem turistas/ Não sai foto nas revistas/ Lá tem Jesus/ E está de costas/ Fala, Maré/ Fala, Madureira/ Fala, Pavuna/ Fala, Inhaúma/ Cordovil, Pilares/ Espalha tua voz nos arredores/ Carrega tua cruz/ E os teus tambores”. Poeticamente sublime como descreve também Chico Buarque: “Dois irmãos, quando vai alta madrugada/ E a teus pés vão-se encostar os instrumentos/ Aprendi a respeitar tua prumada/ E desconfiar do teu silêncio/ Penso ouvir a pulsação atravessada/ Do que foi e o que será noutra existência/ É assim como se a rocha dilatada/Fosse uma concentração de tempos”.

Festivo como vibra Gilberto Gil: “O Rio de Janeiro/ continua lindo/ O Rio de Janeiro/ Continua sendo/ O Rio de Janeiro/ Fevereiro e Março/ Alô, alô, Realengo/ Aquele abraço!/ Alô torcida do flamengo/ Aquele abraço.”. Luminosamente fascinante como evoca Adriana Calcanhotto, ex Macabéa gaúcha confessa: “Cariocas são bonitos/ Cariocas são bacanas/ Cariocas são sacanas/ Cariocas são dourados/ Cariocas são modernos/ Cariocas são espertos/ Cariocas são diretos/ Cariocas não gostam de dias nublados.” Erótica e poeticamente marginal como expõe Cazuza: Você nunca varou a Duvivier às cinco/ Nem levou um susto saindo do Val Improviso/ Era quase meio-dia no lado escuro da vida/ Nunca viu Lou Reed Walking on the outside/ Nem Melodia transvirado/ Rezando pelo Estácio/ Nunca viu Allen Ginsberg/ Pagando michê na Alasca”. Romântico como revela Luiz Melodia “O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço/ Trago, não traço, faço, não caço/ O amor da morena maldita do Largo do Estácio”.

Aconchegante como quer Aldir Blanc: “Só fico à vontade/ Na minha cidade/ Volto sempre a ela/Feito criminosa/ Doce e calorosa/ A minha história/ Escorre aqui/ Há quem não se importe/ Mas a Zona Norte/ É feito cigana lendo a minha sorte”. Malandramente carioca como suínga Seu Jorge: “O Rio de Janeiro é a capital/ Eu vi a nega no Morro da Mangueira/ Vi a loura na praia de bobeira/ Mas a mina da Vila Isabel é uma mulher sensacional”. Cantar o Rio ainda vai me render muitas e muitas páginas, então, já é.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

SAGA LUSA: UMA VIAGEM PELOS LABIRINTOS DA LINGUAGEM



Meus problemas são os de uma pessoa de alma doente e não
podem ser compreendidos por pessoas, graças a Deus, sãs .
Clarice Lispector



A questão da loucura motiva uma série de produções artísticas, da literatura ao teatro, passando pela música e sobretudo as artes plásticas, muito do que já se produziu e se produz é impulsionado por estados alterados de consciência. Van Gogh, Virginia Woolf, Camille Claudel, Nijinsky, Arthur Bispo do Rosário, Antonin Artaud e muitos outros tiveram suas criações associadas à problemática do desvio da razão. Ousados, delirantes, loucos, inadaptados, visionários, muitos adjetivos envolvem o imaginário que cerca a criação desses artistas.


Neste ensaio pretendemos fazer uma breve abordagem sobre a questão da linguagem em Saga Lusa, primeira obra literária da cantora, instrumentista e compositora Adriana Calcanhotto. Saga Lusa consiste numa escrita de relato e simultâneo combate da “insanidade”, elaborada no calor das horas de delírio e lucidez, em que a autora tenta através do manuseio das palavras, encontrar uma maneira de se fixar na “realidade”. Escrita que se constrói e desconstrói no percurso tortuoso do “surto”, em que Calcanhotto habilmente consegue transformar a dor e o desespero em auto-ironia inteligente e bem humorada.


