quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Essa cidade me atravessa



Absorvo o mundo através de música. Quando estou conversando com alguém, ouvindo uma palestra ou alguma conversa de outrem trazida pelo ar, quase sempre surge algum verso de alguma canção que contém aquela palavra. Assisti num dvd da cantora Ana Carolina um divertido e inusitado bate-papo entre ela e Chico Buarque, em que ambos falavam da mania de pronunciarem as palavras de trás para frente. Hábito incontrolável, afirmaram eles.

Troquei o cenário monótono da academia de musculação pela matéria viva das calçadas, da fumaça dos carros, da sinuosidade dos morros, da força das ondas, do calor das areias, do cheiro de maresia, da sensualidade dos corpos, da fome dos corpos, da curvatura dos arcos. Da beleza das palmeiras, do sabor da água de coco, da pulsação criativa, dos sotaques, da inclinação para o espetáculo, do ritmo acelerado,dos rompantes contemplativos, das muitas cores, do humor, da ousadia, da alegria, da sedução e do espanto.

Em nosso cancioneiro não falta música que preencha os mais diversos estados de alma. Desde que me mudei para o Rio de Janeiro, me invadem os versos de O nome da cidade, belíssima canção feita por Caetano Veloso, inspirado na personagem Macabéa, do romance A hora da estrela, de Clarice Lispector. Na madrugada de ontem bateu uma vontade de tocá-la para o meu amigo Marcelo, companheiro de apê carioquíssimo. Cantei verso por verso, prolongando cada nota, cada palavra, como se me justificasse através da poesia de Caetano: “Cheguei ao nome da cidade/ Não à cidade mesma espessa/ Rio que não é rio; imagens/ Essa cidade me atravessa/ Será que tudo me interessa/ Cada coisa é demais e tantas/ Quais eram minhas esperanças?/ O que é ameaça e o que é promessa/ Ruas voando sobre ruas/ Letras demais, tudo mentindo/ O Redentor, que horror! Que lindo!/ Meninos maus mulheres nuas/ A gente chega sem chegar/ Não há meada, é só o fio/ Será que pra meu próprio rio/ Esse rio é mais mar que o mar?”

Sinto-me como uma Macabéa do alto das Gerais que, embora tenha ouvido bem mais que o rádio-relógio, mal consegue dissimular a ebulição de sentimentos. Essa cidade me atravessa em sua imensidão, suas ofertas, seus contrastes, seu fascínio. Terra ensolarada de misturas: “Eu quero te mostrar o Rio de Janeiro em que o Corcovado está de costas”, disse meu querido amigo carioca, o estudioso de música e professor Alberto Moby. Flano, me enfronho, participo, mas consciente da falta de traquejo, que espero vir com o tempo, rápido. Domingo passado aprovei minha performance de “não Macabéa”, ao me enturmar rápido no churrasco do meu outro amigo músico e poeta, Rogério Batalha. Este já me presenteou com um ótimo cd de composições suas em parceria com Moacyr Luz e Du Basconça, gravado ao vivo no Centro de Referência da Música Carioca.

Em compensação, fui intensamente Macabéa quando recuei diante da levada sedutora de um “menino-homem do rio”, que desejo desde os tempos de vivência nas gerais. Uma menina-mulher tonta em meio à poesia do instante, lia-absorvia suas palavras, de cabeça baixa, como se pudesse medir o desmedido: “Te acho lindo, você é muito interessante, mas tô com medo”. No fundo só rindo de mim, dele, de nós. Faltou-me “jeito de corpo”, “ah bruta flor do querer”.

Vou buscando na memória outras canções que também descrevem esses múltiplos Rios. Idilicamente sereno e convidativo como nos versos de Antônio Maria: “Vento do mar no meu rosto/ E o sol a queimar, queimar/ Calçada cheia de gente a passar, e a me ver passar/ Rio de Janeiro, gosto de você/ gosto de quem gosta/ Deste céu, desse mar/ Dessa gente feliz”. Sensualmente Zona Sul como canta Marina Lima, sua eterna musa: “O hotel Marina quando acende/ Não é por nós dois/ Nem lembra o nosso amor/ Os inocentes do Leblon/ Esses não sabem de você”. Levemente Bossa Nova, como exalta Vinícius de Moraes: “Ela é carioca/ Ela é carioca/ Basta o jeitinho dela andar/ Nem ninguém tem carinho assim para dar/ Eu vejo na cor dos seus olhos/ As noites do Rio ao luar”.

Liricamente suburbano como entoa Chico Buarque: “Lá não tem moças douradas/ Expostas, andam nuas/ Pelas quebradas teus exus/ Não tem turistas/ Não sai foto nas revistas/ Lá tem Jesus/ E está de costas/ Fala, Maré/ Fala, Madureira/ Fala, Pavuna/ Fala, Inhaúma/ Cordovil, Pilares/ Espalha tua voz nos arredores/ Carrega tua cruz/ E os teus tambores”. Poeticamente sublime como descreve também Chico Buarque: “Dois irmãos, quando vai alta madrugada/ E a teus pés vão-se encostar os instrumentos/ Aprendi a respeitar tua prumada/ E desconfiar do teu silêncio/ Penso ouvir a pulsação atravessada/ Do que foi e o que será noutra existência/ É assim como se a rocha dilatada/Fosse uma concentração de tempos”.

Festivo como vibra Gilberto Gil: “O Rio de Janeiro/ continua lindo/ O Rio de Janeiro/ Continua sendo/ O Rio de Janeiro/ Fevereiro e Março/ Alô, alô, Realengo/ Aquele abraço!/ Alô torcida do flamengo/ Aquele abraço.”. Luminosamente fascinante como evoca Adriana Calcanhotto, ex Macabéa gaúcha confessa: “Cariocas são bonitos/ Cariocas são bacanas/ Cariocas são sacanas/ Cariocas são dourados/ Cariocas são modernos/ Cariocas são espertos/ Cariocas são diretos/ Cariocas não gostam de dias nublados.” Erótica e poeticamente marginal como expõe Cazuza: Você nunca varou a Duvivier às cinco/ Nem levou um susto saindo do Val Improviso/ Era quase meio-dia no lado escuro da vida/ Nunca viu Lou Reed Walking on the outside/ Nem Melodia transvirado/ Rezando pelo Estácio/ Nunca viu Allen Ginsberg/ Pagando michê na Alasca”. Romântico como revela Luiz Melodia “O Estácio acalma o sentido dos erros que eu faço/ Trago, não traço, faço, não caço/ O amor da morena maldita do Largo do Estácio”.

Aconchegante como quer Aldir Blanc: “Só fico à vontade/ Na minha cidade/ Volto sempre a ela/Feito criminosa/ Doce e calorosa/ A minha história/ Escorre aqui/ Há quem não se importe/ Mas a Zona Norte/ É feito cigana lendo a minha sorte”. Malandramente carioca como suínga Seu Jorge: “O Rio de Janeiro é a capital/ Eu vi a nega no Morro da Mangueira/ Vi a loura na praia de bobeira/ Mas a mina da Vila Isabel é uma mulher sensacional”. Cantar o Rio ainda vai me render muitas e muitas páginas, então, já é.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

SAGA LUSA: UMA VIAGEM PELOS LABIRINTOS DA LINGUAGEM



Meus problemas são os de uma pessoa de alma doente e não
podem ser compreendidos por pessoas, graças a Deus, sãs .
Clarice Lispector



A questão da loucura motiva uma série de produções artísticas, da literatura ao teatro, passando pela música e sobretudo as artes plásticas, muito do que já se produziu e se produz é impulsionado por estados alterados de consciência. Van Gogh, Virginia Woolf, Camille Claudel, Nijinsky, Arthur Bispo do Rosário, Antonin Artaud e muitos outros tiveram suas criações associadas à problemática do desvio da razão. Ousados, delirantes, loucos, inadaptados, visionários, muitos adjetivos envolvem o imaginário que cerca a criação desses artistas.