O “surto”, como declara a própria autora, se deu na temporada de shows em Portugal, em que após contrair fortíssima gripe que a impediria de prosseguir com a turnê, ela se vê refém dos efeitos colaterais ocasionados pela ingestão desordenada de remédios para aplacar a gripe. Na tentativa de domar a “coisa”, a força inclassificável que tenta tirá-la a todo custo do domínio de si mesma, Calcanhotto elege a escrita como condição de suporte dos entraves da dor: “Entendi que a melhor coisa em relação à Coisa seria me dedicar a uma atividade que pudesse exercer com calma, que exigisse concentração e coordenação motora ”. Troca seus usuais instrumentos de trabalho, violão e voz – dimensão criativa de âmbito mais etéreo, pela palpabilidade das palavras escritas em seu laptop. Sob a máscara do humor e da ironia, Saga Lusa explicita luta desesperada da autora pela afirmação de um “eu” que ameaçava se diluir nos labirintos da loucura:


A escrita salvou a minha vida. Escrevi porque precisava. Quando vi que não tinha controle sobre aquilo, que as coisas que eu tentava, como respirar com calma, não estavam funcionando, bolei um plano: “Vou ocupar os comandos cerebrais, em vez de ficar esperando passar esse negócio que só está piorando”. O engraçado é que escolhi a escrita. O violão estava ali, mas tinha qualquer coisa motora que não dava certo, eu suava muito nas mãos...Vi que precisava de uma coisa que me mantivesse no presente. Não queria pensar: “Vou sair disso? Vou ficar assim pra sempre?” Então tinha uma frequência do presente que era a escrita, o acento, o cedilha, que me ajudou a achar um norte .


Em Saga Lusa a linguagem é arma de combate e alvo de experiência estética. Em seus trabalhos musicais, Calcanhotto apresenta uma destacável preocupação com a questão estética, que se desenvolve desde a concepção visual dos encartes de seus discos, passando pelos figurinos, cenários e repertório. O material que lhe serve de motivo na composição de canções é extraído principalmente do contínuo diálogo que a artista traça com as artes plásticas, a exemplo da canção Parangolé Pamplona, inspirada nas criações do artista plástico Hélio Oiticica: “O Parangolé Pamplona você mesmo faz/ O Parangolé Pamplona a gente mesmo faz/ Com um retângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/E é só deixar a cor tomar conta do ar ”.

A narrativa de Saga Lusa traz como marca a não linearidade, composta por fragmentos, colagens e superposições de pensamentos e sobretudo recordações. Calcanhotto acessa continuamente seu repertório de canções que figuram nas entrelinhas e também nos títulos que introduzem alguns capítulos. O universo da arte contemporânea apresenta-se sob a mira do olhar “distorcido” da artista, que aproveita a situação de enfermidade para exercitar sua crítica mordaz a canções, livros e acima de tudo aos objetos da sociedade de consumo: “E aqui um comentário tolo mas...e se por conta deste capítulo a Coca-Cola patrocinasse a minha pobre turnê? ”.

A ironia ao glamour do show business permeia a obra desde as páginas iniciais. Em Saga Lusa a vida transcorre nos bastidores, em que o sublime encantamento que se realiza nas performances do palco, é substituído pela vida crua e sem fantasia do cotidiano. Brincar com os pólos da verdade e da mentira é uma das artimanhas de sobrevivência de Calcanhotto, que assumindo uma postura aparentemente fake de anti-estrela, se coloca acima do bem e do mal para estabelecer julgamentos e exercer seu potencial corrosivo.

As pessoas pensam que sair em turnê é rodar o mundo, com amigos queridos, tocando canções de que se gosta, bebendo champagne no camarim, conhecendo pessoas interessantíssimas e vivendo la vida loca. E é isso mesmo. Em parte. No momento de acordar cedísssimo, de esperar horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas, de encarar aeroportos, comida de avião (se houver), repetir as mesmas respostas compulsivamete, ficar longe das famílias, de surtar de uma hora para outra e se deparar com a própria loucura é que nosso caráter é posto à prova.

Calcanhotto é espectadora de si mesma e dos acontecimentos que a circundam. Seu quarto de hotel transforma-se no verdadeiro palco em que atuam assistentes, músicos e funcionários. Apesar do tom bem humorado revestir a escrita, nota-se que a autora alterna estados de liberdade criativa e sensações de aprisionamento: “Fui pro espelho, as retinas resistem com fúria, é assustador, mas não adianta, ainda assim tão diminuindo, tô vendo ”. O exercício com a palavra escrita evolui em vários estágios, em algumas ocasiões como pura atividade catártica, em outras como jogo hábil e experimental com a linguagem. O impacto da dor vivenciada na carne: “A língua sumiu, não sinto nada, além de tontura, tudo de novo. Não sinto a boca, a língua, a garganta, nada ” e o esforço para ultrapassar o estado delirante se efetiva na tessitura das palavras.

Saga Lusa pode ser lido como um diário de bordo as avessas, em que Calcanhotto ao invés de privilegiar a descrição de paisagens externas, foca seu relato no “microcosmo” de seu quarto. Ao escrever um diário íntimo o autor coloca-se momentaneamente sob a proteção dos dias comuns pois, conforme Maurice Blanchot:

O que se escreve se enraíza então, quer se queira, quer não, no cotidiano e na perspectiva que o cotidiano delimita. Os pensamentos mais remotos, mais aberrantes, são mantidos no círculo da vida cotidiana e não devem faltar com a verdade. Disso decorre que a sinceridade representa, para o diário, a exigência que ele deve atingir, mas não deve ultrapassar .

O quarto de hotel é o cenário em que Calcanhotto vivencia alucinações: ouve vozes, vê imagens difusas, sente os sentidos alterados: “E eu poderia jurar que esses sets e cenários e coxias são os bastidores da minha mente, minha nossa, que medo, o que é isso que eu estou dizendo? ”. Através de uma escrita marcada por cortes e inserções de palavras, muitas vezes em caráter desconexo, ela tenta reproduzir no calor da hora os lapsos de fala: “Esdou, cerdamente, zó dão zaberia dizer bem o guê/ O hosbidal dão é eze aí ”.

O experimentalismo que predomina na produção musical de Calcanhotto encontra certo prolongamento em Saga Lusa, onde a autora pratica o exercício de pesquisa lúdica com as palavras. Instaura uma profusão de misturas vocabulares sem fazer distinção entre erudito e popular, alta e baixa cultura, feio ou bonito, como já anunciara em Senhas, canção de sua autoria: “Eu não gosto do bom gosto/ eu não gosto de bom senso/ eu não gosto dos bons modos/ não gosto ”. Shakespeare, João Cabral, John Cage, Rita Lee, Jack Nicholson, Guilherme Arantes, Camané, Moby Dick, Waly Salomão e Camões figuram lado a lado. O mundo da cultura pop é elemento de devoração crítica, a capa do livro, concebida por ela, é o resultado de uma junção de recortes das embalagens dos remédios consumidos, fazendo analogia a Andy Wahrol:

...as coisas todas para mim são misturas. Gosto dos autores, daquela cabeça, daquele ponto de vista, daquela canção ou daquele quadro, daquele experimento. Tudo isso junto, são as coisas que eu gosto. Nunca penso muito sobre esse critério, até porque pelo critério cronológico, se você pensar, os grandes nomes, são todos mais ou menos contemporâneos .

No decorrer da escrita, Calcanhotto vai se guiando pela percepção dos sutis detalhes do cotidiano, acentuados ainda mais em função do seu estado de consciência alterado. A insistente demarcação do espaço que a cerca, se efetua como tentativa de fixação no solo da razão, em que a autora se mostra avessa a qualquer salto demasiadamente alto que a lance para caminhos de descontrole. Importa é a capacidade de apreender e suportar as dores no tempo presente, que se verifica na constante luta pela afirmação/recuperação de sua própria identidade. Tateando objetos, tentando reconhecer sua face no espelho: “Parecendo um urso panda disfarçado de escritora principiante ”, Calcanhotto procura suplantar o vazio existencial através das palavras escritas, que sabe serem na verdade sempre insuficientes. Torna-se oportuno citarmos o poema o Outro, do poeta português Mário de Sá Carneiro, musicado por ela no disco Público:



Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro .



Mesmo nos momentos mais tortuosos, Calcanhotto não deixa de lançar mão do artifício da auto-ironia. Na iminência da perda de si mesma, brinca com as faces de mulher comum, escritora e cantora famosa: “Sou uma escritora ou cantora, enfim, uma mulher, sem razão, porém vaidosa ”. A vivência da angústia é transmudada em sua escrita na forma com que explora a linguagem, criando no pequeno espaço da página um permissível lugar transcendente e lúdico. Músicos e canções figuram como personagens coadjuvantes: Madonna, Roberto Carlos, Caetano Veloso e outros mais estão livres para dividir o mesmo palco de alucinações e invencionices. Submetida a experiência aflitiva do exame de ressonância magnética, Calcanhotto é capaz de transformar o episódio em acontecimento artístico, com direito a nuances sonoras de John Cage: “A mistura aleatória dos sons da máquina com os graves e agudos das caixas é lindíssima. Piiiiiii,pleeeee,schcrafg,piii,piiiiiiii,piiiiiiii,peeeeeeee,schrafg. E eu, num momento desses, sem um gravador. Jamais serei profissional...” .

Vale atentar para o fato de que a produção artística realizada como uma espécie de antídoto das mazelas existenciais é tema para análise de uma série de obras. O poeta, letrista e agitador cultural Waly Salomão confessou em entrevista que, só após a vivência na prisão do Carandiru, encontrou o enquadramento espacial de seus poemas. Van Gogh nas cartas dirigidas ao irmão Théo expõe suas feridas existenciais, que se misturam com a obsessiva preocupação com a criação estética. Pintar é a saída que Van Gogh encontra para se manter vivo:


Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente...Ainda que frequentemente eu esteja na miséria, há contudo em mim uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha, no mais sórdido cantinho, vejo quadros e desenhos .


A cantora, que em sua índole antropofágica já propôs a devoração do ícone da música popular brasileira Caetano Veloso: “Vamos comer Caetano/ Vamos devorá-lo/Degluti-lo, mastigá-lo/ Vamos lamber a língua ”, em Saga Lusa brinca com a subversão do poder das instituições consagradas como a Academia Brasileira de Letras: “ Tô achando mais parecido comigo mesma me candidatar à Academia Brasileira de Letras – e presidi-la – do que ficar na estrada, em turnê” . O binômio aparência x essência é desenvolvido em vários jogos dicotômicos, em que a busca pela afirmação da identidade da cantora/artista Adriana Calcanhotto se dá através de uma série de contraposições. Calcanhotto não é escritora profissional e no entanto se aventura no ofício: “Minhas ambições com esta obra são de vulto. Vulto não, que ultimamente me dá medo, minhas ambições são de porte ”.

Em Saga Lusa a língua portuguesa é mais que suporte, funciona como personagem. Fixada em Lisboa, Calcanhotto materializa seu imenso estranhamento ao sentir-se estrangeira em sua própria língua: “Nossa língua portuguesa prega-nos partidas. E pedi o prego, na verdade, só pra Suely ver que comi carne ”. A metalinguagem desponta então como necessidade de auto-provação, por conseguinte mais uma vez revela-se a busca pela afirmação identitária, que deve se realizar também nos interstícios da língua portuguesa. Em entrevista ao poeta e professor Eucanaã Ferraz declara:


Eu gosto tanto de estar em Portugal, poder falar em português, que eu só posso falar lá para ser compreendida, como se fosse uma outra língua, sendo que é a mesma e é a língua que eu gosto...Eu acho que quando estou em Portugal só penso em escrita e versos e poemas, tudo o que me acontece em Portugal é meio mágico assim...Eu fico muito predisposta as questões da palavra, uma maravilha ficar ouvindo as pessoas falarem português daquela maneira .