Neste ensaio pretendemos fazer uma breve abordagem sobre a questão da linguagem em Saga Lusa, primeira obra literária da cantora, instrumentista e compositora Adriana Calcanhotto. Saga Lusa consiste numa escrita de relato e simultâneo combate da “insanidade”, elaborada no calor das horas de delírio e lucidez, em que a autora tenta através do manuseio das palavras, encontrar uma maneira de se fixar na “realidade”. Escrita que se constrói e desconstrói no percurso tortuoso do “surto”, em que Calcanhotto habilmente consegue transformar a dor e o desespero em auto-ironia inteligente e bem humorada.


O “surto”, como declara a própria autora, se deu na temporada de shows em Portugal, em que após contrair fortíssima gripe que a impediria de prosseguir com a turnê, ela se vê refém dos efeitos colaterais ocasionados pela ingestão desordenada de remédios para aplacar a gripe. Na tentativa de domar a “coisa”, a força inclassificável que tenta tirá-la a todo custo do domínio de si mesma, Calcanhotto elege a escrita como condição de suporte dos entraves da dor: “Entendi que a melhor coisa em relação à Coisa seria me dedicar a uma atividade que pudesse exercer com calma, que exigisse concentração e coordenação motora ”. Troca seus usuais instrumentos de trabalho, violão e voz – dimensão criativa de âmbito mais etéreo, pela palpabilidade das palavras escritas em seu laptop. Sob a máscara do humor e da ironia, Saga Lusa explicita luta desesperada da autora pela afirmação de um “eu” que ameaçava se diluir nos labirintos da loucura:


A escrita salvou a minha vida. Escrevi porque precisava. Quando vi que não tinha controle sobre aquilo, que as coisas que eu tentava, como respirar com calma, não estavam funcionando, bolei um plano: “Vou ocupar os comandos cerebrais, em vez de ficar esperando passar esse negócio que só está piorando”. O engraçado é que escolhi a escrita. O violão estava ali, mas tinha qualquer coisa motora que não dava certo, eu suava muito nas mãos...Vi que precisava de uma coisa que me mantivesse no presente. Não queria pensar: “Vou sair disso? Vou ficar assim pra sempre?” Então tinha uma frequência do presente que era a escrita, o acento, o cedilha, que me ajudou a achar um norte .


Em Saga Lusa a linguagem é arma de combate e alvo de experiência estética. Em seus trabalhos musicais, Calcanhotto apresenta uma destacável preocupação com a questão estética, que se desenvolve desde a concepção visual dos encartes de seus discos, passando pelos figurinos, cenários e repertório. O material que lhe serve de motivo na composição de canções é extraído principalmente do contínuo diálogo que a artista traça com as artes plásticas, a exemplo da canção Parangolé Pamplona, inspirada nas criações do artista plástico Hélio Oiticica: “O Parangolé Pamplona você mesmo faz/ O Parangolé Pamplona a gente mesmo faz/ Com um retângulo de pano de uma cor só/ E é só dançar/E é só deixar a cor tomar conta do ar ”.

A narrativa de Saga Lusa traz como marca a não linearidade, composta por fragmentos, colagens e superposições de pensamentos e sobretudo recordações. Calcanhotto acessa continuamente seu repertório de canções que figuram nas entrelinhas e também nos títulos que introduzem alguns capítulos. O universo da arte contemporânea apresenta-se sob a mira do olhar “distorcido” da artista, que aproveita a situação de enfermidade para exercitar sua crítica mordaz a canções, livros e acima de tudo aos objetos da sociedade de consumo: “E aqui um comentário tolo mas...e se por conta deste capítulo a Coca-Cola patrocinasse a minha pobre turnê? ”.

A ironia ao glamour do show business permeia a obra desde as páginas iniciais. Em Saga Lusa a vida transcorre nos bastidores, em que o sublime encantamento que se realiza nas performances do palco, é substituído pela vida crua e sem fantasia do cotidiano. Brincar com os pólos da verdade e da mentira é uma das artimanhas de sobrevivência de Calcanhotto, que assumindo uma postura aparentemente fake de anti-estrela, se coloca acima do bem e do mal para estabelecer julgamentos e exercer seu potencial corrosivo.

As pessoas pensam que sair em turnê é rodar o mundo, com amigos queridos, tocando canções de que se gosta, bebendo champagne no camarim, conhecendo pessoas interessantíssimas e vivendo la vida loca. E é isso mesmo. Em parte. No momento de acordar cedísssimo, de esperar horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas, de encarar aeroportos, comida de avião (se houver), repetir as mesmas respostas compulsivamete, ficar longe das famílias, de surtar de uma hora para outra e se deparar com a própria loucura é que nosso caráter é posto à prova.

Calcanhotto é espectadora de si mesma e dos acontecimentos que a circundam. Seu quarto de hotel transforma-se no verdadeiro palco em que atuam assistentes, músicos e funcionários. Apesar do tom bem humorado revestir a escrita, nota-se que a autora alterna estados de liberdade criativa e sensações de aprisionamento: “Fui pro espelho, as retinas resistem com fúria, é assustador, mas não adianta, ainda assim tão diminuindo, tô vendo ”. O exercício com a palavra escrita evolui em vários estágios, em algumas ocasiões como pura atividade catártica, em outras como jogo hábil e experimental com a linguagem. O impacto da dor vivenciada na carne: “A língua sumiu, não sinto nada, além de tontura, tudo de novo. Não sinto a boca, a língua, a garganta, nada ” e o esforço para ultrapassar o estado delirante se efetiva na tessitura das palavras.

Saga Lusa pode ser lido como um diário de bordo as avessas, em que Calcanhotto ao invés de privilegiar a descrição de paisagens externas, foca seu relato no “microcosmo” de seu quarto. Ao escrever um diário íntimo o autor coloca-se momentaneamente sob a proteção dos dias comuns pois, conforme Maurice Blanchot:

O que se escreve se enraíza então, quer se queira, quer não, no cotidiano e na perspectiva que o cotidiano delimita. Os pensamentos mais remotos, mais aberrantes, são mantidos no círculo da vida cotidiana e não devem faltar com a verdade. Disso decorre que a sinceridade representa, para o diário, a exigência que ele deve atingir, mas não deve ultrapassar .

O quarto de hotel é o cenário em que Calcanhotto vivencia alucinações: ouve vozes, vê imagens difusas, sente os sentidos alterados: “E eu poderia jurar que esses sets e cenários e coxias são os bastidores da minha mente, minha nossa, que medo, o que é isso que eu estou dizendo? ”. Através de uma escrita marcada por cortes e inserções de palavras, muitas vezes em caráter desconexo, ela tenta reproduzir no calor da hora os lapsos de fala: “Esdou, cerdamente, zó dão zaberia dizer bem o guê/ O hosbidal dão é eze aí ”.