Ao refletirmos sobre a questão da relação entre linguagem e processos de alteração mental desenvolvidos em Saga Lusa, consideramos pertinente abrirmos um espaço para produção do dramaturgo Antonin Artaud, que teve toda a sua história de homem e criador intimamente associada aos problemas mentais.

Falar sobre Artaud implica jamais dissociar arte e vida, pois este artista vivenciou na carne a exacerbação do estado de criação. Levou ao extremo da dor a crença na poetização da existência: “Ninguém mais sabe o que é viver, porque viver é afirmar-se em si mesmo, a todo instante, encarniçadamente... ”. Artaud lutou sem cessar pela afirmação da arte enquanto algo não apartado da vida, livre das rédeas impostas pelo sistema racionalista cerceador. Objetivando romper com a linearidade do discurso que se funda sobre os pilares da metafísica tradicional, Artaud propôs a experiência do pensamento enquanto vivência no corpo: “Nós estamos no interior do espírito...Idéias, lógica, ordem, Verdade (com um V maiúsculo), razão, nós entregamos tudo ao nada da morte .” Para Artaud seu corpo é linguagem, e este corpo tornado linguagem atua apenas submetido à sua própria lei, que é a de sua livre vontade. Ao longo de seu percurso criativo, que abrange além dos textos para teatro, desenhos, poemas e cartas, Artaud vai se desprendendo do compromisso com a realidade exterior. Sua expressão pretende abolir o vínculo com a ordem lógica tradicional, sua postura implica ruptura, ele deseja se produzir por uma nova linguagem, não a das palavras que compõem a comunicação habitual, mas sim a linguagem recriadora que abrange o corpo. No primeiro manifesto do Teatro da Crueldade Artaud alega que “importa antes de tudo romper a sujeição do teatro ao texto e reencontrar a noção de uma espécie de linguagem única, a meio caminho entre o gesto e o pensamento” .

Nas correspondências estabelecidas com Jacques Rivière, editor da Nouvelle Revue Française, Artaud explicita a supremacia da linguagem-vida. Artaud enviou alguns de seus poemas para Rivière, na expectativa de que este os publicasse em sua revista, entretanto o editor apresentou uma série de objeções, argumentou que os poemas não eram publicáveis por ausência de literariedade. Face à recusa da publicação, ambos decidiram em comum acordo publicar apenas as correspondências em que discutem o conteúdo dos poemas. Conforme Blanchot, Rivière se interessa “pela experiência da obra, pelo movimento que conduz a ela...pelo rastro anônimo, obscuro, que ela respresenta inabilmente” .

Nas cartas dirigidas a Rivière, Artaud evidencia o primado da questão linguagem-vida: “porque procurar colocar sobre o plano literário uma coisa que é o próprio grito da vida, porque dar aparência de ficção àquilo que é constituído pela substância da alma ” (tradução nossa). Para ele não importava que seus poemas fossem reconhecidos enquanto manifestação literária de elevado caráter formal e estético, valia a escrita como manifestação do jorrar da vida exasperada, seu incomensurável drama existencial:

A questão da aceitabilidade dos poemas é uma questão que interessa mais a você que a mim. Eu falo, bem entendido, de sua aceitabilidade absoluta, de sua existência literária. Eu sofro de uma terrível doença de espírito. Meu pensamento me abandona em todos os níveis. ..É porque pelo sentimento central que me diz meus poemas e pelas imagens fortes que eu pude achar, eu proponho apesar de, todos esses poemas a existência (tradução nossa).