O experimentalismo que predomina na produção musical de Calcanhotto encontra certo prolongamento em Saga Lusa, onde a autora pratica o exercício de pesquisa lúdica com as palavras. Instaura uma profusão de misturas vocabulares sem fazer distinção entre erudito e popular, alta e baixa cultura, feio ou bonito, como já anunciara em Senhas, canção de sua autoria: “Eu não gosto do bom gosto/ eu não gosto de bom senso/ eu não gosto dos bons modos/ não gosto ”. Shakespeare, João Cabral, John Cage, Rita Lee, Jack Nicholson, Guilherme Arantes, Camané, Moby Dick, Waly Salomão e Camões figuram lado a lado. O mundo da cultura pop é elemento de devoração crítica, a capa do livro, concebida por ela, é o resultado de uma junção de recortes das embalagens dos remédios consumidos, fazendo analogia a Andy Wahrol:

...as coisas todas para mim são misturas. Gosto dos autores, daquela cabeça, daquele ponto de vista, daquela canção ou daquele quadro, daquele experimento. Tudo isso junto, são as coisas que eu gosto. Nunca penso muito sobre esse critério, até porque pelo critério cronológico, se você pensar, os grandes nomes, são todos mais ou menos contemporâneos .

No decorrer da escrita, Calcanhotto vai se guiando pela percepção dos sutis detalhes do cotidiano, acentuados ainda mais em função do seu estado de consciência alterado. A insistente demarcação do espaço que a cerca, se efetua como tentativa de fixação no solo da razão, em que a autora se mostra avessa a qualquer salto demasiadamente alto que a lance para caminhos de descontrole. Importa é a capacidade de apreender e suportar as dores no tempo presente, que se verifica na constante luta pela afirmação/recuperação de sua própria identidade. Tateando objetos, tentando reconhecer sua face no espelho: “Parecendo um urso panda disfarçado de escritora principiante ”, Calcanhotto procura suplantar o vazio existencial através das palavras escritas, que sabe serem na verdade sempre insuficientes. Torna-se oportuno citarmos o poema o Outro, do poeta português Mário de Sá Carneiro, musicado por ela no disco Público:



Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro .



Mesmo nos momentos mais tortuosos, Calcanhotto não deixa de lançar mão do artifício da auto-ironia. Na iminência da perda de si mesma, brinca com as faces de mulher comum, escritora e cantora famosa: “Sou uma escritora ou cantora, enfim, uma mulher, sem razão, porém vaidosa ”. A vivência da angústia é transmudada em sua escrita na forma com que explora a linguagem, criando no pequeno espaço da página um permissível lugar transcendente e lúdico. Músicos e canções figuram como personagens coadjuvantes: Madonna, Roberto Carlos, Caetano Veloso e outros mais estão livres para dividir o mesmo palco de alucinações e invencionices. Submetida a experiência aflitiva do exame de ressonância magnética, Calcanhotto é capaz de transformar o episódio em acontecimento artístico, com direito a nuances sonoras de John Cage: “A mistura aleatória dos sons da máquina com os graves e agudos das caixas é lindíssima. Piiiiiii,pleeeee,schcrafg,piii,piiiiiiii,piiiiiiii,peeeeeeee,schrafg. E eu, num momento desses, sem um gravador. Jamais serei profissional...” .

Vale atentar para o fato de que a produção artística realizada como uma espécie de antídoto das mazelas existenciais é tema para análise de uma série de obras. O poeta, letrista e agitador cultural Waly Salomão confessou em entrevista que, só após a vivência na prisão do Carandiru, encontrou o enquadramento espacial de seus poemas. Van Gogh nas cartas dirigidas ao irmão Théo expõe suas feridas existenciais, que se misturam com a obsessiva preocupação com a criação estética. Pintar é a saída que Van Gogh encontra para se manter vivo:


Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente...Ainda que frequentemente eu esteja na miséria, há contudo em mim uma harmonia e uma música calma e pura. Na mais pobre casinha, no mais sórdido cantinho, vejo quadros e desenhos .


A cantora, que em sua índole antropofágica já propôs a devoração do ícone da música popular brasileira Caetano Veloso: “Vamos comer Caetano/ Vamos devorá-lo/Degluti-lo, mastigá-lo/ Vamos lamber a língua ”, em Saga Lusa brinca com a subversão do poder das instituições consagradas como a Academia Brasileira de Letras: “ Tô achando mais parecido comigo mesma me candidatar à Academia Brasileira de Letras – e presidi-la – do que ficar na estrada, em turnê” . O binômio aparência x essência é desenvolvido em vários jogos dicotômicos, em que a busca pela afirmação da identidade da cantora/artista Adriana Calcanhotto se dá através de uma série de contraposições. Calcanhotto não é escritora profissional e no entanto se aventura no ofício: “Minhas ambições com esta obra são de vulto. Vulto não, que ultimamente me dá medo, minhas ambições são de porte ”.

Em Saga Lusa a língua portuguesa é mais que suporte, funciona como personagem. Fixada em Lisboa, Calcanhotto materializa seu imenso estranhamento ao sentir-se estrangeira em sua própria língua: “Nossa língua portuguesa prega-nos partidas. E pedi o prego, na verdade, só pra Suely ver que comi carne ”. A metalinguagem desponta então como necessidade de auto-provação, por conseguinte mais uma vez revela-se a busca pela afirmação identitária, que deve se realizar também nos interstícios da língua portuguesa. Em entrevista ao poeta e professor Eucanaã Ferraz declara:


Eu gosto tanto de estar em Portugal, poder falar em português, que eu só posso falar lá para ser compreendida, como se fosse uma outra língua, sendo que é a mesma e é a língua que eu gosto...Eu acho que quando estou em Portugal só penso em escrita e versos e poemas, tudo o que me acontece em Portugal é meio mágico assim...Eu fico muito predisposta as questões da palavra, uma maravilha ficar ouvindo as pessoas falarem português daquela maneira .


Ao refletirmos sobre a questão da relação entre linguagem e processos de alteração mental desenvolvidos em Saga Lusa, consideramos pertinente abrirmos um espaço para produção do dramaturgo Antonin Artaud, que teve toda a sua história de homem e criador intimamente associada aos problemas mentais.

Falar sobre Artaud implica jamais dissociar arte e vida, pois este artista vivenciou na carne a exacerbação do estado de criação. Levou ao extremo da dor a crença na poetização da existência: “Ninguém mais sabe o que é viver, porque viver é afirmar-se em si mesmo, a todo instante, encarniçadamente... ”. Artaud lutou sem cessar pela afirmação da arte enquanto algo não apartado da vida, livre das rédeas impostas pelo sistema racionalista cerceador. Objetivando romper com a linearidade do discurso que se funda sobre os pilares da metafísica tradicional, Artaud propôs a experiência do pensamento enquanto vivência no corpo: “Nós estamos no interior do espírito...Idéias, lógica, ordem, Verdade (com um V maiúsculo), razão, nós entregamos tudo ao nada da morte .” Para Artaud seu corpo é linguagem, e este corpo tornado linguagem atua apenas submetido à sua própria lei, que é a de sua livre vontade. Ao longo de seu percurso criativo, que abrange além dos textos para teatro, desenhos, poemas e cartas, Artaud vai se desprendendo do compromisso com a realidade exterior. Sua expressão pretende abolir o vínculo com a ordem lógica tradicional, sua postura implica ruptura, ele deseja se produzir por uma nova linguagem, não a das palavras que compõem a comunicação habitual, mas sim a linguagem recriadora que abrange o corpo. No primeiro manifesto do Teatro da Crueldade Artaud alega que “importa antes de tudo romper a sujeição do teatro ao texto e reencontrar a noção de uma espécie de linguagem única, a meio caminho entre o gesto e o pensamento” .