Uma característica importante a ser destacada na linguagem de Artaud é o fato de que ele escreve verbalmente e não gramaticalmente. Sua escrita evolui por movimentos descontínuos e assistemáticos, em que o verbo deseja penetrar na carne turva. Para Artaud seus poemas têm valor na medida em que são a confissão de sua própria dor de existir: “Eu penso na vida. Todos os sistemas que poderei edificar nunca se igualarão a meus gritos de homem ocupado em refazer sua vida .”As críticas estabelecidas por Rivière, que atribuem a seus escritos imaturidade, incoerência e desarmonia, seguem na contramão do pensamento de Artaud, que não objetivava atingir nenhum estado de iluminação poética, mas sim tocar o âmago da vida.

Explicitando um pensamento de natureza Nietzschiana, Artaud contrapõe o homem-artista, dionisíaco, pleno de vida e de dor, ao homem-cientista, racional, sistemático e limitado a suas crenças cerceadoras. Segundo Nietzsche a tragédia é “alegria” e nasceu da afirmação dupla de Dionísio, Artaud ao desenvolver a idéia de um Teatro da Crueldade refuta um sentimento de culpa ou uma dor interiorizada em relação ao público que participa da cena que é dionisíaca no sentido nietzchiano. O espetáculo para Artaud deve conter “gritos, lamentações, aparições, surpresas, golpes teatrais de todo tipo...deslumbramento da luz, beleza encantatória das vozes, encanto da harmonia ”.

Toda a existência de Artaud se conduz pelo sofrimento, e suas dores físicas e mentais são agudas e irrefreáveis. No plano físico Artaud padeceu como vítima de várias sessões de eletrochoque, administradas pelos médicos dos sanatórios em que esteve internado. Loucura e criação estão nele unidos simbioticamente, e sua produção reflete as agruras vivenciadas no corpo. Nas palavras de Blanchot:

O que ele diz é de uma intensidade que não deveríamos suportar. Aqui fala uma dor que recusa toda profundidade, toda ilusão e toda esperança, mas, que, nessa recusa, oferece ao pensamento “o éter de um novo espaço” .

Artaud padeceu na própria carne assumindo sua vida-criação contra a ordem lógica do discurso, castradora das potencialidades do ser: “Parece-me que a criação e a própria vida só se definem por uma espécie de rigor, portanto de crueldade básica que leva as coisas ao seu fim inelutável, seja a que preço for .” A destruição de todos os códigos gramaticais implicou no ultrapassamento dos limites da comunicação. Artaud no fundo considerava a não-comunicação como a única possibilidade de comunicação plena. Em carta dirigida a Rivière, expõe a inquietude que lhe invade na tentativa de vencer a descontinuidade entre o pensamento e sua manifestação escrita:

Há qualquer coisa que destrói meu pensamento, qualquer coisa que me impede de ser quem eu poderia ser, mas que me enlaça, se posso dizer, em suspenso. Qualquer coisa de furtivo que me enleva as palavras que descubro, que diminui minha tensão mental, que destrói a medida da substância de meu pensamento .

O problema da loucura é alvo de destaque na obra de Artaud. Torna-se interessante mencionarmos um de seus textos mais bem articulados denominado Van Gogh, o suicidado da sociedade, em que ele defende o pintor das acusações de loucura, afirmando ser a sociedade a grande responsável por tê-lo assassinado. Sociedade que não foi capaz de compreender a singularidade do homem-artista de sensibilidade extrema, que era Van Gogh. Conforme declaração da psiquiatra Nise da Silveira Artaud “Conhece por experiência própria essas vivências e consegue exprimi-las com uma claridade incrível, levando-nos a concluir que tais sintomas não compõe uma doença...., mas se manifestam como estados múltiplos do desmembramento do ser” .

Artaud solidariza-se com a existência tortuosa de Van Gogh por sentir-se um igual. O pintor também fora vítima de internações em hospitais psiquiátricos e de uma série de procedimentos médicos, que segundo Artaud expressam a mais pura incompetência e desumanidade. Sob a percepção crítica de Artaud, Van Gogh é uma vítima silenciada pelo poder opressivo da sociedade e da medicina:

Van Gogh não morreu de um estado de delírio próprio, e sim por ter servido corporalmente de campo a um problema em torno do qual, desde suas origens, se debate o espírito iníquo desta humanidade, que é o da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um e outro. E onde fica neste delírio o lugar do eu humano? Van Gogh buscou o seu durante toda a vida com uma energia e uma determinação estranhas. E ele não se suicidou num gesto de loucura, no transe de não consegui-lo, mas, pelo contrário, acabara de consegui-lo e de descobrir o que ele era e quem ele era, quando a consciência geral da sociedade, para puni-lo por se ter desvencilhado dela, o suicidou .

Nas correspondências trocadas com Rivière, Artaud insiste na autonomia para expressar sua linguagem-vida. Para ele a literatura é uma poética intrinsecamente ligada a sua alma torturada, capaz apenas de mostrar a incompletude de seu ser em permanente busca de existência. Artaud rompe com o espaço logocêntrico da linguagem para dar lugar ao florescer do não-senso, o novo sentido que abomina a conexão com a estrutura linear tradicional do discurso.

Embora Calcanhotto em Saga Lusa apresente um trabalho experimental com a linguagem, constata-se diferenças ideológicas em relação a Artaud. Enquanto o dramaturgo pretende romper totalmente com a lógica racional do discurso, Calcanhotto procura através da escrita uma maneira de não sucumbir à loucura. Escrevendo, a autora tenta ordenar o caos que toma conta de seus pensamentos. Nos momentos de extrema confusão mental, ela explora com mais intensidade o humor, que lhe serve de válvula de escape: “Quando notei o que estava acontecendo comigo, vi que o mais sábio a fazer era me manter no presente e rir de mim mesma. É o que faço quando me deparo com uma situação complicada. Tento rir ”. Calcanhotto brinca com aspectos de surrealismo que permeiam o imaginário popular, como na passagem em que satiriza o discurso banalizado daqueles que já disseram ter conhecido o “outro lado”:

Me vi deitada na cama, do lado direito, me vi do lado esquerdo, eu fora do meu corpo, mas de forma caleidoscópica, não da forma clássica, da pessoa se ver de cima, da mesa de cirurgia ou da cama, que funciona e tal, mas, convenhamos, já ta um pouco batido. Eu me via me vendo me ver. Com um olhar sarcástico. Diabólico. Demoníaco .

Artaud em seus textos “alucinados” contribuiu efetivamente para quebrar o espaço clássico da representação literária. Ele critica o “saber” acumulado na biblioteca, espaço fechado onde se situa a cultura institucionalizada: “ Se a massa não vai às obras- primas literárias é porque essas obras-primas são literárias, isto é, fixadas: e fixadas em formas que já não respondem às necessidades do tempo ”. Calcanhotto e Artaud se aproximam na medida em que ambos atuam no patamar de uma experimentação com a linguagem. Sob o estado de alteração mental, a cantora/compositora elabora uma obra voltada para a reflexão sobre a linguagem e suas possibilidades. Em seu caráter metalinguístico, Saga Lusa tem a língua portuguesa como objeto de análise. Artaud em sua ampla dimensão propõe uma ruptura total com os alicerces da linguagem e essa ruptura se dá num permanente exercício desconstrutivo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Joyce e a banda da Irlanda



É sempre maravilhoso quando conseguimos encontrar aquele livro que nos prende da primeira a última página. Quando, tomados pela ansiedade proporcionada pela euforia de ir prosseguindo a leitura ininterruptamente, fechamos a última página com a confortável sensação de que valeu a pena. É sempre maravilhoso quando assistimos aquele filme que nos arrebata e saímos do cinema um pouco zonzos, tentando meio a contragosto desfazer a magia e retomar o contato com a “realidade”. É sempre maravilhoso ficar um tempo pensando no filme, que passa a ocupar grande parte de nossa atenção. Mesmo assim, esplêndido mesmo é encontrar aquele cd ou dvd musical que me faz mergulhar em minha mais pura essência, permitindo-me refletir sobre tudo o que penso, acredito, aspiro e amo em música.