Nas correspondências estabelecidas com Jacques Rivière, editor da Nouvelle Revue Française, Artaud explicita a supremacia da linguagem-vida. Artaud enviou alguns de seus poemas para Rivière, na expectativa de que este os publicasse em sua revista, entretanto o editor apresentou uma série de objeções, argumentou que os poemas não eram publicáveis por ausência de literariedade. Face à recusa da publicação, ambos decidiram em comum acordo publicar apenas as correspondências em que discutem o conteúdo dos poemas. Conforme Blanchot, Rivière se interessa “pela experiência da obra, pelo movimento que conduz a ela...pelo rastro anônimo, obscuro, que ela respresenta inabilmente” .

Nas cartas dirigidas a Rivière, Artaud evidencia o primado da questão linguagem-vida: “porque procurar colocar sobre o plano literário uma coisa que é o próprio grito da vida, porque dar aparência de ficção àquilo que é constituído pela substância da alma ” (tradução nossa). Para ele não importava que seus poemas fossem reconhecidos enquanto manifestação literária de elevado caráter formal e estético, valia a escrita como manifestação do jorrar da vida exasperada, seu incomensurável drama existencial:

A questão da aceitabilidade dos poemas é uma questão que interessa mais a você que a mim. Eu falo, bem entendido, de sua aceitabilidade absoluta, de sua existência literária. Eu sofro de uma terrível doença de espírito. Meu pensamento me abandona em todos os níveis. ..É porque pelo sentimento central que me diz meus poemas e pelas imagens fortes que eu pude achar, eu proponho apesar de, todos esses poemas a existência (tradução nossa).

Uma característica importante a ser destacada na linguagem de Artaud é o fato de que ele escreve verbalmente e não gramaticalmente. Sua escrita evolui por movimentos descontínuos e assistemáticos, em que o verbo deseja penetrar na carne turva. Para Artaud seus poemas têm valor na medida em que são a confissão de sua própria dor de existir: “Eu penso na vida. Todos os sistemas que poderei edificar nunca se igualarão a meus gritos de homem ocupado em refazer sua vida .”As críticas estabelecidas por Rivière, que atribuem a seus escritos imaturidade, incoerência e desarmonia, seguem na contramão do pensamento de Artaud, que não objetivava atingir nenhum estado de iluminação poética, mas sim tocar o âmago da vida.

Explicitando um pensamento de natureza Nietzschiana, Artaud contrapõe o homem-artista, dionisíaco, pleno de vida e de dor, ao homem-cientista, racional, sistemático e limitado a suas crenças cerceadoras. Segundo Nietzsche a tragédia é “alegria” e nasceu da afirmação dupla de Dionísio, Artaud ao desenvolver a idéia de um Teatro da Crueldade refuta um sentimento de culpa ou uma dor interiorizada em relação ao público que participa da cena que é dionisíaca no sentido nietzchiano. O espetáculo para Artaud deve conter “gritos, lamentações, aparições, surpresas, golpes teatrais de todo tipo...deslumbramento da luz, beleza encantatória das vozes, encanto da harmonia ”.

Toda a existência de Artaud se conduz pelo sofrimento, e suas dores físicas e mentais são agudas e irrefreáveis. No plano físico Artaud padeceu como vítima de várias sessões de eletrochoque, administradas pelos médicos dos sanatórios em que esteve internado. Loucura e criação estão nele unidos simbioticamente, e sua produção reflete as agruras vivenciadas no corpo. Nas palavras de Blanchot:

O que ele diz é de uma intensidade que não deveríamos suportar. Aqui fala uma dor que recusa toda profundidade, toda ilusão e toda esperança, mas, que, nessa recusa, oferece ao pensamento “o éter de um novo espaço” .

Artaud padeceu na própria carne assumindo sua vida-criação contra a ordem lógica do discurso, castradora das potencialidades do ser: “Parece-me que a criação e a própria vida só se definem por uma espécie de rigor, portanto de crueldade básica que leva as coisas ao seu fim inelutável, seja a que preço for .” A destruição de todos os códigos gramaticais implicou no ultrapassamento dos limites da comunicação. Artaud no fundo considerava a não-comunicação como a única possibilidade de comunicação plena. Em carta dirigida a Rivière, expõe a inquietude que lhe invade na tentativa de vencer a descontinuidade entre o pensamento e sua manifestação escrita:

Há qualquer coisa que destrói meu pensamento, qualquer coisa que me impede de ser quem eu poderia ser, mas que me enlaça, se posso dizer, em suspenso. Qualquer coisa de furtivo que me enleva as palavras que descubro, que diminui minha tensão mental, que destrói a medida da substância de meu pensamento .

O problema da loucura é alvo de destaque na obra de Artaud. Torna-se interessante mencionarmos um de seus textos mais bem articulados denominado Van Gogh, o suicidado da sociedade, em que ele defende o pintor das acusações de loucura, afirmando ser a sociedade a grande responsável por tê-lo assassinado. Sociedade que não foi capaz de compreender a singularidade do homem-artista de sensibilidade extrema, que era Van Gogh. Conforme declaração da psiquiatra Nise da Silveira Artaud “Conhece por experiência própria essas vivências e consegue exprimi-las com uma claridade incrível, levando-nos a concluir que tais sintomas não compõe uma doença...., mas se manifestam como estados múltiplos do desmembramento do ser” .

Artaud solidariza-se com a existência tortuosa de Van Gogh por sentir-se um igual. O pintor também fora vítima de internações em hospitais psiquiátricos e de uma série de procedimentos médicos, que segundo Artaud expressam a mais pura incompetência e desumanidade. Sob a percepção crítica de Artaud, Van Gogh é uma vítima silenciada pelo poder opressivo da sociedade e da medicina:

Van Gogh não morreu de um estado de delírio próprio, e sim por ter servido corporalmente de campo a um problema em torno do qual, desde suas origens, se debate o espírito iníquo desta humanidade, que é o da predominância da carne sobre o espírito, ou do corpo sobre a carne, ou do espírito sobre um e outro. E onde fica neste delírio o lugar do eu humano? Van Gogh buscou o seu durante toda a vida com uma energia e uma determinação estranhas. E ele não se suicidou num gesto de loucura, no transe de não consegui-lo, mas, pelo contrário, acabara de consegui-lo e de descobrir o que ele era e quem ele era, quando a consciência geral da sociedade, para puni-lo por se ter desvencilhado dela, o suicidou .

Nas correspondências trocadas com Rivière, Artaud insiste na autonomia para expressar sua linguagem-vida. Para ele a literatura é uma poética intrinsecamente ligada a sua alma torturada, capaz apenas de mostrar a incompletude de seu ser em permanente busca de existência. Artaud rompe com o espaço logocêntrico da linguagem para dar lugar ao florescer do não-senso, o novo sentido que abomina a conexão com a estrutura linear tradicional do discurso.

Embora Calcanhotto em Saga Lusa apresente um trabalho experimental com a linguagem, constata-se diferenças ideológicas em relação a Artaud. Enquanto o dramaturgo pretende romper totalmente com a lógica racional do discurso, Calcanhotto procura através da escrita uma maneira de não sucumbir à loucura. Escrevendo, a autora tenta ordenar o caos que toma conta de seus pensamentos. Nos momentos de extrema confusão mental, ela explora com mais intensidade o humor, que lhe serve de válvula de escape: “Quando notei o que estava acontecendo comigo, vi que o mais sábio a fazer era me manter no presente e rir de mim mesma. É o que faço quando me deparo com uma situação complicada. Tento rir ”. Calcanhotto brinca com aspectos de surrealismo que permeiam o imaginário popular, como na passagem em que satiriza o discurso banalizado daqueles que já disseram ter conhecido o “outro lado”:

Me vi deitada na cama, do lado direito, me vi do lado esquerdo, eu fora do meu corpo, mas de forma caleidoscópica, não da forma clássica, da pessoa se ver de cima, da mesa de cirurgia ou da cama, que funciona e tal, mas, convenhamos, já ta um pouco batido. Eu me via me vendo me ver. Com um olhar sarcástico. Diabólico. Demoníaco .

Artaud em seus textos “alucinados” contribuiu efetivamente para quebrar o espaço clássico da representação literária. Ele critica o “saber” acumulado na biblioteca, espaço fechado onde se situa a cultura institucionalizada: “ Se a massa não vai às obras- primas literárias é porque essas obras-primas são literárias, isto é, fixadas: e fixadas em formas que já não respondem às necessidades do tempo ”. Calcanhotto e Artaud se aproximam na medida em que ambos atuam no patamar de uma experimentação com a linguagem. Sob o estado de alteração mental, a cantora/compositora elabora uma obra voltada para a reflexão sobre a linguagem e suas possibilidades. Em seu caráter metalinguístico, Saga Lusa tem a língua portuguesa como objeto de análise. Artaud em sua ampla dimensão propõe uma ruptura total com os alicerces da linguagem e essa ruptura se dá num permanente exercício desconstrutivo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Joyce e a banda da Irlanda



É sempre maravilhoso quando conseguimos encontrar aquele livro que nos prende da primeira a última página. Quando, tomados pela ansiedade proporcionada pela euforia de ir prosseguindo a leitura ininterruptamente, fechamos a última página com a confortável sensação de que valeu a pena. É sempre maravilhoso quando assistimos aquele filme que nos arrebata e saímos do cinema um pouco zonzos, tentando meio a contragosto desfazer a magia e retomar o contato com a “realidade”. É sempre maravilhoso ficar um tempo pensando no filme, que passa a ocupar grande parte de nossa atenção. Mesmo assim, esplêndido mesmo é encontrar aquele cd ou dvd musical que me faz mergulhar em minha mais pura essência, permitindo-me refletir sobre tudo o que penso, acredito, aspiro e amo em música.

Recordo-me que um dos últimos discos que mais me impressionou foi o do compositor inglês Elvis Costello. Um primor da primeira à última faixa. Jazz da mais alta categoria. Um disco ideal para ser ouvido acompanhado, de preferência por um ouvido/alma sensível que, junto, compreenda suas sutilezas, muitas sutilezas. Sônia, minha tia e mestra musical, quando me indicou o disco North, de Costello, disse que se eu encontrasse o ouvido certo, certamente iria, qual Cinderela, encaixar o pé no sapatinho. Quanto a isso, não houve controvérsias .

Há três dias não me desgrudo do dvd Banda maluca, da cantora e compositora Joyce, comprado na semana passada em Juiz de Fora. Sou fã de Joyce há muito tempo, exatamente desde quando, há quinze anos, papai levou-me ao Teatro Solar em Juiz de Fora, para assisti-la se apresentando ao lado de Toninho Horta. Eu, que começava a dedilhar meus primeiros acordes – experimentando a minha voz nas canções de Tom, João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Dorival Caymmi, Cazuza e por aí vai uma galera–, vi/ouvi aquilo tudo muito embevecidamente. Joyce cantava e dava o seu recado numa linguagem muito próxima da minha, que começava a aflorar. Foi um encontro epifânico.

Mesmo tendo a partir daí acompanhado toda a carreira de Joyce, esse dvd me proporcionou um encontro com meu passado-presente, talvez por eu estar neste momento totalmente envolvida com música, fazendo o meu primeiro disco. Banda maluca é um trabalho de altíssimo nível. Com 35 anos de carreira, Joyce é uma artista absolutamente madura – que sabe e faz o que quer. Isso porque, em toda a sua trajetória, Joyce nunca cedeu aos apelos comerciais. Sempre se guiou pelo caminho mais difícil, o da qualidade e aprimoramento permanente.

Assumindo cada vez mais o violão com total desenvoltura, trazendo-o como o único instrumento harmônico da banda, ao lado do contrabaixo, Joyce assina quase todas as composições. A banda dispensa comentários, a categoria dos metais que dialogam entre si e com a cantora, consiste num dos momentos mais fortes do show. Tutty Moreno, baterista, companheiro na vida e na arte, dá a dose certa quando mistura com a cantora a malemolência suingada, sua preciosa herança baiana, com a liberdade e sofisticação da levada jazzistica. Joyce interage com os músicos todo o tempo e no fundo assume-se como mais uma integrante da banda maluca, e nisso reside toda a riqueza e singularidade de seu trabalho: “Não fica muito claro se eu sou um instrumento tocando com eles ou se são as vozes deles tocando comigo”.

Emocionante também a participação do baterista e percussionista Robertinho Silva, que contagia a todos com sua alegria, leveza e talento. Vale destacar o Samba do Joyce, onde a artista brinca com seu próprio nome, associando-o ao do autor de “Ulysses” e Finnegans Wake, o irlandês que inventou o moderno romance. A canção foi composta em Dublin, terra de Joyce, o James. Num jogo carnavalesco, Joyce transporta Dublin para o universo brasileiro, a Lapa, o Rio de Janeiro de Noel e Martinho da Vila: “Samba/samba/quando James Joyce ouviu um samba/ samba/descobriu que a lapa era na Irlanda/ landa/ Molly Bloom virou Carmem Miranda/randa.... Resolveu sair atrás da banda/banda./O século XX é só muamba...”

Banda maluca é um trabalho totalmente sintonizado com o mundo-planetário de hoje. Joyce faz um dvd com músicos brasileiros, repertório essencialmente brasileiro, mas totalmente assimilável pelo público estrangeiro, que é o que mais a consome de fato. Joyce é uma e muitas, e com muita propriedade assume as rédeas de seu caminho sem perder o encanto de mulher forte-feminina: “Ô mãe me explica, me ensina, me diz o que é feminina?/Não é no cabelo, ou no dengo, ou no olhar, é ser menina por todo lugar./Ô mãe, então me ilumina, me diz como é que termina?”.

sábado, 2 de maio de 2009

Todo o tempo para Tom



Na crônica anterior, em que expressei meu saudosismo ao falar sobre a extinta fita cassete, acabei impulsionando manifestações entusiasmadas de pessoas que comentaram também sobre seus prazeres musicais desfrutados no tempo das fitas. Peço licença para transcrever um pedaço do email enviado pelo meu querido amigo Alberto Moby, um de meus correspondentes musicais mais assíduos: “Gostaria de ser enterrado com fones de ouvido. Talvez também com um gravadorzinho daqueles cassetes que fizeram tanto sucesso há não muito tempo tocando uma fitinha dessas. “Os olhos tristes da fita/Rodando no gravador”, diria o Chico César. Ainda tenho muitas também. E acho que a sua Am I blue seria uma excelente trilha”. Fiquei lisonjeada por saber que minha fita blue ainda ressoa em alguns ouvidos.