Recordo-me que um dos últimos discos que mais me impressionou foi o do compositor inglês Elvis Costello. Um primor da primeira à última faixa. Jazz da mais alta categoria. Um disco ideal para ser ouvido acompanhado, de preferência por um ouvido/alma sensível que, junto, compreenda suas sutilezas, muitas sutilezas. Sônia, minha tia e mestra musical, quando me indicou o disco North, de Costello, disse que se eu encontrasse o ouvido certo, certamente iria, qual Cinderela, encaixar o pé no sapatinho. Quanto a isso, não houve controvérsias .

Há três dias não me desgrudo do dvd Banda maluca, da cantora e compositora Joyce, comprado na semana passada em Juiz de Fora. Sou fã de Joyce há muito tempo, exatamente desde quando, há quinze anos, papai levou-me ao Teatro Solar em Juiz de Fora, para assisti-la se apresentando ao lado de Toninho Horta. Eu, que começava a dedilhar meus primeiros acordes – experimentando a minha voz nas canções de Tom, João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Cazuza e por aí vai uma galera–, vi/ouvi aquilo tudo muito embevecidamente. Joyce cantava e dava o seu recado numa linguagem muito próxima da minha, que começava a aflorar. Foi um encontro epifânico.

Mesmo tendo a partir daí acompanhado toda a carreira de Joyce, esse dvd me proporcionou um encontro com meu passado-presente, talvez por eu estar neste momento totalmente envolvida com música, fazendo o meu primeiro disco. Banda maluca é um trabalho de altíssimo nível. Com 35 anos de carreira, Joyce é uma artista absolutamente madura – que sabe e faz o que quer. Isso porque, em toda a sua trajetória, Joyce nunca cedeu aos apelos comerciais. Sempre se guiou pelo caminho mais difícil, o da qualidade e aprimoramento permanente.

Assumindo cada vez mais o violão com total desenvoltura, trazendo-o como o único instrumento harmônico da banda, ao lado do contrabaixo, Joyce assina quase todas as composições. A banda dispensa comentários, a categoria dos metais que dialogam entre si e com a cantora, consiste num dos momentos mais fortes do show. Tutty Moreno, baterista, companheiro na vida e na arte, dá a dose certa quando mistura com a cantora a malemolência suingada, sua preciosa herança baiana, com a liberdade e sofisticação da levada jazzistica. Joyce interage com os músicos todo o tempo e no fundo assume-se como mais uma integrante da banda maluca, e nisso reside toda a riqueza e singularidade de seu trabalho: “Não fica muito claro se eu sou um instrumento tocando com eles ou se são as vozes deles tocando comigo”.

Emocionante também a participação do baterista e percussionista Robertinho Silva, que contagia a todos com sua alegria, leveza e talento. Vale destacar o Samba do Joyce, onde a artista brinca com seu próprio nome, associando-o ao do autor de “Ulysses” e Finnegans Wake, o irlandês que inventou o moderno romance. A canção foi composta em Dublin, terra de Joyce, o James. Num jogo carnavalesco, Joyce transporta Dublin para o universo brasileiro, a Lapa, o Rio de Janeiro de Noel e Martinho da Vila: “Samba/samba/quando James Joyce ouviu um samba/ samba/descobriu que a lapa era na Irlanda/ landa/ Molly Bloom virou Carmem Miranda/randa.... Resolveu sair atrás da banda/banda./O século XX é só muamba...”

Banda maluca é um trabalho totalmente sintonizado com o mundo-planetário de hoje. Joyce faz um dvd com músicos brasileiros, repertório essencialmente brasileiro, mas totalmente assimilável pelo público estrangeiro, que é o que mais a consome de fato. Joyce é uma e muitas, e com muita propriedade assume as rédeas de seu caminho sem perder o encanto de mulher forte-feminina: “Ô mãe me explica, me ensina, me diz o que é feminina?/Não é no cabelo, ou no dengo, ou no olhar, é ser menina por todo lugar./Ô mãe, então me ilumina, me diz como é que termina?”.