Faço coro com Wisnick e Jorge Mautner: “O tempo dá voltas e curvas/o tempo tem revoltas absurdas/ele é e não é ao mesmo tempo”. Junto com Paulinho da Viola também vou indo correndo pegar meu lugar no futuro, e no caminho Tom Jobim está cada vez mais presente como exemplo de grandiosidade humana e musical.

Recomendo a todos assistir ao documentário A casa do Tom, que reúne uma série de imagens do maestro coletadas por Ana Lontra, sua segunda esposa. Narrado pela própria Ana, o dvd destaca os bastidores da vida do Tom “homem comum”, cercado pelos filhos, amigos, pássaros, plantas e o inseparável piano.

A narrativa sóbria e simultaneamente intimista de Ana Lontra permite que a emoção toque os sentidos do expectador. Ultrapassando o universo do compositor, Tom revela sua intensa cumplicidade com a poesia. Poesia que se extrai da substância da natureza do seu sítio em Paço Fundo, do quintal da casa que estende sua vista para o Jardim Botânico, das leituras de Drummond e Guimarães Rosa, da música de Dorival Caymmi, Villa Lobos e Radamés Gnattali, da praia de Ipanema, da mulher amada: “Meu amigo Radamés é a coisa melhor que tem/É o dia de sol na floresta/ É a graça de querer bem/Radamés é água alta/é fonte que nunca seca/É cachoeira de amor”.

Emociona ver Tom lendo seu longo poema No alto do chapadão, inspirado no processo de construção de sua casa no Jardim Botânico, cercada de natureza por todos os lados. É pau, é pedra, mas o começo de outros caminhos: “Vou fazer a minha casa/No alto de uma quimera/Vou criar um mundo novo/Inventar nova megera//Que já chega de besteira/Já basta de decoreba/Que a cultura verdadeira/Tá na asa do jereba”.

Na maturidade dos sessenta, ele revive com alegria a experiência da paternidade. É bela a imagem de Tom, já marcado pelas curvas do tempo, brincando no jardim com a pequenina Maria Luiza, e ensinando que a maior dádiva do ser é a liberdade, ao soltar um passarinho junto com o filho João.

O documentário mostra a sabedoria de um Antônio Carlos brasileiro que amava sobretudo a vida simples, compartilhada com a família, os amigos e alguns vizinhos eventuais. Sua inteligência peculiar se revela no olhar sensível aos detalhes e no senso de humor constante. Muito divertida a passagem em que Tom conta sobre o dia em que lhe ofereceram uma favela para comprar: “Outro dia eu estava conversando com o Carmello na banca de jornal ali do Leblon, e ele disse: Dr Jobim porque você não compra uma favela? Caí na risada, nunca ouvi ninguém falar que se comprasse uma favela. Naturalmente eu compraria uma favela pequena, porque não tenho recurso para comprar uma favela como a Rocinha”.

Fumando charuto, seu fiel companheiro nos últimos anos de vida, em que estava impedido de fumar cigarro, Mr Jobim é um elegante lorde desconhecido nas ruas de Nova York: “As pessoas me cobravam o endereço, você mora em Nova York? Eu acho que o endereço da pessoa não é importante, sobretudo depois de uma certa idade: “A casa do meu pai há muitas moradas”. O Drummond tem um verso maravilhoso que diz o seguinte: “os senhores me desculpem, mas devido ao adiantado da hora me sinto anterior a fronteiras”. Porque que essas fronteiras são fictícias, o sujeito coloca uma cerca e o urubu passa por cima....Para mim Nova York tem sido uma espécie de repouso, quer dizer, onde eu posso trabalhar, descansar, no sentido de fazer o dever. Pois o Rio é uma cidade muito linda e muito dissipante”.

Quebrando a imagem do gênio intocado, Tom gostava de mostrar para os membros da família as canções que criava. Ana lontra descreve a história da formação da Banda Nova, que o acompanhou pelos palcos do Brasil e do exterior. Num rico nepotismo musical, Tom juntou as mulheres e os homens da família Jobim e Caymmi e integrou por afinidade emotiva/qualitativa o violoncelista Jaques Morelenbaum. Nas palavras de Ana: “Caymmi era uma espécie de entidade na vida do Tom. Com uma sabedoria que ele sempre respeitou muito. Existe uma irmandade entre o Tom e o Caymmi, entre os filhos do Tom e os filhos de Caymmi”.

Com pouco mais de uma hora de duração, o documentário dá conta de apresentar com uma linguagem emocionante e destituída de apelos, a grandiosidade do homem/artista Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom.

domingo, 19 de abril de 2009

Am I blue?


Tenho saudade da época das fitas cassetes, quando um dos meus maiores prazeres era gravá-las para os amigos. No processo de seleção das músicas eu ia treinando instintivamente minha sensibilidade, experimentando contrastes e texturas. Se o lado A começava por exemplo com um duo de piano e voz, as músicas seguintes possivelmente seguiriam num clima mais intimista, correspondendo à proposta sugerida na canção de abertura. Essa necessidade de “adequação climática” me fez demorar meses para concluir um lado, pois não encontrava a “música certa”. Minha ex professora de literatura, que acabou se tornado muito amiga, disse-me certa vez que minhas gravações eram adoradas pelo seu marido. Embora meu interesse jamais fosse seduzir maridos, acabei curtindo o barato da história. Guardo comigo uma cópia da terceira e última cassete que gravei (para o casal), modéstia parte meu melhor trabalho de edição.

Coloquei o título meio blasé de Am I blue?, inspirado na canção gravada por Billie Holliday. Abri o lado A com Chet Baker cantando Almost Blue, de Elvis Costello. Especialmente nesta canção Chet está sublime, intensamente in, com a voz calorosamente cool acentuando cada verso, sem desperdiçar nenhum colorido das notas. Não está tocando trompete, apenas canta acompanhado pelo piano e contrabaixo. Me apaixonei por Almost Blue assim que a ouvi pela primeira vez, o abandono e a esperança “quase azul”: “Almost blue/ Flirting with this disaster became me/It named me as the fool who only aimed to be”.

Escolhi para segunda faixa Tom Jobim interpretando sua Ângela: “Misteriosamente/Está tão diferente/Ângela/A face singular de Ângela, enquanto nos surpreende o amor”. Ângela está entre as mais belas e talvez menos conhecidas canções do maestro soberano: “Um compositor como eu escreve cerca de quatrocentas músicas na vida e fica famoso por uma ou duas delas”. Tom denso, exato e delicado com sua voz grave e seu piano econômico.

Em seguida entra João Gilberto, absoluto: “Estate sei calda como i baci che ho perduto/sei pena di un amore che è passato/che il cuore mio vorrebe cancellare”. Essa canção dos italianos Bruno Martino e Bruno Brighetti ganha o toque único de João. Só a lâmina de sua voz, acrescida pelos acordes precisos e a batida singular. Não tenho mais a referência do músico que toca com muita propriedade a vassourinha sofisticadamente cool (parece Robertinho Silva), que se casa com a dissonância da voz e da batida de João.

Quarta faixa, fixo meus olhos na fita que vai se enrolando em sua lentidão melancólica. Te acalma, minha loucura! Simplesmente a Doce presença (Ivan Lins e Vitor Martins) de Nana Caymmi e César Camargo: “Já tens meu corpo minha alma meus desejos/Se olhar pra ti estou olhando pra mim mesmo/Fim da procura/Tenho fé na loucura/De acreditar que sempre estás em mim”. Recordo-me que nesta época ouvia muito o disco Voz e suor, que marca o encontro entre Nana e César. César Camargo Mariano ao lado de Dori Caymmi e Cristóvão Bastos é um dos maiores arranjadores da música popular brasileira. Embora não aprecie muito a sonoridade meio “piano elétrico churrascaria” de algumas composições de Voz e Suor, os arranjos são belíssimos e valorizam o timbre e a interpretação de Nana. A carga emocional presente na voz de Nana se funde com a gravidade do piano de César, que escande nota por nota, as vezes meio jobinianamente como em Sede, de Moraes Moreira. César inicia a gravação marcando ritmicamente, enquanto Nana passeia pelas entranhas dos semitons. Nana é Caymmi e arrebatadora, sempre.

Nina Simone intensifica o clima in, cantando e tocando The other Woman, com sua interpretação absolutamente blue. É poderosa a voz áspera e rascante de Nina, acompanhada pelo trio cool composto por piano, baixo e bateria. Quando gravei essa fita meu desejo se inclinava para a criação de uma atmosfera noir, meio cult. Talvez eu quisesse transformar minha amiga e seu marido no casal Jean Seberg e Jean Paul Belmondo em Acossado ou em Maria Schneider e Marlon Brando em O último Tango.

A propósito, sou fascinada pela trilha sonora feita por Gato Barbieri para o filme de Bertolluci, minha vontade era coloca-la inteira no minúsculo espaço do lado B da fita. Na impossibilidade elegi a versão famosa do filme. Na sequência entram Piazzolla e Gerry Mulligan, tocando Twent years ago. Aumento mais o som acompanhando a explosão “erótica” desses dois artistas incríveis. O bandoneon de Piazzola me aquece, e vai elevando a atmosfera até atingir seu ápice na bela interpretação de Ângela Ro Ro para Joana Francesa , de Chico Buarque: “Mata-me de rir/Fala-me de amor/Songes et mensonges/Sei de longe e sei de cor”. Ângela é uma excelente intérprete de Chico Buarque, vide Bárbara, De todas as maneiras e Vida. De Jeanne Moreau a tantas outras versões de Joana Francesa, tenho especial afeto pelo registro de Ângela. Me chama atenção sua compreensão do universo dramático de Chico, expressa na dinâmica de sua voz grave e calorosa e na pronúncia perfeita. Adoro Ângela.

A fita vai chegando ao fim, mas não exclui a figura sempre onipresente de Caetano Veloso. Aprecio seu pleno exercício de canção com gosto-corpo-gozo e sentido, A outra banda da terra dispensa palavras: Amar/Dar tudo/Não ter medo/Tocar/Cantar/No mundo//Gozar a lida/Indefinidamente/Amar”.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Levando a vida a cantar



Eu gosto de ser mulher
Que mostra mais o que sente
O lado quente do ser
E canta mais docemente.
Antônio Cícero



Hoje faço trinta e quatro anos, e nesse momento sozinha em frente a tela branca, fria e incomunicável do computador, me invadem os versos acalentadores de uma canção da Joyce: “Vontade de rever amigos/ os gestos de sempre, a risada em comum/Contando as histórias e os casos antigos/As músicas novas/Sem moda, sem tempo nenhum”. Quatro da tarde, certamente não haverá tempo nem espaço para compartilhar um bolinho, um cafézinho, um maravilhoso banquete de sushis ou algumas taças de vinho. Hoje é dia dez de março, apenas.

Há duas semanas recebi um convite para escrever um texto sobre o tema Mulher, em virtude da comemoração do dia internacional da mulher. Tenho dificuldade para funcionar sob encomenda, tanto que faz três anos que devo a Heloísa Buarque um texto de duas laudas sobre Cacaso. Talvez por medo de não cumprir bem a tarefa, acabo me boicotando como se estivesse ainda atrelada ao contexto das obrigações escolares.

Elas são mulheres de 80, 90, 2000, como diz o diretor Daniel Filho no making off do recém lançado DVD revival do programa Mulher 80, realizado pela TV Globo e com excelente argumento de Luiz Carlos Maciel. Mulher 80 consistiu numa espécie de prolongamento em formato musical do seriado Malu Mulher, estrelado por Regina Duarte no vigor e beleza de seus trinta e dois anos.

Pois é Cecília, eu canto porque o instante existe, por isso nada melhor que preencher essa tarde revivendo o encontro único entre as cantoras Elis Regina, Marina Lima, Rita Lee, Maria Bethânia, Joana, Zezé Motta, Gal Costa e Fafá de Belém. Mulher 80 trouxe numa única apresentação tamanha carga de emoção e verdade, que ultrapassou os limites do tempo. “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, mas essas mulheres no esplendor dos trinta anos, há três décadas, substancialmente se parecem com as balzaquianas atuais.

Mulher oitenta coloca em evidência questões que assolavam o universo feminino na entrada da década de oitenta. Uma nova mulher começava a ocupar o centro do palco, pronta para a batalha que é reconhecer sua singularidade de “ser feminino” e ao mesmo tempo se afirmar com personalidade num mundo eminentemente machista. As incertezas, os sonhos e os desejos dessas artistas estão sintetizados no que de mais elevado elas sabem fazer: cantar. Saudades do furacão Elis: “Eu não vejo graça em outra coisa como eu vejo graça em cantar. Nem ter filho é mais importante que cantar”.

Regina Duarte conduz a cena antológica em que todas as cantoras de mãos dadas saem do fundo do palco cantando em uníssono a tão apropriada Cantores do rádio, de Braguinha e Lamartine Babo: “Nós somos as cantoras do rádio/Levamos a vida a cantar/De noite embalamos teu sono/De manhã nós vamos te acordar”.O clima de descontração contagia as moças que parecem meninas. Na quadrilha musical Elis brinca com Rita Lee, que brinca com Fafá, que brinca com Marina, que brinca com Zezé, que brinca com Gal...

Cada cantora interpreta uma canção emblemática que muito diz de seu estilo e momento. Começar de novo (Ivan Lins e Vítor Martins), cantada por Simone, se tornou de certa maneira uma música-manifesto. A nova mulher, desejosa de liberdade, é retratada na letra de Vítor Martins que toca fundo na ferida: “Começar de novo e contar comigo/Vai valer a pena ter amanhecido/Ter me rebelado, ter me debatido/Ter me machucado, ter sobrevivido/Ter virado a mesa, ter me conhecido”.

A sensualidade desponta na ainda menina Marina Lima, de trancinhas e com um vestido curtíssimo decotado em tom pérola: “Eu gosto de dançar, gosto de vestir roupa apertada. Eu tenho corpo bonito, sei que tenho.”A voluptuosidade de Zezé Motta que canta numa levada sensual Pecado Original (Caetano Veloso), com a pele negra e brilhante recoberta apenas por uma fina camada de ceda colorida.

A força telúrica de Bethânia aflora num dos momentos mais bonitos do programa, quando interpreta Álibi de Djavan, acompanhada pelo primoroso violão de Rosinha de Valença. Me encanta ver e ouvir Bethânia, grave e serena: “Eu sabia que ia trabalhar no palco, e que ia ser do palco e que ia ter uma vida de artista hollywoodiana. No palco eu não tenho medo de nada. Sabe, o palco é uma coisa estranha pra mim até hoje, não sei como é o palco, é uma coisa maluca. Não é como minha casa não, não é como minha rua. Eu não tenho medo de morrer, não tenho medo de barata.”

Contudo o feminino em exacerbada apologia soa kitsch na interpretação excessiva de Fafá de Belém. É tudo tão over que fica cômico, olhares lânguidos, corpo que se contorce em gestos eróticos. Fafá parecia encarar sem conflitos o papel de gordinha sexy.

Elis linda com uma orquídea lilás nos cabelos, nossa Billie canta, canta, canta, canta. Sempre densa, inquieta, incisiva: “Eu sou uma pessoa altamente insegura, eu não agüento a minha insegurança. Você acha que eu sou homem o suficiente pra me encarar bicho? Sozinha com um terapeuta? E depois eu vou ficar segura, de repente eu não canto, olha a minha insegurança”.

O telefone toca, é minha mãe: - Filha, comprei pra você de aniversário o cd de uma cantora que você vai adorar.... Lá vou eu nessa estrada infinita....

terça-feira, 24 de março de 2009

Encantada por Palavra encantada




Acabo de assistir novamente encantada a Palavra Encantada pela terceira vez. Me transformei na personagem Cecília, interpretada por Mia Farrow em A rosa púrpura do Cairo, de Woody Allen. Sentada sozinha na poltrona do lado esquerdo da última fileira do cinema abri meu caderninho de anotações musicais e deixei acesa a luz do celular, para que me servisse de lanterna nos momentos iluminados do filme que eu tentava aprisionar no papel.

Na ocasião do lançamento do meu cd dedicado a parceria Sueli Costa e Cacaso, um jornalista me dirigiu a seguinte pergunta: - Primeiro a poesia ou primeiro a música? Sem exitação respondi: - A música me leva até a poesia e a poesia me traz de volta para a música. Essa frase que soltei subitamente acabou se tornando meu lema de vida, a justificativa de tudo o que faço.

A questão do intercâmbio poesia e música não consiste em assunto absolutamente inédito, visto que tem surgido com frequência filmes e programas de TV relacionados ao tema, a exemplo de Vinícius (sobre a vida e obra de Vinícius de Moraes), Música é perfume (sobre Maria Bethânia) e Zumbido. Este último em formato televisivo, produzido exclusivamente para o Canal Brasil, reúne algumas entrevistas realizadas pelo compositor e cantor Paulinho Moska com nomes da música popular brasileira envolvidos com o universo poético como Lenine, Zeca Baleiro e Chico César. Contudo o tom que imprime Palavra encantada suplanta esses trabalhos pela profundidade e delicadeza no tratamento da questão.

A diretora Helena Solberg, que já havia incursionado com êxito no mundo musical no ótimo documentário Banana is my Business, baseado na vida da cantora Carmem Miranda, revela em Palavra Encantada seu talento na escolha dos entrevistados e da equipe responsável pela pesquisa, que envolve um rico material visual nunca antes divulgado para o grande público.

Palavra Encantada traz a tona o tema por vezes recorrente das inquietudes do processo de criação, porém com uma linguagem sedutora que dispensa os enjoados recursos didáticos. Adriana Calcanhotto abre a cena inaugural cantando à capella lindamente os versos de Chansong d'Ol Moz Son Plan e Prim, do poeta provençal do séc XII Arnaut Daniel, considerado um mestre na integração entre palavra e som. O canto puro e cristalino de Adriana anuncia a viagem pelos labirintos encantadores da canção, enquanto a câmera vai se aproximando delicada e vagarosamente da partitura. Helena Solberg mostra que conhece a arte das sutilezas.

Lenine reforça a idéia sugerida no canto de Calcanhotto ao afirmar que os compositores brasileiros são descendentes diretos da figura do trovador. A reflexão sobre a singularidade da linguagem da canção se explicita nos depoimentos de Paulo César Pinheiro e Chico Buarque. Bem humorado e a vontade sentado ao lado do piano, Chico tenta sem muito sucesso resgatar sem o auxílio de nenhum instrumento alguns versos de sua composição Uma palavra, pleno exercício de canção metalinguística que prescinde da música para existir. Guiando-se pela melodia guardada em sua memória auditiva, Chico vai tentando desatar as palavras de Uma palavra: “Palavra viva/Palavra com temperatura, palavra/Que se produz/Muda/Feita de luz mais que de vento, palavra/Palavra dócil/Palavra d’água pra qualquer moldura/Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa/Qualquer feição de se manter palavra”.

Paulo César Pinheiro complementa Chico Buarque ao falar os versos de Só danço samba, palavras que segundo o letrista só sobrevivem com o suporte da música. A emoção toma conta da tela quando Liminha do Cordel do fogo encantado recita o poema Os três mal amados, de João Cabral. É tocante ver a platéia absolutamente extasiada repetindo os versos junto com Liminha: “O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte”.

Imagem comovente é a da poeta Hilda Hilst sendo entrevistada por Zeca Baleiro em sua Casa do Sol, um pouco antes de morrer. Close na face muito pálida desgastada pelo tempo e pela dor, Hilda dá uma tragada profunda no cigarro e solta: “As pessoas cagam para os poetas”. Um pouco adiante a cantora Zélia Duncan descreve emocionada a sensação de deslumbramento que a invadiu, quando soube que os poemas de Hilda Hilst ganhariam vida ainda mais intensa ao serem musicados. Sem melodramas, mas devo confessar que me bateu vontade de chorar quando Zélia de modo suave cantou à capella alguns trechos de Ode descontínua para flauta e oboé: “Porque tu sabes que é de poesia/Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,/Que a teu lado te amando,/Antes de ser mulher sou inteira poeta./E que o teu corpo existe porque o meu/Sempre existiu cantando./Meu corpo, Dionísio/É que move o grande corpo teu.”

Vale destacar as belas imagens inéditas, algumas de tão majestosa plasticidade que me remeteram a Humberto Mauro. Uma maravilha ver o jovem Dorival Caymmi cantando e contemplando o mar, seu universo infinito. Bethânia densifica: “Dorival Caymmi é como Guimarães Rosa: é um Brasil bruto, puro iluminado. Caymmi é o céu e a terra”.

O humor também preenche algumas cenas, como no momento em que Ismael Silva canta numa performance expressionista muito estranha para os padrões atuais. Com a voz cheia de vibratos e a boca em excessiva abertura, a interpretação de Ismael soa engraçada e destoante. Tom Zé é indiscutivelmente genial e gozadíssimo em seus comentários. Espontâneo, musicalíssimo e antenado a tudo, rouba a cena quando canta sua impagável Jimmy renda-se. Impossível conter o riso quando ele de maneira escrachada brinca com os astros CaetanoVeloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Janis Joplin e Bob Dylan, colocando todos no mesmo balaio de gatos: Bob Dica, diga/Jimi renda-se!/Cai cigano, cai, camóni boi/ Jarrangil century fox/Galve me a cigarrete//Jani chope chope chope chope.”

Com a participação também de outros nomes fundamentais da produção e do pensamento musical como Wisnick, Tatit, Arnaldo Antunes, Martinho da Vila e Antônio Cícero, o filme percorre todo o seu caminho com estilo, sinceridade e elegância. Tarefa difícil essa de conseguir atingir o equilíbrio. Volto para assistir de novo, sem vergonha de ser Cecília!